Publicado por: Leandro | 24 Junho 2008, 7:51 am.

Vou começar pelo final

Vôo de volta para o Rio.  No saguão do aeroporto de Barajas, aguardando o embarque, uma mulher sentada na poltrona atrás de mim explica para o filho pequeno (uns 5 ou 6 anos), em bom carioquês, que vai andar no Rio de “métro“, tal como no lugar onde eles moram – que eu não consegui descobrir qual era, mas parecia ser em Portugal, pelo sotaque do moleque e do pai do moleque.  “Só que no Rio, não se chama “métro”: se chama “metrô”“, ela explicou.

O molequinho parecia um tanto ansioso pela viagem.  Parecia, na verdade, a primeira vez que ele se dirigia ao Brasil e, tanto das atitudes dele quanto pelas suas palavras, dava para perceber claramente que os pais – principalmente a mãe – haviam criado uma expectativa enorme nele sobre a viagem.  Eles devem ter contado fábulas e mais fábulas sobre o Rio de Janeiro, e o moleque estava indubitavelmente doido para conhecer este pardieiro.

Quando a mulher levantou para fazer qualquer coisa, eu virei para olhar a cara da figura: com aquele carioquês arrastado, casada com gringo e com filho dele, não podia ser outra coisa – tinha cara de pistoleira.  ”Pistoleira total“, diria eu numa conversa informal com os amigos, com direito a ênfase no “totaaaal“.  Calça jeans justinha, marcando uma bunda feia mas avantajada, barriguinha pochete de fora, cabelos pintados de loiro e um decote de fazer inveja a menininhas de quinze anos, mal escondendo uns peitos flagrantemente siliconados.

A mulher voltou, mas o moleque não parava de fazer perguntas sobre o Rio de Janeiro.  Sua expectativa era realmente imensa.  E ele tentava sempre comparar com as coisas de sua terra natal, o parâmetro de mundo que ele tinha.

De repente, o moleque larga a seguinte pérola:

- Pai, quando o avião decola, o silicone faz assim?

Aí eu virei o rosto para ver o gesto e o moleque, com as maos abertas em cima do próprio peito, fazia gestos que indicavam a flutuação do silicone.  E embora os pais encarassem aquela pergunta, proferida em som muito alto, com a maior naturalidade, o moleque ainda emendou:

- Os peitos da mamãe vão ficar igual ficam quando ela entra na piscina…


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