Eu já havia assistido uma tourada em Portugal, há dez anos. Não pretendia assistir uma tourada em Madri, mas não resisti aos apelos da Fiona, à disponibilidade de tempo e dinheiro e, também, à minha curiosidade por beber a cultura alheia – o que penso ser o principal propósito de uma viagem a terras desconhecidas.
Com o ingresso comprado de véspera, cheguei duas horas antes do horário marcado e não havia muita gente em volta da arena de touros de Las Ventas. Surpreendi-me ao perceber que a arena só abria uma hora antes do início da tourada.
Com tempo de sobra livre, resolvi dar uma volta, apreciando a arquitetura mourisca da Arena de Las Ventas (ver na foto). Não vi nada demais: parecia um Maracanã em proporções reduzidas. As pessoas me chamaram a atenção mais que qualquer outra coisa. Homens vestidos de terno e gravata, mulheres arrumadas como se fossem à estréia de uma ópera. De bermuda e camisa, só eu.
Comecei a bater fotos em preto e branco daquelas pessoas, a ampla maioria já depois da casa dos sessenta anos (uma das fotos está aí do lado). Depois de muitas fotos, um policial me abordou e pediu – com a simpatia do madrilenho comum – para ver as fotos da máquina. Mostrei as últimas e ele se deu por satisfeito, acrescentando: “eu e meu colega não queremos aparecer nas suas fotos, ok?“. Depois dessa, eu até parei com a minha série; a viagem ainda estava no começo e não dava para correr o risco de ser deportado àquela altura do campeonato.
Os portões se abriram no horário previsto e a multidão começou a entrar na arena de maneira bastante ordenada, com calma. Entrei, pedi orientação sobre o meu lugar, segui a orientação e subi as escadas.
Primeiro choque: o lugar mais barato da arena, que eu havia comprado, não ficava lá em cima nem lá embaixo: era no meio da arquibancada. Na arena, os lugares do meio são menos nobres que os de cima (que parecem camarotes coletivos), que são menos nobres que os de baixo (que ficam mais perto da arena). E o lado da sombra é mais caro que o lado que bate sol.
Segundo choque: alugam-se almofadinhas por dois euros. Os “locadores” ficam na porta de cada acesso à arquibancada gritando “la piedra, la piedra!!!“, e oferecem insistentemente, como se todos tivessem a obrigação de alugar a tal almofada marrom, suja, xexelenta, velha, caindo aos pedaços (ver foto). Ao que me abordou com um pouco mais de insistência e simpatia (afinal de contas, ele queria ganhar meu dinheiro e o mínimo que ele podia ser era simpático). Recusei, em bom portunhol, alegando que já estava acostumado a sentar na “piedra” pois, no Maracanã, não havia cadeiras.
A arquibancada de Las Ventas é estreita, apertada e suja, muito suja. As pessoas ficam todas amontoadas e é virtualmente impossível circular por entre elas até o seu lugar, se você chega atrasado ou se sai para ir ao banheiro (tire suas próprias conclusões a partir da foto).
A tourada começa com um desfile (meio procissão-meio desfile) dos atores secundários da tourada. Disparei tirar várias fotos e ouvi atrás de mim dois caras comentarem: “se ele está tirando foto disso, imagina quando a tourada começar“. Se ele viesse ao Maracanã ele não ia tirar nenhuma foto antes do jogo começar?
Agora os comentários antropológicos de cada fase da tourada.
A primeira fase tem início com a apresentação dos dados do touro por um homem que segura uma placa (figura ao lado). Não é, nem de longe, a loura que segura a placa com o número do round no boxe, mas dá o seu recado com eficiência. Aí entra o touro, esperto, arisco, com tanta energia que, por vezes, até pula fora da arena, por cima da murada. Vi um touro fazer isso e foi muito legal: até ele voltar à arena, correndo por trás da murada, foi um auê – um bando de gente pulando para fugir do touro. Uns palhaços chamam a atenção do touro do outro lado da arena, que sai correndo em direção a eles. Quando o touro chega perto, os palhaços se escondem e segue-se esse ritual do outro lado da arena.
Depois que esse ritual de demonstração forçada de energia termina, entram alguns toureiros com capa rosa de um lado e amarela do outro para fazer uma preliminar (veja na foto). Como o touro ainda está inteiro, o toureiro tem que estar esperto para não levar uma chifrada (que pode ser fatal e acidentes como esse não são tão incomuns assim). Esses toureiro se revezam: enquanto um toureia, os outros se posicionam distante dele, do lado oposto da arena, para dividir a atenção do touro e, assim, manter o equilíbrio do combate.
Isso é interrompido pela entrada na arena de homens montados em cavalos, que se posicionam em cantos diametralmente opostos. Os cavalos são revestidos com uma capa almofadada, para protegê-los das investidas do touro (a foto mostra tudo). O cavaleiro, com o pé dentro de uma estribo que mais parece uma caixa de metal, ajuda a direcionar o touro e, ao mesmo tempo, proteger o cavalo. Este, por sua vez, se dirige aos cavalos abaixando a cabeça e o cavaleiro finca-lhe uma lança enorme no dorso. O ferimento sangra muito e o touro nitidamente enfraquece depois desse golpe.
