Publicado por: Leandro | 16 Dezembro 2009, 11:23 am.

Mercado Municipal de Fortaleza

Eu já conhecia Fortaleza de outros carnavais.  Por motivos profissionais, são frequentes na minha vida as visitas à capital cearense.  Quem acompanha o blog já deve ter percebido isso, pelo tanto de posts que eu já escrevi sobre a cidade.   Mas como  profissional turista, o máximo que eu conseguia fazer era visitar a feirinha da Beira-Mar, de noite.  Eu nunca havia conseguido ir ao Mercado Central.  Dessa vez, de férias, eu fui!

Arquitetura sinuosa e intrigante

Arquitetura sinuosa e intrigante

Fiquei surpreso ao ver que, dentro dele, a arquitetura sinuosa e instigante é linda, bem diferente do caixote de concreto que ele aparenta ser, para quem olha somente a sua fachada.  Os corredores em forma de arquibancada, as rampas que se cruzam em torno de pilastras, o teto envidraçado que deixa entrar muito da abundante luz do dia, tudo é muito bonito.  E organizado também, dentro do caos que se espera de um mercado dessa natureza e com essa proporção.

Cheguei no meio da tarde, o almoço não foi dos melhores, não sobrava muita coisa de bom para encher o prato.  Acabou sendo um almoço sofrível, mas com a certeza de que teria sido ótimo, se eu tivesse chegado antes do meio-dia.

Dentro dele, todos os produtos que você encontra na feirinha da Beira-Mar estavam à venda, mas em variedade maior, concorrência maior e, em alguns casos, preços menores e ofertas melhores.  E havia outros produtos também, que não era possível encontrar na feirinha.

Loja de castanhas

Loja de castanhas

São produtos do Nordeste, em sua ampla maioria: redes, castanhas (a loja do Aleison é pequena, mas é a melhor de todas, para comprar castanha!), licores, descasos de prato, toalhas de mesa, cachaças, artesanato…  Tudo a preços excelentes, qualidade boa, com extrema simpatia no atendimento – mas isso não é novidade, em se tratando de Nordeste – e, para quem gosta, com direito a negociação e barganha.  Pagar em dinheiro, à vista, sempre é mais barato.  Para quem não se programa, porém, sempre é possível usar cartões de crédito e débito.

Publicado por: Leandro | 15 Dezembro 2009, 12:10 pm.

O centro de Fortaleza

Fortaleza é uma cidade grande, bem grande e o seu centro histórico não é muito diferente do centro de outras cidades brasileiras de idade e porte semelhantes.  Chamou a minha atenção, apenas, a carência de pontos de interesse turístico.  Não é que eles não existam: eles estão lá, mas são poucos para um centro histórico geograficamente tão grande.

No fim, eu adorei o meu passeio, feito a pé, com duração de quase um dia inteiro.  Vou reproduzi-lo, aproximadamente, aqui.  Estimo, a partir de medições feitas no Google Maps, ter andado uns oito quilômetros.

Centro Cultural Dragão do Mar

Centro Cultural Dragão do Mar

O passeio começou com uma caminhada pela Monsenhor Tabosa, andança pelas lojas.  Para quem não conhece, essa rua é a irmã gêmea da Rua Teresa, de Petrópolis.  São várias lojinhas, uma do lado da outra, vendendo todo tipo de produto de itens de vestuário, com mais variedade que a feirinha da Beira-Mar.

A rua termina numa praça, onde há um obelisco bonito, mas que ostenta sinais de abandono.  À direita, o Centro Cultural Dragão do Mar.  À esquerda, o Seminário da Prainha – que estava com a fachada coberta de andaimes, indicando a realização de uma grande obra de restauração.

Catedral Metropolitana

Catedral Metropolitana

Desci a rua Rufino de Alencar até a Catedral.  Imensa, imponente, gótica.  Destoa do resto da paisagem da cidade.  Não há nada ali que evoque o gótico.  Aliás, acho que o gótico não combina nada com terras tropicais.  Por dentro, vi uma igreja relativamente nova, destoando do gótico já um pouco envelhecido da parte externa, com vitrais tão bonitos quanto impecáveis.

Saí dali e resolvi andar pelas ruas do centro, sem rumo, para ver o comércio e sentir o ar da cidade.  Preferi deixar o Mercado Central por último, atravessei a rua e entrei na Travessa do Crato e, depois, na Rua General Benzemil.  Ali há um monte de lojas de ferrarias que vão, gradativamente, se transformando em lojas de redes, tecidos e outros produtos da região – todos de alta qualidade e excelente preço.  Entre calçadas estreitas, forte calor e milhares de pessoas, degustei aquilo tudo.  Comprei umas lembranças.

Igreja do Rosário

Igreja do Rosário

Até chegar numa pracinha – não lembro o nome – onde há uma igrejinha – que, depois, descobri chamar-se Igreja do Rosário.

Antes de ver a igreja, entrei no Museu do Ceará.  Ele fica no prédio da antiga Assembléia Legislativa do Estado.  Um prédio antigo, histórico, razoavelmente bem tratado.  O museu apresenta acervo bastante interessante, com diversas peças que retratam a história do Ceará, desde a ocupação indígena até períodos bastante recentes, como a ditadura militar dos anos 60/70.  Não lembro de nada digno de destaque – o que não significa que o museu dispense a visita.  A ausência de destaque fica por conta de o acervo ser um todo bastante homogêneo, sem que uma peça chame muito mais atenção que as demais.

