Eu gosto muito de orquídeas. Tanto que eu as coleciono. Já cheguei a ter mais de 70 diferentes, somando espécies e híbridos. Hoje devo ter umas 40. Muitas não resistiram ao tórrido verão do ano passado. E, desde que eu descobri que podia compra-las pela internet – entrega rápida, segura, de indivíduos sãos em porções generosas – minha coleção deslanchou. Tudo facilitado pelo fato de morar em casa e ter a casa dos meus pais muito próxima, com várias árvores e um quintal que pode comportar tamanha coleção.
Já cheguei a ter um orquidário. Não era propriamente uma estufa, mas era um canto da casa reservado especialmente para abrigá-las, peduradas sob uma escada de madeira desmontada e apoiada sobre uma parede da varanda. Foi bom durante um tempo, mas muitas orquídeas não se adaptaram ao local, morreram (mesmo depois que cessou o calorão do ano passado). Eu já estava disposto a desfazer o orquidário quando descobri que a madeira da escada havia apodrecido. Não havia resistido ao tempo. Pudera: aquela escada devia ser mais velha do que eu.
Elas foram todas alojadas novamente no quintal da casa do meu pai. Todas elas estão lá hoje. E quase que diariamente eu as passo em revista, acompanhando seu crescimento, notando detalhes, fotografando cada florada, comemorando novas folhas que nascem.
Algumas delas florem a qualquer época do ano. Outras, somente em datas específicas – tão específicas que são capazes de me lembrar de coisas importantes associadas à sua floração, como o aniversário de uma das filhas do Márcio. A maioria delas, porém, nunca floriu, e eu continuo aguardando, paciente e ansiosamente, até que elas se sintam maduras e à vontade o suficiente para, enfim, desabrochar.
Orquídeas são um grande barato no exercício da paciência e do relacionamento com a natureza. É uma terapia calma e demorada, simples e delicada como elas próprias o são. Orquídeas são, também, mais fortes do que se imagina. Uma delas, que ganhei da minha tia, sobreviveu a uma semana esquecida no portamalas do meu carro. Hoje, ela cresce agarrada na jaqueira, sem ter dado uma flor sequer… Por enquanto.
A orquídea da foto acima, é uma Cattleya forbesii. Esse é o seu nome científico. Foi a primeira orquídea da coleção. A partir dela que tudo começou. Floresce sempre no início da primavera, na última quinzena de setembro e, depois, concede uma nova florada lá para meados de novembro – a segunda florada não tem data tão certa quanto a primeira para acontecer. Nem preciso dizer que ela é o meu xodó. Está presa à caramboleira, de frente para a varanda da casa da minha mãe, bem coberta do sol, que a vê apenas nas nesgas de espaço que as folhas da caramboleira deixam escapar.
Ao redor dela, todas as orquídeas que eu pus – já devem ser umas dez ou doze – vingaram e cresceram, mesmo aquelas que eu já considerava fadadas à morte certa. Não sei, até hoje, se foi a simbiose com ela ou com a caramboleira que as fez vingar com tanto vigor. Fato é que ali é a UTI do quintal, e todas ali se dão muito bem.
Já há algum tempo, resolvi fazer um seguro da minha coleção de orquídeas. Não um seguro comum, financeiro. Nada disso. Um seguro natural, tão natural quanto elas próprias. Uma medida muito simples, aliás. Sempre que possível, eu tiro mudas das minhas orquídeas e as dou para quem quiser cultivá-las. Geralmente, os agraciados são pessoas que têm quintal e cultivam orquídeas também. Mas já dei mudas para outras pessoas que nada tinham senão a vontade de iniciar uma coleção.
Além da doação, ensino noções básicas de cultivo, preservação, instalação da muda e, eventualmente, presto assistência técnica domiciliar, em caso de problemas ou dificuldades de qualquer natureza. Gosto também de, sempre que possível, realizar visitas para acompanhar o crescimento e o desenvolvimento delas.
A única condição que eu imponho para os agraciados que recebem as mudas é que, em caso de morte da minha planta, receber uma muda de volta. Não é para devolver o indivíduo todo, mas somente uma muda. Essa brincadeira é o que eu passei a chamar de seguro.
Certa vez, tive o privilégio de encontrar uma pessoa que se interessou pela minha coleção. Começamos a conversar e ele me disse que fazia parte de um grupo de criadores que se encontrava frequentemente para mostrar as suas florações e trocar experiências. Convidou-me para ingressar no grupo. Eu estava tentado a aceitar, embora fosse difícil para mim levar qualquer indivíduo aos encontros, pelo fato simples de que quase todas as minhas orquídeas não ficam em vasos, mas em árvores.
A conversa estava boa, até que eu mencionei o lance do seguro, visualizando uma boa oportunidade de achar pessoas com quem eu pudesse “segurar” a minha coleção. Foi quando ele disse que o espírito das reuniões não era bem esse: as pessoas do grupo eram muito competitivas, gostavam mesmo era de exibir seus indivíduos para os demais. Quando muito, a troca de mudas era acompanhada de negociações financeiras pesadas. O espírito que imperava ali, pelo que entendi, era a inveja, não a camaradagem. Aquilo não ia dar certo. Agradeci o aviso e deixei para lá.
Embora eu nunca tenha precisado, estou muito feliz com todos os seguros que fiz até agora. E os meus seguradores também.







