Eu sou aficcionado por história. O segundo império, no Brasil, é a minha área predileta. Leio compulsivamente todos os livros sobre o assunto. Quando essa onda de 200 anos da chegada da família real surgiu, eu já estava séculos na frente - embora ainda restem alguns livros sobre o assunto para eu ler, todos já comprados na última bienal.
É por isso que eu me sinto muito à vontade para falar que o segundo reinado, apesar de todas os acertos, que não foram poucos, se resumiu a três grandes cagadas: uma cagada política, uma cagada econômica e uma cagada militar. De trás para frente, elas foram as seguintes:
A cagada militar foi a Guerra do Paraguai. Tudo bem que não dava para não entrar nela, mas dava para vencer mais facilmente e para terminar mais cedo - e isso pouparia vidas aos milhares. Se Caxias e Osório (o General que dá nome à praça em Ipanema) tivessem, junto com Flores (do Uruguai) e Mitre (da Argentina), comandando as forças aliadas desde o início, a farra de Solano López terminaria rapidinho. Mas foi deixar o Tamandaré comanar a Marinha e tudo naufragou, tanto que, depois que ele deixou o comando da Marinha de Guerra brasileira, a vitória veio em um instante. Durante a Guerra, o Imperador se abnegou de toda a política brasileira, envelheceu e sua saúde foi para a cucúia. Em cinco anos, ele envelheceu trinta (ou mais) - só para ilustrar, foram exatamente nesses cinco anos que a sua barba ficou branca.
A cagada econômica foi também em parte política. O apoio político que D. Pedro II deu ao Marquês de Barbacena na condução da política econômica foi fatal para desacelerar o progresso do Brasil. Barbacena lançou mão de todas as armas que tinha (a maioria legislativa e o apoio do imperador) para derrotar seu desafeto ideológico, o Barão (depois Visconde) de Mauá. Ele ferrou com todas as indústrias que Mauá criou no Brasil, gerando milhares de empregos remunerados, para trabalhadores livres: das estradas de ferro à indústria naval na Ponta D’Areia, em Niterói (no lugar onde hoje está o Estaleiro Mauá). Nem o Banco escapou dessa sanha: o governo ferrou com o banco a tal ponto que Mauá lho entregou - daí surgiu o segundo Banco do Brasil, que existe até hoje (o primeiro, da época de D. João VI, já havia falido há muito tempo). Se o imperador tivesse prestigiado Mauá ao invés de Barbacena, o Brasil hoje seria primeiro mundo fácil, fácil.
A cagada política foram, na verdade, duas cagadas. A primeira foi não perceber que o eixo econômico havia mudado do Rio para São Paulo, com as fazendas do interior paulista em franca ascensão, ao passo que as fazendas fluminenses estavam em franca decadência. Ao se apegar aos fazendeiros fluminenses, escravagistas, ele também se afundou politicamente. Conforme São Paulo crescia economicamente, crescia também o número de adversários políticos do governo, até o ponto em que ele se viu espremido contra a parede, apoiando-se apenas nos fazendeiros fluminenses. Aí veio a segunda cagada, que hoje completa cento e vinte anos: a Princesa Isabel, uma besta alienada que de política não entendia nada, assinou a Lei Áurea (levou a fama de “redentora” mas perdeu a coroa). Aí o único apoio que a monarquia tinha foi para o brejo: até os fazendeiros fluminenses ficaram contra a monarquia. Sem apoio, foi só soprar para ela cair.
Ano que vem a gente comemora cento e vinte anos da República, proclamada no Rio mas que rapidinho foi para São Paulo, com Prudente de Moraes, para nunca mais voltar ao Rio, exceto no período de Nilo Peçanha, que era vice e assumiu depois da morte de Afonso Pena (um baita acidente de percurso).