Depois do museu, a igrejinha.  Linda e simples.  Parece deslocada naquele centro enorme, cheio de pessoas atarefadas andando para lá e para cá.  Ela parece ser a testemunha da época que Fortaleza era apenas uma pequena fortaleza, nada mais.

Parque das Crianças

Parque das Crianças

Dali, uma caminhada mais longa conduz até uma grande praça, chamada Parque das Crianças.  Um parque um tanto abandonado, diga-se de passagem.  Tem um paisagismo interessante, umas palmeiras enormes, mas um tanto largado, sem crianças.  Chega a dar medo ficar ali.  Do lado oposto do parque, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus mais parece um ginásio – não fosse a cúpula redonda, eu teria certeza tratar-se de um ginásio esportivo.

Continuando, passei pela Praça do Banco do Nordeste e subi até a Praça do Ferreira, percorrendo ruas que, embora muito movimentadas, não tinham tanto atrativo turístico.  Havia, sim, muitos bares servindo refeições, tanto PF’s quanto comida a peso.  Eu ainda não estava com fome e segui meu rumo.

A Praça do Ferreira me pareceu ser o centro nervoso do decadente centro histórico de Fortaleza.  O relógio ainda está lá, o cinema de rua também. – coisa que praticamente não existe mais aqui no Rio de Janeiro.  E um mundo de gente andando para todos os lados.  No meio daquele calor infernal, depois de estar andando por tanto tempo, com mochila e câmera nas costas, eu só pensava em arrumar uma sombra para me esconder.

Mercado Central

Mercado Central

Com sede e com fome, eu ainda queria ver duas coisas no centro de Fortaleza: a fortaleza e o Mercado Municipal.

A fortaleza, a que me refiro, é o muro que testemunha as origens da cidade, voltado para o mar, na Av. Leste-Oeste.  Hoje, é o muro do quartel da 15a Região Militar.  Eu achava que a fortaleza ainda existisse como tal, mas descobri que não.  Só resta o muro mesmo.  Dei uma volta pelas ruas no entorno do quartel e descobri uma pracinha bonita, com vista e brisa para o mar.  Foi ali também que eu encontrei a placa desse post.

Era hora de conhecer o Mercado Municipal.  Mas ele será assunto de outro post.

Publicado por: Leandro | 14 Dezembro 2009, 1:13 pm.

Sobre a igrejada na cara do Berlusconi

O Berlusconi, primeiro ministro italiano, foi vítima de um atentado ontem.  Segundo notícias, ele foi alvo de uma miniatura do Duomo de Milão – um souvenir – jogado por um doido varrido.  Quebrou o nariz, alguns dentes e sofreu outros ferimentos.  E se isso ocorresse em outras partes do mundo?

Se fosse nos EUA, seriam proibidas todas as vendas de estatuetas de metal de souvenires em todos os pontos turísticos do país; os formulários de imigração seriam modificados para constar novas perguntas “Você pretende praticar agressões contra o Presidente da República?  Você possui miniaturas de igrejas na bagagem?”; imediatamente seriam achadas ligações entre o atacante e a Al Qaeda; em seis meses, os EUA declarariam guerra a algum país do Oriente Médio; em um ano, Michael Moore lançaria um filme acusando a precariedade do sistema de saúde americano pelo atentado.

Se fosse no Irã, seriam exigidas desculpas formais do Vaticano pelo atentado; os EUA, com a sua CIA, seriam declarados os autores intelectuais do atentado, tendo fornecido, inclusive, o material e o apoio financeiro necessário à sua execução; o presidente convocaria o povo para uma jihad contra o imperialismo norte-americano; em um mês, ocorreria um atentado suicida na lojinha de souvenires do Duomo de Milão cuja autoria seria assumida por algum grupo paramilitar iraniano; em seis meses, o Irã anunciaria ter feito um teste, com sucesso, de lançamento de mísseis balísticos capazes de alcançar lojas vendedoras de igrejas em miniatura num raio de cinco mil quilômetros.

Se fosse no Japão, os seguranças do Presidente fariam Harakiri coletivo; seria construído um memorial em honra e memória às vítimas do atentado; em um mês seria anunciado o desenvolvimento de uma tecnologia inovadora capaz de detectar a aproximação de miniaturas de igrejas e modificar sua trajetória com um simples piscar de olhos; em seis meses, os japoneses anunciariam a quebra do recorde mundial de velocidade em transporte sobre trilhos.

Se fosse na Argentina, o país declararia uma nova moratória no pagamento da dívida externa, alegando a necessidade de intensificar os gastos com a segurança presidencial; a imprensa ligaria o ataque à falta de energia no país; as Mães de Mayo voltariam a fazer protestos em frente à Casa Rosada, pedindo explicações sobre o paradeiro de seus filhos, desaparecidos durante a ditadura militar; Maradona seria chamado para chefiar a equipe da segurança presidencial; os argentinos diriam que são os melhores no mundo em lançamento de miniatura de igrejas no rosto do presidente e pleiteariam junto ao COI a inclusão da modalidade nas próximas Olimpíadas; em seis meses, os livros escolares seriam modificados para explicar que a Guerra das Malvinas só não foi vencida porque o exército argentino não estava equipado com miniaturas de igrejas.

Se fosse na Inglaterra, a família real acusaria a família Spencer pelo atentado; os tablóides sensacionalistas passariam um mês publicando fotos inéditas sobre o atentado; seriam achadas várias evidências de que a vida particular do autor do atentado era repleta de orgias e incestos; em um mês, os índices de popularidade da rainha, vítima do atentado, subiriam estratosfericamente; em dois meses, um novo escândalo envolvendo um príncipe da família real jogaria tudo no esquecimento; em seis meses a Inglaterra perderia a Copa do Mundo novamente.

