Eu cresci vendo o Ayrton vencer corridas nos domingos pela manhã (às vezes de tarde e às vezes de madrugada). Eu era daqueles que ficava - e ainda fico - vidrado na televisão quando tem corrida de Fórmula 1, da volta de apresentação ao pódio. E um monte de gente como eu, mesmo não tão vidrado, viveu a mesma experiência.
Essa gente aprendeu, com o Ayrton, a correr, chegar na frente, superar os adversários, odiar Alain Prost, insistir que Schumacher só foi o que foi porque o Ayrton morreu, tomar o lado de dentro da curva e deixar o carro espalhar na saída. Dessa geração, quem nunca sonhou - que dirá tentou - fazer a mesma coisa?
Eu lembro que andava pela casa fazendo tangentes pelas curvas do corredor entre a sala e o quarto, batendo com o ombro na parede como o Ayrton encostava com a lateral dos pneus em Mônaco (preciso confessar que ainda faço isso de vez em quando). Nessas corridas imaginárias, a mão direita passava marcha, no câmbio imaginário de alavanca pois naquela época não existia câmbio semi-automático, enquanto a esquerda fingia se manter no volante. Às vezes a boca ainda imitava o “ronco” do motor, para tornar tudo mais realista.
Eu lembro que desenhava pistas de corrida com giz no chão do terraço ou da rua (eu morava em casa, e não em apartamento, então podia fazer essas peripécias) e perfilhava os carrinhos em um grid de largada para depois empurrá-los, tantos quanto coubessem em minhas mãos abertas, numa largada em que tudo podia acontecer - saídas de pista, batidas, capotagens… Só era certo que a Ferrari nº 27, meu carrinho mais bonito, ia vencer no final (curiosamente uma réplica de um carro usado por Michele Alboreto).
Eu lembro que passei o resto da vida toda desenhando pistas de corrida nos cadernos do colégio. Aliás, isso, até hoje, é a única coisa que me mantém acordado naquelas reuniões ou aulas chatas, em que o sono parece incontrolável. E falo com orgulho que desenhei pistas que, se fossem construídas, proporcionariam corridas maneiríssimas, e não a chatisse que, hoje, são as corridas de Barcelona, Hungaroring e Mônaco, onde nunca ocorre uma ultrapassagem.
Eu lembro de sair do metrô em Maria da Graça e iniciar uma série de “ultrapassagens” sobre as pessoas que também saíam do metrô até o ponto do ônibus, onde meus pais iam me esperar, na volta do colégio. Não valia correr - quem corresse era desclassificado. E lá ia eu subindo as escadas e descendo a rampa até a linha de chegada (no fim da rampa), pegando o vácuo, tirando de lado e fazendo várias ultrapassagens. E com direito a assobio do “Tema da Vitória” no fim - é óbvio que, como só eu sabia dessa competição e das suas regras, quase sempre eu a vencia.
Aí veio a carteira de motorista. E eu lembro de já ter feito algumas ultrapassagens à Ayrton Senna nas ruas. Hoje nem tanto - a idade dá sapiência e calma aos motoristas e é por isso que eles pagam seguro mais barato. Mas não é raro encontrar gente no trânsito com uma pressa acima do normal, buzinando e piscando faróis, pedindo passagem (se bem que o Ayrton não pedia passagem, ele botava o carro de lado e passava mesmo). É gente que também cresceu vendo o Ayrton vencer corridas nos domingos pela manhã (às vezes de tarde e às vezes de madrugada), como eu.
E olha que até hoje eu faço algumas dessas coisas… Acho que eu sofro dessa síndrome.
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