Publicado por: Leandro | 14 Julho 2008, 2:35 pm.

O dia-a-dia d’além mar

A realidade européia é mesmo muito diferente da realidade brasileira.  Apesar de antipático e grosseirão, o povo é, em geral, bem educado – no sentido, vamos dizer, comunitário da palavra.  A educação de trânsito (já falei sobre isso quando mencionei as faixas de pedestre), a limpeza das ruas, tudo chama a atenção.  Para quem está acostumado a viver na selva do Rio de Janeiro, então, é uma diferença enorme.

O friozinho gostoso da primavera e aquela sensação de secura do ar (parecido com Brasília) importam muito menos perto de todas as novidades cotidianas que se deve ver. 

Mantenha a direita

Mantenha a direita

A começar pelo simples gesto de subir uma escada rolante (quando ela existe, o que é raro, principalmente em Paris): todas as pessoas se posicionam à direita da escada (mesmo em Londres) quando querem se deixar conduzir pela escada.  Quem está com pressa, sobe correndo pela esquerda, como no trânsito.  E ai do brasileiro desavisado que parar do lado esquerdo!  Vai conhecer de perto a antipatia dos locais.

As calçadas são quase todas sinalizadas para orientar os deficientes visuais com aquelas listras e bolinhas em alto relevo.  A faixa amarela das plataformas ferroviárias também têm essas marcas.  Os sinais de trânsito, em geral, têm dispositivos sonoros para indicar aos mesmos deficientes quando é a hora de atravessar e quando não é.  E tudo isso, acreditem, ajuda muito também a quem enxerga bem.

Metrô de Barcelona

Metrô de Barcelona

No metrô, há um letreiro luminoso que indica quanto tempo falta para o próximo trem chegar: em Madri, Paris e Bruxelas, apenas os minutos restantes são indicados; em Barcelona a coisa é melhor e até os segundos restantes são indicados.  E bate certinho: quando o letreiro luminoso indica restarem quinze segundos para a chegada do trem, ele entra na plataforma.  Não falhou uma vez sequer.  Até os ônibus em Paris dispõem de dispositivo semelhante!

Nem preciso dizer que tudo isso (mesmo o transporte rodoviário) funciona com precisão, pontualidade e confiabilidade…

Por causa do frio vigente na maior parte do ano, nos metrôs, trens e bondes a porta só abre quando acionada manualmente pelo usuário.  Isso mesmo: o trem pára mas as portas não abrem, a não ser que alguém queira entrar ou sair, caso em que deverá acionar o dispositivo pertinente (uma alavanca, um botão ou um sensor).  Quem não está familiarizado com a coisa, é bom observar os habitantes locais nas primeiras vezes.

Ainda na área o transporte público – que é, de longe, o que mais me impressiona -, não posso deixar de dizer que, apesar de todas essas facilidades, ele é sujo e barato.  Os metrôs estão sempre pichados e as plataformas nunca estão limpas (nisso o metrô carioca é um exemplo).

Carte Orange de Paris

Carte Orange de Paris

Mas os bilhetes custam preços irrisórios, se você adquirir bilhetes combinados ou de longa duração.  Em Madri, por exemplo, uma viagem custa de 1 a 1,90 euro, dependendo do trajeto.  O bilhete combinado para dez viagens custa 6,70 euros.  Um bilhete turístico para cinco dias, com uso ilimitado do transporte, custa 15 euros e o bilhete para um mês inteiro custa pouco mais de 42 euros – sempre dependendo da zona de utilização, conforme explicado a seguir.

E a coisa é distribuída equitativamente: todas as cidades são distribuídas por zonas concêntricas, em geral numeradas: a zona central recebe o número 1, a periferia mais próxima o número 2 e assim sucessivamente.  Para usar o transporte público somente em uma determinada zona, o preço é mais barato que usar em mais de uma zona.  Quem utiliza o transporte por longas distâncias paga mais por isso; quem utiliza por menores distâncias, em tese, paga menos.  Quase sempre, o turista só perambula pela zona central, a gema do ovo.

Quase sempre também os bilhetes para o aeroporto têm preços diferenciados e o bilhete comum não serve para esse destino específico.  Deve-se estar atento a isso.

E toda a rede de transporte está integrada: ônibus, barcos, trens, bondes e metrô operam juntos, utilizando os mesmos bilhetes e com muitas conexões entre eles.  Tudo para facilitar a vida do usuário – igualzinho ao Brasil…  A coisa funciona tão bem que até mesmo quem tem carro usa o transporte público.  E não é raro ver velhinhas emperequetadas com jóias usando o transporte com a mesma desenvoltura que os universitários.

O casaco também é uma figura onipresente: todas as pessoas, mesmo nos dias de calor, mesmo no interior do transporte público (onde faz muito calor, por ser fechado, sem janelas e concentrar um monte de gente em espaço pequeno), usam casaco.  Casacos bons, daqueles que esquentam bastante, feitos para o inverno.  Uma loucura!

Nem tudo são rosas: lá não tem feijão, não tem carne (não ao preço que há no Brasil), não tem restaurante a peso e, quando faz frio, faz frio mesmo – aí o casaco é necessário.  Mas o saldo é positivo: viver lá é, sem dúvida, melhor do que viver aqui.  E você só dá valor ao que a Europa tem de bom a oferecer depois que você volta e, apesar de sentir aquele calorzinho, esbarrar com pessoas tremendamente simpáticas e comer uma boa feijoada ou ir a um rodízio de carne, percebe que é impossível usar o transporte público porque ele vive abarrotado e cobra tarifas elevadíssimas, não há segurança pública e a sujeira impera na cidade.


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