Se fosse na Coréia do Norte, ninguém saberia de nada; em seis meses, seria anunciado um novo teste com mísseis balísticos capazes de conduzir ogivas nucleares.

Se fosse na Alemanha, as vendas de cerveja aumentariam sensivelmente; grupos de extrema esquerda acusariam imigrantes turcos pelo atentado e promoveriam várias faxinas étnicas em pontos isolados do país; surgiriam documentários no Discovery Channel ligando o atentado a algum episódio da Segunda Guerra Mundial; em um mês, o parlamento alemão votaria uma lei anti-lançamento de miniaturas de igrejas em autoridades públicas; em seis meses, a BMW lançaria um novo modelo de carro ultraluxuoso, no salão do automóvel de Frankfurt.

Se fosse em Israel, os palestinos seriam declarados culpados pelo atentado; seria construído um muro para proteger o presidente de novos ataques; o país faria a maior encomenda de material bélico da história para proteger suas fronteiras; os israelenses creditariam o atentado à fúria divina por uma transgressão das leis da Torá, tentariam encontrar nas escrituras uma profecia para o atentado, mandariam oferecer sacrifícios a Deus para a realização de uma nova aliança; diriam que é o início de um novo holocausto; em seis meses, tomariam a Faixa de Gaza, invadiriam a Jordânia e parte do Egito.

Se fosse no Brasil, nas quatro horas seguintes, eu receberia milhares de e-mails com charges e piadas sobre o atentado; um líder do PT iria à tribuna do Congresso acusar filiados do PSDB pelo atentado; um líder do DEM acusaria integrantes do MST pelo atentado; a imprensa só falaria disso até o próximo surto de dengue; em um mês tudo estaria esquecido; em dois meses, seria Carnaval; em seis meses, o Brasil ganharia outra Copa do Mundo e os jogadores estenderiam uma faixa em campo dizendo “Lula, lutamos juntos, o Hexa também é seu!”; no dia seguinte, o Jornal dos Sports publicaria manchete dizendo: “Seleção Brasileira iguala o Hexa do Mengão”.

Publicado por: Leandro | 13 Dezembro 2009, 9:33 am.

Divulgação de boas ideias

Ideias simples (gente, como dói escrever ideia sem acento…), mas boas, têm que ser divulgadas.  Por isso é que eu vou contar aqui o que eu vi ontem.  Eu não podia ter contado antes porque era segredo – calma, vocês já vão entender.  Ontem o tal segredo foi revelado publicamente.  Pena que não rolou a surpresa esperada porque a pessoa para quem a surpresa se destinava descobriu o negócio, por acaso, na última quarta-feira.  Enfim…

Ontem fui a uma festa – e que festa! – de uma parente da Fiona.  Ela estava comemorando seus quarenta anos de idade – apesar de não parecer tanta idade.  A festa bombou!  Cantaram parabéns e ninguém arredou o pé dali.  O DJ começou a mandar mal, tentando expulsar o povo, mas ninguém se mancou - dançaram até ao som de Rosana e Callypso.

Mas isso tudo não vem ao caso.  O negócio é o presente que o marido da aniversariante preparou e deu para ela: um blog.  Essa foi a ideia simples e genial que eu falei no início.  Ele mandou um e-mail para toda a lista de destinatários dela, explicando a ideia e pedindo que as pessoas escrevessem mensagens para ele publicar no blog.  As pessoas responderam o e-mail com suas mensagens e ele copiou, colou e adicionou, quando possível, uma foto da aniversariante com a pessoa ou outra imagem alusiva ao e-mail/post.

O resultado, além disso aqui, foi uma choradeira sem fim da aniversariante e um monte de gente lendo as mensagens do blog projetadas num telão durante a festa.

Publicado por: Leandro | 10 Dezembro 2009, 6:33 pm.

United breaks guitars

O vídeo está fazendo o maior sucesso na internet já há algum tempo.  Reza a lenda – e na internet não há nada tão verdadeiro que mereça total crédito, mas essa lenda tem lá algum fundo de verdade – que o cara em questão viajou pela United Airlines e viu o seu violão ser maltratado (para dizer o mínimo) pelos funcionários da companhia aérea.  Reclamou e de nada adiantou.  Então ele resolveu usar a força da internet para, com sua música, protestar.  Reza a lenda, também, que a United o procurou por um bom tempo tentando fazer um acordo milionário.  Não sei se conseguiu.  Quem tiver informações a respeito, por favor, informe nos comentários.

Publicado por: Leandro | 10 Dezembro 2009, 9:47 am.

E na cueca do povo…

O sujeito da foto estava protestando contra a roubalheira do Arruda

Foto emprestada do G1

A sabedoria popular diz que uma imagem vale mais que mil palavras.  Eu, hoje, queria comparar duas imagens: essa aí do lado e aquelas de políticos e figurões enfiando dinheiro em todos os buracos possíveis em suas roupas.

Não adianta a galera do Arruda tentar explicar a imagem do pagamento da negociata com direito a esconder dinheiro na cueca: é corrupção mesmo, safadeza, imoralidade, putaria com o dinheiro e, pior, com a cara do povo.

