Certa vez li um comentário sobre um acidente de trânsito – desses que a mídia usa para chocar o país, acho que foi o acidente da Lagoa, em que um carro encarou uma árvore de frente e todo mundo morreu. O tal comentário dizia uma coisa tão óbvia, mas tão óbvia, que era ridícula a minha cara de “como é que eu nunca havia pensado nisso antes”. Eu não me vi no espelho, mas era ridícula sim, tenho certeza.
Dizia o dito comentário que a vida é cheia de riscos: a cada escolha, um risco, sempre acompanhado de um proveito. Desde uma inofensiva troca de lâmpadas até a prática de bungee-jump (se não é assim que se escreve, passou a ser). Para fazer qualquer coisa, é preciso correr riscos. Quando você senta no banco do carona, você corre riscos (de o motorista bater o carro, por exemplo), quando você senta no banco do motorista, você corre riscos (de bater o carro ou de atropelar alguém).
Por isso, para viver, é imprescindível correr riscos. Quem não quer correr riscos, que se mate – e mesmo assim correrá o risco de não ir para o céu. A questão é decidir que riscos correr para obter os proveitos. E o tal comentário concluía dizendo que as maiores idiotices do ser humano, inerentes aos jovens (o carro do tal acidente na Lagoa era dirigido por um jovem de 19 anos, acho), era correr grandes riscos para obter pequenos proveitos.
Parece uma fórmula simples mas não é, se você pensar no seu dia-a-dia. Quantas vezes você só acelera seu carro até o limite de velocidade permitido? Quantas vezes você atravessa a rua fora da faixa de segurança? Eu, pelo menos, vejo gente atravessar a rua de maneira displicente (ou irresponsável) o tempo todo. Aliás, são poucas as que seguem à risca as normas de trânsito para pedestres. E qual é o proveito que elas tiram disso? Imagino que apenas alguns minutos, no máximo, de antecedência. Trocar esses minutos por uma vida, não vale a pena. É um risco grande demais para um proveito tão pequeno.
Lendo esse comentário, lembrei de uma frase da minha avó, que dizia, do alto da sua sabedoria: “perca um minuto na vida mas não perca sua vida em um minuto“. E pensar que uma fórmula tão simples pode significar tanto.
Por isso é que eu observo essas pessoas que andam desembestadas por aí no trânsito e fico estupefato. E cada dia me torno, no volante, um senhor de mais e mais idade, para a irritação da Fiona quando senta no banco do carona.
E aí eu entendo aqueles vovôs que só saem com seus carros nos fins de semana e dirigem devagarzinho, pela direita (ou pelo meio da rua mesmo). Eles vão chegar, ainda que atrasados. E mesmo que eles se envolvam em um acidente, eles não vão se machucar ou vão se machucar muito pouco. A diminuição do risco é tão grande que vale a pena o desproveito. Basta sair cedo.
