A realidade européia é mesmo muito diferente da realidade brasileira. Apesar de antipático e grosseirão, o povo é, em geral, bem educado – no sentido, vamos dizer, comunitário da palavra. A educação de trânsito (já falei sobre isso quando mencionei as faixas de pedestre), a limpeza das ruas, tudo chama a atenção. Para quem está acostumado a viver na selva do Rio de Janeiro, então, é uma diferença enorme.
O friozinho gostoso da primavera e aquela sensação de secura do ar (parecido com Brasília) importam muito menos perto de todas as novidades cotidianas que se deve ver.

Mantenha a direita
A começar pelo simples gesto de subir uma escada rolante (quando ela existe, o que é raro, principalmente em Paris): todas as pessoas se posicionam à direita da escada (mesmo em Londres) quando querem se deixar conduzir pela escada. Quem está com pressa, sobe correndo pela esquerda, como no trânsito. E ai do brasileiro desavisado que parar do lado esquerdo! Vai conhecer de perto a antipatia dos locais.
As calçadas são quase todas sinalizadas para orientar os deficientes visuais com aquelas listras e bolinhas em alto relevo. A faixa amarela das plataformas ferroviárias também têm essas marcas. Os sinais de trânsito, em geral, têm dispositivos sonoros para indicar aos mesmos deficientes quando é a hora de atravessar e quando não é. E tudo isso, acreditem, ajuda muito também a quem enxerga bem.

Metrô de Barcelona
No metrô, há um letreiro luminoso que indica quanto tempo falta para o próximo trem chegar: em Madri, Paris e Bruxelas, apenas os minutos restantes são indicados; em Barcelona a coisa é melhor e até os segundos restantes são indicados. E bate certinho: quando o letreiro luminoso indica restarem quinze segundos para a chegada do trem, ele entra na plataforma. Não falhou uma vez sequer. Até os ônibus em Paris dispõem de dispositivo semelhante!
Nem preciso dizer que tudo isso (mesmo o transporte rodoviário) funciona com precisão, pontualidade e confiabilidade…
Por causa do frio vigente na maior parte do ano, nos metrôs, trens e bondes a porta só abre quando acionada manualmente pelo usuário. Isso mesmo: o trem pára mas as portas não abrem, a não ser que alguém queira entrar ou sair, caso em que deverá acionar o dispositivo pertinente (uma alavanca, um botão ou um sensor). Quem não está familiarizado com a coisa, é bom observar os habitantes locais nas primeiras vezes.
Ainda na área o transporte público – que é, de longe, o que mais me impressiona -, não posso deixar de dizer que, apesar de todas essas facilidades, ele é sujo e barato. Os metrôs estão sempre pichados e as plataformas nunca estão limpas (nisso o metrô carioca é um exemplo).

Carte Orange de Paris
Mas os bilhetes custam preços irrisórios, se você adquirir bilhetes combinados ou de longa duração. Em Madri, por exemplo, uma viagem custa de 1 a 1,90 euro, dependendo do trajeto. O bilhete combinado para dez viagens custa 6,70 euros. Um bilhete turístico para cinco dias, com uso ilimitado do transporte, custa 15 euros e o bilhete para um mês inteiro custa pouco mais de 42 euros – sempre dependendo da zona de utilização, conforme explicado a seguir.
E a coisa é distribuída equitativamente: todas as cidades são distribuídas por zonas concêntricas, em geral numeradas: a zona central recebe o número 1, a periferia mais próxima o número 2 e assim sucessivamente. Para usar o transporte público somente em uma determinada zona, o preço é mais barato que usar em mais de uma zona. Quem utiliza o transporte por longas distâncias paga mais por isso; quem utiliza por menores distâncias, em tese, paga menos. Quase sempre, o turista só perambula pela zona central, a gema do ovo.
Quase sempre também os bilhetes para o aeroporto têm preços diferenciados e o bilhete comum não serve para esse destino específico. Deve-se estar atento a isso.
E toda a rede de transporte está integrada: ônibus, barcos, trens, bondes e metrô operam juntos, utilizando os mesmos bilhetes e com muitas conexões entre eles. Tudo para facilitar a vida do usuário – igualzinho ao Brasil… A coisa funciona tão bem que até mesmo quem tem carro usa o transporte público. E não é raro ver velhinhas emperequetadas com jóias usando o transporte com a mesma desenvoltura que os universitários.
O casaco também é uma figura onipresente: todas as pessoas, mesmo nos dias de calor, mesmo no interior do transporte público (onde faz muito calor, por ser fechado, sem janelas e concentrar um monte de gente em espaço pequeno), usam casaco. Casacos bons, daqueles que esquentam bastante, feitos para o inverno. Uma loucura!
Nem tudo são rosas: lá não tem feijão, não tem carne (não ao preço que há no Brasil), não tem restaurante a peso e, quando faz frio, faz frio mesmo – aí o casaco é necessário. Mas o saldo é positivo: viver lá é, sem dúvida, melhor do que viver aqui. E você só dá valor ao que a Europa tem de bom a oferecer depois que você volta e, apesar de sentir aquele calorzinho, esbarrar com pessoas tremendamente simpáticas e comer uma boa feijoada ou ir a um rodízio de carne, percebe que é impossível usar o transporte público porque ele vive abarrotado e cobra tarifas elevadíssimas, não há segurança pública e a sujeira impera na cidade.