Da mesma forma, também não adianta a galera do Arruda tentar explicar a imagem aí de cima: é porrada, maldade, covardia, violência gratuita e excessiva, perpetrada contra gente que protestava contra os atos revelados por aquelas cenas.  Se você clicar na imagem e vir o vídeo da matéria para a qual o link vai lhe levar, você poderá reparar que, em determinado momento, um policial bate, injustificadamente, com o cacetete na nuca de uma pessoa que está deitada no chão de bruços!!!

Quer dizer então que a gente tem que assistir os caras esconderem dinheiro na cueca passivamente?  Ninguém pode se manifestar?  Ninguém pode protestar?  Ninguém pode reagir?

Na cueca deles, vai dinheiro, muito dinheiro.  Mas na cueca do povo…

Publicado por: Leandro | 9 Dezembro 2009, 8:48 am.

Hexacampeão!!!

Eu queria estar no Maracanã para ver isso, mas minha falta de fé (depois de não vencer o Goiás, não achei que o Hexa, este ano, fosse ainda possível), a absoluta desorganização na venda de ingressos (ninguém conseguiu comprar ingresso pela internet e eu não tenho tempo para ficar na fila um dia inteiro, até porque estava em São Luís quando os ingressos foram postos à venda e efetivamente vendidos), e o meu senso de risco para fazer negócios (eu aceitava correr o risco de ver o Flamengo não ser campeão, mas não aceitava o risco de não conseguir entrar no Maracanã por ter um ingresso falso na mão), me impediram de conseguir um ingresso.  Não fui, e não vou poder contar aos meus filhos que eu estava lá.

Escrevo hoje com a racionalidade de três noites de felicidade bem dormidas na bagagem.  Isso já é uma boa dose de razão, mas não é tudo, ainda.  Se me perguntarem se a ficha caiu, vou responder que ainda não sei.  Ainda há um pouco daquela sensação de alívio pós-apito-final em mim.

Sinceramente, eu achava que não ia viver para ver esse dia chegar.  Brasileirão sem final?  O Flamengo não teria a menor chance.  Com sanguessugas como Kléber Leite e a sua Traffic usando o Flamengo como balcão de negócios, deixando salários e prêmios atrasados por meses, sem centro de treinamento decente, sem pressão da torcida em jogos de vida ou morte, sem a pressão psicológica que se abate sobre todos os outros times do universo quando sabem que sobrou uma vaga para o Flamengo na fase mata-mata de um campeonato?  Eu teria mesmo que me contentar com a felicidade que senti ao ler a notícia do pentacampeonato do Flamengo há dezessete anos, nas ruas de São Francisco.

Eu – e a torcida do Flamengo, literalmente – me acostumei a ver o Flamengo entrar em campo como um rolo compressor, especialmente em jogos finais.  No domingo, não era o time do Flamengo em campo.  Se era o time, não era a camisa.  A camisa jamais deixaria um time se comportar daquele jeito em um jogo decisivo.  O time caminhava em campo, como se o resultado já estivesse combinado.

E, convenhamos, estava.  Mas eu queria ver para crer.  E quando o Grêmio abriu o placar, eu só queria saber o nome do desgraçado que havia dado a ideia de fazer uma vitória de virada, só para fingir que o jogo era para valer.  Eu o trucidaria, se soubesse seu nome.

Com a torcida calada, aflita, eu só queria um microfone para chamá-la à razão: era dia de regra, não de exceção.  De exceções, o Flamengo já estava cheio e caleijado – Goiás, América do México, Atlético Mineiro, Santo André…  A regra é: Flamengo + Final + Maracanã = Título.  Ainda que faltasse, por cartolagem, o elemento do meio da fórmula, o resultado seria o mesmo.  E, outra chance, só daqui a, quiçá, outros 17 anos.  Esperar tanto tempo é coisa de botafoguense, não de flamenguista.

Acabou sendo tudo como tinha que ser, sem uma final: sofrimento, angústia, medo, alívio e felicidade.  Segunda-feira, no trabalho, eu não precisei zoar ninguém: os súditos da torcida arco-íris vieram prestar sua vassalagem espontaneamente.  E como um bom suserano, eu lhes incentivei, felicitando-os pelas suas medíocres conquistas: vitória na série B e fuga do rebaixamento.

Enquanto isso, o urubu voava alto…  Seis vezes mais alto.

Publicado por: Leandro | 7 Dezembro 2009, 9:39 am.

Mas com palavras, não sei dizer…

Como hoje eu estou sem condições de escrever qualquer coisa, vou copiar e colar o texto do Rica Perrone, que já diz tudo mesmo.

Eu pensei muito. Estou em pé desde as 5 da manhã, e quando digo em pé não me refiro a estar acordado. Me refiro a estar sem me sentar mesmo. Avião, taxi, fila, arquibancada, enfim, um dia sofrido, porém feliz.

Quando entrei no avião pra voltar, pensei em tudo que eu poderia escrever sobre hoje. Em exaltar a torcida, falar do Andrade, do Maracã, do penta ou hexa, do Bruno, do sofrimento… Mas não.

Eu fico com as palavras da torcida do Mengão, que aos 45 do segundo tempo cantou em coro que “com palavras, não sei dizer…”.

Não tem explicação.

Eu fui a 700 jogos na minha vida, 650 na arquibancada. Diversos times, diversos estádios. Vi finais e mais finais.

Eu nunca vi uma torcida comemorar tanto um gol.

Eu nunca vi uma festa tão bonita.

Eu nunca vi um estádio tão bonito lotado.

Eu nunca vi um time ter tanto medo de ser campeão.

Eu nunca vi uma torcida ter tanto medo do fiasco.

Eu nunca vi um drama tão desnecessário.

