O chamado Bairro Gótico de Barcelona é, na verdade, o seu centro histórico. Ele é grande, mas não muito: pode ser percorrido a pé tranqüilamente. Contudo, as suas ruas estreitas, com casario alto, fazem ele adquirir uma dimensão muito maior à que ele realmente tem (veja na foto). Perto de suas paredes, dentro de seus labirintos, com vias sinuosas e passagens quase que secretas, qualquer um se sente apequenado.
Barcelona teve seu início ali. Durante muitos e muitos anos, Barcelona se resumiu a um povoado situado justamente naquelas ruelas, cercadas por uma grande muralha. A cidade cresceu e outra muralha foi erguida, mais ampla, sempre protegida pela fortaleza de Montjüic, que não possuía nenhuma conexão direta com a parte “intra-muros” da cidade. Ela era apenas uma zelosa guardiã que permanecia ali, ao seu lado, para o que desse e viesse.
A cidade explodiu, nos últimos séculos, e se expandiu ordenadamente em direção ao interior. Avenidas largas e quarteirões quadrados foram construídos, numa aula de urbanismo de fazer inveja a muitas cidades brasileiras. Eleita vilã das mazelas urbanísticas da cidade, a muralha foi atacada pela última vez, dessa vez por seus próprios habitantes, e praticamente toda destruída.
Pouco sobrou da muralha, quase nada. O que sobrou, porém, impressiona (a foto tenta mostrar um pouquinho disso, mas a muralha é tão grande que nem cabe na foto). Olhando para ela, tem-se a nítida impressão de ter voltado à Idade Média. Sem fechar os olhos é possível imaginar como era aquele tempo em que as cidades eram delimitadas por muros enormes.
Não é difícil se perder ali. Eu me perdi, um dia de noite. Achei que estava caminhando na direção das Ramblas mas, na verdade, estava caminhando em direção ao porto (direção perpendicular à desejada). Aquelas ruelas enganam facilmente os desavisados. Mas não pensem que se perder ali é o fim do mundo: uma caminhada sem rumo pode se tornar uma grande diversão e resultar em grandes descobertas. Mas é recomendável que ela seja feita durante o dia.
A região abriga diversos museus, igrejas, mercados, praças, lojinhas e é o principal centro turístico da cidade. Há muito o que se ver e o que se fazer ali: desde visitar a grande catedral da cidade até o Museu Picasso (ilustre habitante da cidade, a quem foi legado o museu). Sobre eles, eu falo em outra ocasião. Aguardem.
O bairro me pareceu o elo perdido de Barcelona, onde ela não encontra, mas vive diuturnamente o seu passado – por mais contraditório que isso possa parecer ao leitor desavisado deste post. Ali, é como se Barcelona estivesse parada no tempo, congelada numa época que hoje já não existe mais. Aquilo para mim foi um choque, uma surpresa. Eu não esperava, sinceramente, encontrar em Barcelona – uma cidade que eu via como futurista – tantas marcas tão vivas de um passado tão distante mas, ao mesmo tempo, tão presente.
Aquelas pequenas vias, estreitas, sinuosas, cheias de pequenas travessas por baixo de prédios para outras vias igualmente pequenas (foto), apertadas e sinuosas me conquistaram de uma forma que nem posso explicar. Eu caminhei bastante por ali, fascinado com o que eu via e intrigado coma dificuldade que era entender o mapa da região. Como é que o habitante local conhece aquilo tudo? Duvidei, e ainda duvido, que alguém consiga conhecer aquele labirinto todo, sem se perder e sem recorrer a mapas (ou a um GPS) para se localizar. E lamentei profundamente não ter tido mais tempo para explorá-lo.




