Publicado por: Leandro | 11 Julho 2008, 1:20 pm.

Miss simpatia

Realizar um concurso de miss simpatia em Madri é simplesmente impossível.  As pessoas – todas elas – fazem questão de serem antipáticas, grosseiras, rudes, egoístas, mal educadas, carrancudas e frias.  Tudo ao mesmo tempo.

Avião da Iberia

Avião da Iberia

Aliás, em todos os lugares que fui nesta viagem vi muitas pessoas assim: a ampla maioria, digo sem medo de errar.  Mas em Madri era demais: conclui que todos os habitantes de Madri são infelizes; não há outra explicação.  Nem quando conversam entre si eles riem, sorriem ou dão a entender estarem se divertindo.  Nem os comissários de bordo da Ibéria sorriem para o passageiro: eles se limitam a fazer o seu trabalho, com aquele ar de quem faz um tremendo favor para o passageiro, não pedem licença ao transitar pelo corredor nem pedem desculpas depois de dar uma baita bordoada no passageiro.

Na rua, pedir informação para um madrilhenho é quase como pedir para ser agredido.  Dá para ver na testa deles que, enquanto respondem a sua pergunta, eles dizem em pensamento: “imbecil!

Como é que essas pessoas agüentam viver?  Sem sorrisos, sem piadas, sem afeto nem senso de afeição mútua pelo próximo?  Essa é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores choques que eu, brasileiro, sofri durante a viagem.  Nem com o fuso horário (de cinco horas a mais) foi tão difícil de acostumar.

Para ilustrar o que digo, conto uma história que aconteceu em Barcelona.  Não é Madri, mas é Europa (as diferenças entre Madri e Barcelona eu conto depois, em outro post.  Barcelona também tem gente carrancuda, em menor proporção, mas ainda a maioria das pessoas).

Cheguei na estação de trem de Sants, em Barcelona, para pegar o trem com destino ao aeroporto El Prat.  Por questão de segundos perdi um trem e tive que aguardar o próximo.  Como não havia visto quando e de que plataforma partiria o trem seguinte, resolvi perguntar ao guarda ferroviário que transitava com as mãos para trás pela plataforma, balançando o cassetete pendurado na cintura.

Chamei uma vez, chamei outra, chamei em inglês, portunhol e nada.  Ele me ignorava.  Aí eu me aproximei e toquei no ombro dele com a ponta de dois dedos duas vezes.  Ele virou para mim (finalmente!) num gesto defensivo e autoritário (???) e quase gritou: “não me toque, ok?”  Eu fiz aquela cara de quem não entendeu – porque eu não havia entendido mesmo o motivo daquele piti – e, depois que percebi a cara que eu mesmo estava fazendo, sorri e concordei, pedindo desculpas e pensando num palavrão impublicável.

Perguntei se o próximo trem para o aeroporto partiria também daquela plataforma e ele apontou para o letreiro luminoso e perguntou: “sabe ler?“.  Respondi, debochando: “sei, tanto que ali não está escrito aeroporto“.  Ele disse: “espere“.  O letreiro virou e mostrou mais um monte de trens que passariam pela estação nos próximos minutos e nada de aeroporto.  Aproveitei e disse: “e você, já leu o aeroporto ali?“.  Ele entendeu a gozação e não falou nada.  Depois da segunda virada do letreiro é que apareceu o destino desejado.  Ele perguntou: “viu?“, respondi que sim e ele acrescentou: “sabe ver números?“, apontando para o horário do trem e virou-se e foi embora, sem me dar direito de resposta.

Esperei vinte minutos pelo trem bolando um jeito de matar aquele sujeito que insistia em transitar pela minha frente, zanzando de um lado para outro da plataforma.  A melhor maneira que encontrei foi empurrá-lo nos trilhos quando um trem estivesse chegando.  Para resistir ao meu instinto assassino-vingativo, fui para o cantinho da plataforma, onde ele não transitava e esperei o trem lá por mais dez minutos.


Respostas

  1. Que triste… :( Tratam a gente como não se trataria um cachorro…

    Digamos que não chega a tanto, já que todos os hotéis nos aceitam, desde que possamos pagar a estadia. Mas chegam bem perto.


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