Eu nunca vi nada do que eu vi hoje.

Eu nunca vi um gol tão bonito quanto feito.

Eu nunca vi um time jogar tão mal uma decisão.

Eu nunca vi um time ser tão querido por uma nação.

Eu nunca vi uma nação inteira vestida com a mesma roupa.

Eu nunca vi tanta gente feliz junta.

Eu nunca vi tanta paixão num só lugar.

Eu nunca tinha visto.

Hoje eu vi.

Aprendi, ao vivo, a cores e dentro da arquibancada, em pé, passando aperto pra entrar, e no meio da nação, o que é ser Flamenguista.

Eu achava que sabia. Mas não sabia.

Não, eles não são melhores do que os outros. Mas também não são iguais.

Eles são únicos.

Eles amam aquela coisa de uma forma inexplicavel.

E quando eles dizem “sai do chão, sai do chão!”, não é uma musica, é uma ordem.

E se você não sair, eles te tiram.

E se você conseguir, no meio deles, ficar livre de qualquer envolvimento, você é um ET.

Não existe torcida mais bonita.

Não existe relação mais incrível como Flamengo x Rio de Janeiro.

Nunca vi uma cidade vestida com a mesma roupa desde as 8 da manhã de um domingo.

Nunca vi nada parecido com o que eu vi hoje.

Nunca vi tanta gente merecer tanto um título.

Não, não me refiro aos 30 jogadores do elenco. Me refiro aos 35 milhões de eternos jogadores do elenco.

Nação… me desculpem. Eu sei que esperavam um belo texto hoje.

Mas… nada do que eu escreva vai ser mais bonito do que aquilo que vi.

Parabens! Vocês merecem.

abs,
RicaPerrone

Publicado por: Leandro | 6 Dezembro 2009, 9:49 am.

Sorteio dos grupos da Copa do Mundo

O sorteio dos grupos da Copa do Mundo foi na sexta-feira e já tem um monte de gente dando palpite por aí: quem vai se classificar para a segunda fase, quem não vai, qual é o grupo mais difícil, qual o mais fácil, quem vai pegar quem nas oitavas-de-final…  Deixa eu dar os meus palpites também!

Grupo A: É o grupo mais equilibrado.  De todos, a África do Sul é a seleção mais fraca, mas a torcida, com aquelas cornetas cujo nome eu esqueci, deve nivelar a disputa.  Mesmo assim, acho que a Copa do Mundo verá, pela primeira vez, o país sede não avançar às oitavas-de-final.  O grupo será marcado por muitos empates e poucas vitórias.  Por isso, os gols feitos valerão mais que o saldo de gols.  Aposto que México e França se classificam, nessa ordem.

Grupo B:O problema da Argentina não é o grupo para o qual ela foi sorteada, mas seu técnico.  Do jeito que está, ela será a decepção da Copa, não avançando à segunda fase.  Vai se perder na correria dos sul coreanos e amargar empates contra a forte Nigéria e a defensiva Grécia (não esperem rever o massacre de 94).  Aliás, esse jogo vai ser interessante, porque foi na sua edição de 94 que Maradona foi pego no antidopping que encerrou sua carreira.  Vou apostar em Coréia do Sul e Nigéria.  Uma aposta ousada, eu sei, mas hoje é o meu dia de gatomestrar.

Grupo C: Inglaterra e EUA devem se classificar sem percalços.  A emoção do grupo ficará por conta do fato de que eles farão o primeiro jogo entre si.  Um vai vencer e ao outro restará a obrigação de bater Eslovênia e Argélia para se classificar.  Aliás, a Argélia será um dos sacos de pancada da Copa: perderá todos os jogos e fará, no máximo, dois gols.  E a Inglaterra deverá cruzar o caminho do Brasil nas semi-finais – se o Brasil não perder para a Holanda antes.

Grupo D: Eu não sou doido de apostar que a Alemanha vai passar como um trator sobre seus adversários da fase de grupos.  Mas a segunda vaga vai ser bastante disputada entre Gana e Sérvia.  Aposto em Gana para a segunda vaga.

Grupo E: Segurem a Holanda.  Levo muita fé nesse time que, na Copa passada, era muito verde, aprendeu uma baita lição na Copa Europeia, quando perdeu para a Rússia de Guus Hiddink e, agora, amadurecida, vem com tudo para esta Copa do Mundo.  Vai ser das poucas seleções que se classificará com nove pontos (talvez somente Alemanha, Brasil e Espanha também o façam).  As quartas-de-final contra ela serão a maior pedreira da Copa para o Brasil.  No meu chute, e aqui não há nada além de um chute, é que Camarões ficará com a segunda vaga.

Grupo F: O Paraguai será a grande surpresa da Copa e vai se classificar em primeiro desse grupo.  Até porque, tendo a Itália como companheira – que vai se classificar aos trancos e barrancos, como é seu estilo – isso fica mais fácil.  A Nova Zelândia vai ser outro saco de pancadas da Copa.  Se não fizer gol na estreia, contra a Eslováquia, não fará mais nenhum gol até sua despedida.

Grupo G: Eu acho que o Brasil caiu num grupo fácil sim.  Todos os comentaristas apostam na Costa do Marfim, mas eu aponto eles como a possível grande decepção da Copa.  Também aponto a Coréia do Norte como o maior saco de pancadas da Copa, assim como a China foi em 2002.  A segunda vaga será decidida no primeiro jogo, entre Portugal e Costa do Marfim.  E eu aposto em Portugal para a segunda vaga.

