Segunda vez que eu saio de São Luís voando pela Gol. Segunda vez que eu venho num voozinho pau de arara do cacete. Quase uma epopeia! Tantas histórias para contar…
Para começar, o horário do voo já é uma safadeza: sai de São Luís às 2:20h da madruga e chega no Rio de Janeiro três horas depois, mais ou menos. Se não fosse o único voo direto do dia, a tentação de pegá-lo não passaria nem perto. Mas como as minhas opções eram pegá-lo ou chegar em casa às 19h do dia seguinte, depois de fazer escala em Fortaleza e conexão em Recife, resolvi encarar.
Fiz check in antecipado, pela internet, e escolhi o penúltimo assento, janela, do lado esquerdo para assistir o nascer do sol. Com poucos assentos marcados, eu esperava que o voo estivesse vazio. Assim poderia dormir a noite toda, tranquilamente.
Cheguei no aeroporto uma hora da manhã. Senti-me no Serengeti, presenciando a Grande Migração. A quantidade de gente com a camisa do Flamengo no corpo era impressionante. Respirava-se a euforia do jogo, da vitória, do hexacampeonato. Eu, que por dois dias estive fora do Rio, longe dessa tensão pré-jogo, rapidamente fui chamado de volta à minha realidade, à minha ansiedade. A semana mais longa da minha vida ainda estava longe de terminar. E eu já me senti um pouco em casa.
Fila enorme para o raio-x, sala de embarque lotada. Parecia a sucursal do inferno. Eu tentava me manter com sono, para capotar assim que entrasse no avião – que lotou, frustrando minhas expectativas de um sono tranqüilo e confortável com três assentos só para mim. Do meu lado sentou-se um casal de advogados (o teor da conversa os denunciava): a moça do meu lado e o cara no corredor.
O avião decolou, fez a volta sobre São Luís, virou de proa para o sul e seguiu viagem. Ao atingir o nível de cruzeiro, o serviço de bordo começou e o piloto abriu o microfone. Falou aquela baboseira padrão: altitude, tempo de viagem, previsão meteorológica…
- Gostaria também de saudar os passageiros presentes que torcem para o time que será campeão brasileiro no próximo domingo, meus amigos flamenguistas… – e uma chuva de aplausos e gritos de torcida irromperam dentro do avião! O piloto se empolgou e começou a discursar. Disse que gostava muito do Flamengo mas que, como maranhense, torcia mesmo para o Sampaio Corrêa (e novos gritos de torcida, dessa vez em menor quantidade, irromperam dentro do avião). E não parou por uns dez minutos, sempre falando do jogo de domingo. Finalmente ele terminou e repetiu, em inglês, apenas a parte obrigatória do discurso.
Acabou o serviço de bordo. Eu já estava mais para lá do que para cá. As luzes se apagaram e eu pensei que fosse dormir. Um cara começou a roncar baixinho. Não consegui localizar exatamente quem era, mas ainda dava para dormir com aquele barulho. Só que eu não conseguia pegar no sono porque a garota do meu lado não parava de se mexer. O namorado dela já tinha dormido, mas ela não aquietava o facho. Soltei uns palavrões, alto o suficiente para ela ouvir, mas ela não se mancou.
Tentei dormir novamente, mesmo com aquele incômodo. Impossível! Um cara no corredor, do outro lado da minha fileira, começou a roncar muito alto. Tão alto que às vezes ele mesmo acordava com o barulho do próprio ronco. Sorte dele que eu não estava no corredor, senão ele não ia dormir. Ninguém fez nada.
Enquanto isso, a garota do meu lado não parava de se mexer. Virava para lá, virava para cá, colocava o casaco nas costas, tirava, abotoava a blusa, tirava a sandália, levantava as pernas, apoiava a cabeça no ombro do namorado, voltava à posição inicial, balançava a cabeça negativamente, esfregava as mãos, se coçava… Tudo quase ao mesmo tempo, sem parar. E o namorado dormindo, amarradão.
Comecei a olhar o relógio, tentando contar quanto tempo ela conseguia ficar parada. A contagem dificilmente chegava a cinco segundos consecutivos. Ela já se mexia novamente. Pensei em falar uma grosseria para ela, desisti, mas ela mexeu de novo e eu retornei à ideia inicial. Mas que grosseria falar? Tinha que ser algo muito grosseiro, mas que pudesse ser falado com um sorriso no rosto. A minha intenção não era ofender: era dar um toque – uma baita toque – para ela se mancar. Pensei em várias coisas.
E enquanto planejava a grosseria, a aeromoça veio correndo abrir o compartimento de emergência, pegou alguma coisa e abaixou. Alguém tinha desmaiado ali no fundo do avião, depois de vomitar o banheiro feminino todo – os detalhes eu só soube no desembarque; parece que o desastre foi resultado de uma bebedeira pré-voo.
Voltei a me concentrar na garota e pensar na grosseria. Depois de uma hora de planejamento – eu já havia desistido de tentar dormir –, cutuquei-a e mandei:
“- Desculpe. Mas você esqueceu de tomar algum remédio hoje?“ Ela respondeu que não. “Você tomou banho de pó-de-mico?“ Ela respondeu que não. Você fugiu do manicômio? Nova negativa. Então eu resolvi explicar. “É porque a gente já está voando há duas horas e até agora você não parou quieta. Eu estava aqui observando e, na última hora, você só ficou quieta por quatro minutos e vinte e oito segundos, sendo que o seu recorde foi dezoito segundos.“
Ela sorriu e perguntou: “Era isso que você estava contando enquanto olhava o relógio?”
Respondi: “Era sim. Eu já levei cotovelada sua, chute, soco… Eu não queria ser o cara que está sentado na sua frente. Você já deu tanta joelhada nas costas dele, chute, puxão, empurrão… Extremamente deselegante.”
Ela resolveu se explicar: “É que eu tô com muita dor na perna e não consigo encontrar posição para ficar.”
Aí eu emendei: “Você já testou todas as posições possíveis! Escolhe uma e sossega, por favor!”
Pergunta se o fora adiantou alguma coisa? Ela sorriu e acho que nem entendeu que aquilo era um fora. Continuou se mexendo até o avião pousar. Enquanto isso, o cara do outro lado roncava em altos brados. Tudo isso por mais uma hora e meia daquele tenebroso voo pau de arara…