Posted by: Leandro | 13 Maio 2008, 2:12 pm.

Síndrome Ayrton Senna

Eu cresci vendo o Ayrton vencer corridas nos domingos pela manhã (às vezes de tarde e às vezes de madrugada).  Eu era daqueles que ficava - e ainda fico - vidrado na televisão quando tem corrida de Fórmula 1, da volta de apresentação ao pódio.  E um monte de gente como eu, mesmo não tão vidrado, viveu a mesma experiência.

Essa gente aprendeu, com o Ayrton, a correr, chegar na frente, superar os adversários, odiar Alain Prost, insistir que Schumacher só foi o que foi porque o Ayrton morreu, tomar o lado de dentro da curva e deixar o carro espalhar na saída.  Dessa geração, quem nunca sonhou - que dirá tentou - fazer a mesma coisa?

Eu lembro que andava pela casa fazendo tangentes pelas curvas do corredor entre a sala e o quarto, batendo com o ombro na parede como o Ayrton encostava com a lateral dos pneus em Mônaco (preciso confessar que ainda faço isso de vez em quando).  Nessas corridas imaginárias, a mão direita passava marcha, no câmbio imaginário de alavanca pois naquela época não existia câmbio semi-automático, enquanto a esquerda fingia se manter no volante.  Às vezes a boca ainda imitava o “ronco” do motor, para tornar tudo mais realista.

Eu lembro que desenhava pistas de corrida com giz no chão do terraço ou da rua (eu morava em casa, e não em apartamento, então podia fazer essas peripécias) e perfilhava os carrinhos em um grid de largada para depois empurrá-los, tantos quanto coubessem em minhas mãos abertas, numa largada em que tudo podia acontecer - saídas de pista, batidas, capotagens…  Só era certo que a Ferrari nº 27, meu carrinho mais bonito, ia vencer no final (curiosamente uma réplica de um carro usado por Michele Alboreto).

Eu lembro que passei o resto da vida toda desenhando pistas de corrida nos cadernos do colégio.  Aliás, isso, até hoje, é a única coisa que me mantém acordado naquelas reuniões ou aulas chatas, em que o sono parece incontrolável.  E falo com orgulho que desenhei pistas que, se fossem construídas, proporcionariam corridas maneiríssimas, e não a chatisse que, hoje, são as corridas de Barcelona, Hungaroring e Mônaco, onde nunca ocorre uma ultrapassagem.

Eu lembro de sair do metrô em Maria da Graça e iniciar uma série de “ultrapassagens” sobre as pessoas que também saíam do metrô até o ponto do ônibus, onde meus pais iam me esperar, na volta do colégio.  Não valia correr - quem corresse era desclassificado.  E lá ia eu subindo as escadas e descendo a rampa até a linha de chegada (no fim da rampa), pegando o vácuo, tirando de lado e fazendo várias ultrapassagens.  E com direito a assobio do “Tema da Vitória” no fim - é óbvio que, como só eu sabia dessa competição e das suas regras, quase sempre eu a vencia.

Aí veio a carteira de motorista.  E eu lembro de já ter feito algumas ultrapassagens à Ayrton Senna nas ruas.  Hoje nem tanto - a idade dá sapiência e calma aos motoristas e é por isso que eles pagam seguro mais barato.  Mas não é raro encontrar gente no trânsito com uma pressa acima do normal, buzinando e piscando faróis, pedindo passagem (se bem que o Ayrton não pedia passagem, ele botava o carro de lado e passava mesmo).  É gente que também cresceu vendo o Ayrton vencer corridas nos domingos pela manhã (às vezes de tarde e às vezes de madrugada), como eu.

E olha que até hoje eu faço algumas dessas coisas…  Acho que eu sofro dessa síndrome.

Respostas

Faço isso até hoje. Ultrapasso pessoas na Rio Branco, na Pres. Vargas, no metrô, no trem… e sempre com tema da vitória no final. =)

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