Grupo H: A Espanha também caiu num grupo fácil e, se ela e Brasil se classificarem em primeiro, como eu acho que vão, farão a final da Copa.  A segunda vaga ficará com a Suíça, porque o Chile do insano Marcelo Bielsa vai se estrepar tanto quanto a Argentina de Maradona.  E Honduras concorrerá com a Coréia do Norte para o título de maior saco de pancadas da Copa.  Aliás, acho que os dois não farão sequer um golzinho durante o torneio.  Resta saber qual deles vai levar mais gols, apenas.

Publicado por: Leandro | 5 Dezembro 2009, 2:48 pm.

Termômetro

A melhor maneira de você testar a resposta do público ou da sociedade a algum estímulo é dar um passeio no Largo da Carioca ou na Cinelândia no dia seguinte ao estímulo.  Caminhe por essas duas praças (são bastante próximas), atravesse a Rio Branco na altura da estação do metrô da Carioca e observe a multidão.

Na última segunda-feira, um pouco de propósito, eu fiz isso.  Eu queria saber se o tal clima de oba-oba, já ganhou, ou o que seja, tinha tomado conta da torcida do Flamengo.  Mas como medir isso?  Simples: bastava observar a quantidade de camisas circulando por ali.

E eu não me surpreendi.  O que vi foi uma festa contida.  Poucas camisas, menos do que se o Flamengo houvesse conquistado uma Taça Guanabara (expressão mínima da vitória), mais do que após uma vitória emblemática (não digo de goleada, mas uma vitória importante) sobre um time rival do Rio de Janeiro.  Era, sim, apenas a festa da liderança do campeonato, com um quê de expectativa, um quê de otimismo.  Afinal de contas, o Flamengo tomara a liderança da prova depois da última curva, já na reta de chegada.

Pois bem: a bandeirada está ali, ao alcance dos olhos de quatro times, e será dada amanhã.  Não acho que o Grêmio vá engrossar para cima do Flamengo.  O time está cheio de desfalques, nunca ganhou fora de casa e, embora diga que não, tem todo interesse em prejudicar o arquirrival, Internacional.  Mas vou esperar até o apito final, com a mesma expectativa e alegria contidas que a torcida me demonstrou na segunda-feira.

Publicado por: Leandro | 4 Dezembro 2009, 6:43 pm.

Pau de arara 2

Segunda vez que eu saio de São Luís voando pela Gol.  Segunda vez que eu venho num voozinho pau de arara do cacete.  Quase uma epopeia!  Tantas histórias para contar…

Para começar, o horário do voo já é uma safadeza: sai de São Luís às 2:20h da madruga e chega no Rio de Janeiro três horas depois, mais ou menos.  Se não fosse o único voo direto do dia, a tentação de pegá-lo não passaria nem perto.  Mas como as minhas opções eram pegá-lo ou chegar em casa às 19h do dia seguinte, depois de fazer escala em Fortaleza e conexão em Recife, resolvi encarar.

Fiz check in antecipado, pela internet, e escolhi o penúltimo assento, janela, do lado esquerdo para assistir o nascer do sol.  Com poucos assentos marcados, eu esperava que o voo estivesse vazio.  Assim poderia dormir a noite toda, tranquilamente.

Cheguei no aeroporto uma hora da manhã.  Senti-me no Serengeti, presenciando a Grande Migração.  A quantidade de gente com a camisa do Flamengo no corpo era impressionante.  Respirava-se a euforia do jogo, da vitória, do hexacampeonato.  Eu, que por dois dias estive fora do Rio, longe dessa tensão pré-jogo, rapidamente fui chamado de volta à minha realidade, à minha ansiedade.  A semana mais longa da minha vida ainda estava longe de terminar.  E eu já me senti um pouco em casa. 

Fila enorme para o raio-x, sala de embarque lotada.  Parecia a sucursal do inferno.  Eu tentava me manter com sono, para capotar assim que entrasse no avião – que lotou, frustrando minhas expectativas de um sono tranqüilo e confortável com três assentos só para mim.  Do meu lado sentou-se um casal de advogados (o teor da conversa os denunciava): a moça do meu lado e o cara no corredor.

O avião decolou, fez a volta sobre São Luís, virou de proa para o sul e seguiu viagem.  Ao atingir o nível de cruzeiro, o serviço de bordo começou e o piloto abriu o microfone.  Falou aquela baboseira padrão: altitude, tempo de viagem, previsão meteorológica…

- Gostaria também de saudar os passageiros presentes que torcem para o time que será campeão brasileiro no próximo domingo, meus amigos flamenguistas… – e uma chuva de aplausos e gritos de torcida irromperam dentro do avião!  O piloto se empolgou e começou a discursar.  Disse que gostava muito do Flamengo mas que, como maranhense, torcia mesmo para o Sampaio Corrêa (e novos gritos de torcida, dessa vez em menor quantidade, irromperam dentro do avião).  E não parou por uns dez minutos, sempre falando do jogo de domingo.  Finalmente ele terminou e repetiu, em inglês, apenas a parte obrigatória do discurso.

Acabou o serviço de bordo.  Eu já estava mais para lá do que para cá.  As luzes se apagaram e eu pensei que fosse dormir.  Um cara começou a roncar baixinho.  Não consegui localizar exatamente quem era, mas ainda dava para dormir com aquele barulho.  Só que eu não conseguia pegar no sono porque a garota do meu lado não parava de se mexer.  O namorado dela já tinha dormido, mas ela não aquietava o facho.  Soltei uns palavrões, alto o suficiente para ela ouvir, mas ela não se mancou.