Os cavaleiros se retiram e os toureiros da preliminar voltam à carga, mas o a empolgação do touro já não é mais a mesma. Pouco tempo depois, começa a segunda fase da tourada, a fase das banderinhas. Alguns homens a pé tentam fincar dois espetos (chamados bandeiras) no dorso do animal. A técnica parece simples e previsível: eles atraem o touro em sua direção e, correndo para o lado, na ponta dos pés, como os Flinstones, desviam da rota do touro, ficando ainda perto o bastante para espetar-lhe o dorso (veja a foto). Percebi que o povo vibra mais quando o cara consegue fincar os dois espetos no bicho.
Depois de quatro ou seis tentativas de espetar as bandeirinhas, o toureiro – o artista principal da tourada – entra em cena, discretamente e todos se retiram, deixando-os a sós na arena: ele e o touro. Aí começa a parte mais famosa da tourada, que todos conhecem e pela qual todos os espectadores esperam ansiosamente. Mas eu não entendi nada daí por diante: alguns toureiros foram vaiados e outros aplaudidos. E eu não consegui ver nenhuma diferença entre a performance deles.
Perguntei ao monitor local o que as pessoas iam ver: o touro ou o toureiro. Ele pensou e respondeu: os dois. Num misto de antipatia (novidade!) e desinteresse por dar maiores explicações, não disse mais nada.
Depois de tourear o touro algumas vezes, o toureiro posiciona a espada atrás da capa e, na investida do touro, finca-a no dorso do animal, que cambaleia e cai. Às vezes, o touro morre apenas com esse golpe; em outras, ele agoniza deitado no chão, até que alguém enfie uma adaga entre os olhos e balance para os lados, provocando a sua morte imediata. Depois, o touro é retirado da arena puxado por cavalos e tudo recomeça.
O espetáculo embrulha o estômago. Embrulhou o meu, tanto que, no fim do quinto touro, resolvi ir embora. Lembrei de Roma: pão e circo. Na verdade, a tourada é circo, sem pão.











Li este comentário e revivi alguns anos quando com meu marido e filhos (que eram pequenos na época)assisti no Equador-Quito uma tourada.Hoje vi as fotos, pois vou dar uma aula sobre esse tema amanhã, o que você sentiu eu fui além saí chorando ,pois ver um animal bonito adentrando a arena e logo ve-lo sair sangrando é uma covardia, e eles vibram com sua morte,pois a figura principal é sim o toureiro,e se ele conseguir arrancar uma orelha do touro ,seu premio é ainda maior…eles vibram com a derrota do touro, como se fosse um gol no maracanã em dia de fla-flu…mas valeu pelo seu comentário…
Célia, seja bem vinda e volte sempre.
Não ignore que as tradições de tourada são distintas em diversos países. Uma tourada em Portugal não é igual a uma tourada na Espanha, no México ou em qualquer outro país latino-americano. É um costume que foi adaptado ao longo do tempo pelos locais. Fica a dica: assista a uma tourada em Portugal, onde o touro nunca morre no final. Muito melhor.
Por: Célia Regina em 29 Março 2009, 8:08 pm.
às 8:08 pm
Sim sem dúvida, a tourada em Portugal é um espectáculo muito mais bonito. O touro não morre no fim e além disso, ele tem umas proteções nos cornos para evitar que magoe os cavalos e os forcados. Gostei muito de ver a tourada portuguesa, muito diferente da espanhola. É uma tradição que se deve preservar.
Sem falar que o ambiente é muito mais agradável, os espectadores também… Isso eu esqueci de dizer.
Por: Santos em 25 Maio 2009, 6:13 pm.
às 6:13 pm
Paises que se dizem do Primeiro mundo ainda praticam essas crueldades com os animais!Quando o touro leva a melhor eu aplaudo!
Cada um tem a sua cultura… Aqui no Brasil, há touradas piores, entre polícia e bandido, opinião pública e políticos… É preciso respeitar porque o nosso telhado é de vidro.
Por: marrayah em 8 Julho 2009, 7:11 pm.
às 7:11 pm
tourada é a mais crueldade humana que se possa haver são um bando de animais mautratando a criação de Deus um dia Deus vai cobra isso a ñ ser que esses homens que se diz racionais se arrependa.
Obrigado pelo comentário, Sérgio, e volte sempre!
O seu ponto de vista depende muito da cultura dentro da qual estamos inseridos: homens se espancando, a nossa cultura admite (boxe, futebol, jiu-jitsu, vale tudo…), mas batendo em animais não?
Por: sergio em 5 Setembro 2009, 8:17 pm.
às 8:17 pm