Tentei dormir novamente, mesmo com aquele incômodo.  Impossível!  Um cara no corredor, do outro lado da minha fileira, começou a roncar muito alto.  Tão alto que às vezes ele mesmo acordava com o barulho do próprio ronco.  Sorte dele que eu não estava no corredor, senão ele não ia dormir.  Ninguém fez nada.

Enquanto isso, a garota do meu lado não parava de se mexer.  Virava para lá, virava para cá, colocava o casaco nas costas, tirava, abotoava a blusa, tirava a sandália, levantava as pernas, apoiava a cabeça no ombro do namorado, voltava à posição inicial, balançava a cabeça negativamente, esfregava as mãos, se coçava…  Tudo quase ao mesmo tempo, sem parar.  E o namorado dormindo, amarradão.

Comecei a olhar o relógio, tentando contar quanto tempo ela conseguia ficar parada.  A contagem dificilmente chegava a cinco segundos consecutivos.  Ela já se mexia novamente.  Pensei em falar uma grosseria para ela, desisti, mas ela mexeu de novo e eu retornei à ideia inicial.  Mas que grosseria falar?  Tinha que ser algo muito grosseiro, mas que pudesse ser falado com um sorriso no rosto.  A minha intenção não era ofender: era dar um toque – uma baita toque – para ela se mancar.  Pensei em várias coisas.

E enquanto planejava a grosseria, a aeromoça veio correndo abrir o compartimento de emergência, pegou alguma coisa e abaixou.  Alguém tinha desmaiado ali no fundo do avião, depois de vomitar o banheiro feminino todo – os detalhes eu só soube no desembarque; parece que o desastre foi resultado de uma bebedeira pré-voo.

Voltei a me concentrar na garota e pensar na grosseria.  Depois de uma hora de planejamento – eu já havia desistido de tentar dormir –, cutuquei-a e mandei:

- Desculpe.  Mas você esqueceu de tomar algum remédio hoje?“  Ela respondeu que não.  “Você tomou  banho de pó-de-mico?“  Ela respondeu que não.  Você fugiu do manicômio?  Nova negativa.  Então eu resolvi explicar.  “É porque a gente já está voando há duas horas e até agora você não parou quieta.  Eu estava aqui observando e, na última hora, você só ficou quieta por quatro minutos e vinte e oito segundos, sendo que o seu recorde foi dezoito segundos.

Ela sorriu e perguntou: “Era isso que você estava contando enquanto olhava o relógio?

Respondi: “Era sim.  Eu já levei cotovelada sua, chute, soco…  Eu não queria ser o cara que está sentado na sua frente.  Você já deu tanta joelhada nas costas dele, chute, puxão, empurrão…  Extremamente deselegante.

Ela resolveu se explicar: “É que eu tô com muita dor na perna e não consigo encontrar posição para ficar.

Aí eu emendei: “Você já testou todas as posições possíveis!  Escolhe uma e sossega, por favor!

Pergunta se o fora adiantou alguma coisa?  Ela sorriu e acho que nem entendeu que aquilo era um fora.  Continuou se mexendo até o avião pousar.  Enquanto isso, o cara do outro lado roncava em altos brados.  Tudo isso por mais uma hora e meia daquele tenebroso voo pau de arara…

Publicado por: Leandro | 3 Dezembro 2009, 11:05 am.

Loira, brasileira, e não desiste nunca

O mês de dezembro não tem nenhum motivo especial, ao contrário dos meses anteriores.  Em comum, só os risos e as cenas inusitadas mesmo.  Afinal de contas, o ano está acabando, né?  Boas festas para todos!

Publicado por: Leandro | 1 Dezembro 2009, 11:07 pm.

O fim da festa

Eu ainda não sei que fim terá o Campeonato Brasileiro deste ano.  Torço – e torço muito – para que o Flamengo consiga ser campeão.  Qualquer que seja o resultado, no entanto, é fato que esse foi o melhor campeonato desde que se instituiu a fórmula de pontos corridos.  A festa nunca teve tanta emoção até o seu final.

Mas esse final está dando o que falar.  Malas multicoloridas, acusações, interesses e desinteresses, tem de tudo um pouco sendo preparado para a última rodada do campeonato.  O que me faz pensar se, de fato, essa fórmula de pontos corridos é a melhor mesmo.

Qual é a graça de campeonatos vencidos por antecipação, sem a emoção de um jogo final, onde o limite entre a glória e o esquecimento é tênue?  A final, aquele jogo que dá frio até na espinha do poste, é um evento ímpar.  Já imaginaram a Copa do Mundo sem final?  E a Libertadores?  Impossível!  É na final que se distinguem os grandes jogadores, aqueles que chamam a responsabilidade e conduzem seus times a grandes vitórias.  É na final que alguns times pequenos pregam peças em times grandes, reafirmando a imprevisibilidade – e o fascínio – do futebol.  Injustiça?  Sim.  Mas quem disse que o futebol é justo sempre?

Vejamos o Campeonato Brasileiro: a fórmula mudou para que os jogadores dos times não classificados para as fases finais, fossem demitidos precocemente e ficassem longo tempo em inatividade (motivo nobre, mas isso dava motivação a mais para os jogadores); mudou para aclamar campeão o melhor time da temporada, aquele que efetivamente tenha feito a melhor campanha do campeonato (papo xarope de time que tem medo de final, absolutamente contra a essência imprevisível do futebol); mudou para se tornar igual ao resto do mundo (outro papo furado, já que o calendário – que é o mais importante – continua descompassado com o resto do mundo).

A emoção do Campeonato Brasileiro deste ano é atípica.  Outro como esse, na fórmula de pontos corridos, só teremos quando o cometa Halley passar novamente perto da Terra, se tanto (tomara que eu esteja errado nessa profecia).  E, mesmo assim, ainda haverá esse negócio de os times que disputam o título estarem enfrentando equipes descompromissadas ou desejosas de entregar o jogo propositadamente – fato absolutamente condenável, mas que eu estou doido para que o Grêmio o faça.

Este ano, o fim da festa me fez refletir sobre as vantagens e desvantagens dessa fórmula de pontos corridos.  Acho que ela só é melhor mesmo para o time que faz a melhor campanha do ano, para os times que têm medo de final, e para os donos de corações mais fracos.  Mas é ruim para a mídia e para o público (o grande dono da festa).  E é ruim para o futebol, na sua essência.

Publicado por: Leandro | 30 Novembro 2009, 10:12 am.

Há 17 anos!

Há 17 anos, o Flamengo sagrou-se campeão brasileiro pela quinta e última vez.  Nesta semana, que começou ontem, com o Flamengo subindo a crista da onda, e que não vai terminar nunca, é impossível não lembrar o que rolou naquela semana de julho, há 17 anos.  Para mim, aquela semana passou sem sentir.

Junior regeu a orquestra

Junior regeu a orquestra

Naquela semana, enquanto o papa João Paulo II anunciava que iria se internar para fazer um tratamento de saúde, o Júnior sacudia a arquibancada e as redes do Maracanã localizadas às costas do goleiro do Botafogo.  E eu não sabia de nada: estava nos EUA (onde o futebol não existe), sem internet, sem notícias do Flamengo.

Antes de viajar, eu pendurara uma bandeira do Flamengo na varanda e profetizara a vitória sobre o Santos e a combinação favorável do resultado entre Vasco e São Paulo para um amigo tricolor que desfilava com camisas do Fluminense, Botafogo e Vasco sem o menor pudor, e rumei para o Galeão.  Quando o meu avião partiu para Miami, o Flamengo era azarão naquele campeonato, uma aposta remota, incerta e duvidosa.  Mas naquele avião partimos eu, meus pais, minha irmã e a fé rubro-negra que move multidões, une pobres e ricos, negros e brancos.

Eu estava em São Francisco quando, saindo do hotel, de manhã, o recepcionista chamou meu pai e lhe entregou uma carta.  Era do meu avô.  Tinha sido escrita uns quinze dias antes (parece que as cartas iam de navio para destinos distantes).  Saímos do hotel e, enquanto caminhávamos pela calçada, meu pai lia a carta em voz alta.  Contava amenidades da vida tupiniquim: política, cotação do dólar, cotidiano familiar…  Datilografada em vermelho e preto (o que não era novidade nas cartas do meu avô), por ter usado a fita da máquina na posição intermediária, ele mandava meu pai parar de ler naquele ponto e entregar a carta para eu continuar lendo.

Meu pai obedeceu: entregou-me a carta.  Continuei lendo em voz alta.  Dizia que o Flamengo tinha vencido os três jogos e se habilitado a disputar a final.  E, no primeiro jogo da final, o Flamengo havia vencido o Botafogo por três a zero e…  O resto da carta eu nem li.  Saí quicando pela rua gritando “É campeão!

Quando eu li a carta, o segundo jogo já havia sido realizado e eu não sabia o resultado.  Nem precisava saber!  Eu já sabia o que significava o Flamengo em finais de campeonato, na hora da chegada – a hora que as pernas tremem e a camisa pesa.

Quando cheguei em casa, vi a bandeira jogada num canto da varanda, imunda, suja de ovo, cheirando a podre.  Meu amigo tricolor, na ira de ver minha profecia se tornar realidade, havia violado o pavilhão.

Publicado por: Leandro | 29 Novembro 2009, 11:45 pm.

Mengão do meu coração!

Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz. Por um desses acasos do destino, eu hoje repeti um rito que várias vezes já havia dado certo: fui assistir o jogo do Flamengo com meus primos, na casa da minha tia. Não era mandinga, não era superstição: era só um combinado feito de véspera com meu primo, para eu ajudá-lo num processo judicial que já se arrasta há anos.

Mas quando eu entrei na casa da minha tia, lembrei de todos os perrengues que já havíamos passados juntos em frente àquela mesma televisão: os jogos da fuga do rebaixamento de 2005 (a vitória heroica sobre o Palmeiras), quando o Flamengo foi liderado por Papai Joel; o improvável gol do até então odiado Obina, contra o Paraná, também em 2005 (lavou a alma!); o golaço do Renato Augusto e a disputa de pênaltis do campeonato carioca de 2007. Aquela história não podia ter terminado. Ainda havia mais capítulos para ver.

Hoje havia duas televisões ligadas na sala: uma, menor, no jogo do São Paulo; a outra, maior, no jogo do Flamengo. E seis olhos flamenguistas acompanhando as duas ao mesmo tempo. Lamentamos e nos consolamos quando o São Paulo abriu o placar contra o Goiás. Quase piramos, nos abraçamos, pulamos, gritamos e comemoramos igual pinto no lixo quando, quase ao mesmo tempo, o Goiás empatou o jogo com um golaço e o Flamengo abriu o placar contra o Corinthians.

Semana que vem, estarei lá novamente – encontro agendado desde antes do início dos jogos. Mas nessas horas, não faz nenhum mal não duvidar da sorte…

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