Publicado por: Leandro | 9 Fevereiro 2009, 3:24 pm.

As duas histórias de Antônia

Antônia é uma mulher de duas histórias.  Depois que eu jantei um indescritível peixe ao roquefort no seu restaurante, ela se aproximou para perguntar se estava tudo bem.  Tinha observado o meu olhar triste de saudades.  Mal terminei de falar ela já emendou, nem lembro como, com a sua primeira história.

Seu filho agora havia aprendido a surfar.  E ela estava desesperada.  Ele era seu único tesouro, tudo que ela tinha na vida, já que nem marido tinha mais, desde a separação.  Cada vez que ele ia para a praia com os amigos e sua prancha de isopor recortado pela babá, ela contava os minutos até vê-lo de volta.

- Não sei como é com vocês homens, mas com mulher é assim.  A gente que é mãe, quando vê o filho saindo de dentro da gente, dá um negócio que não adianta explicar.  É cordão umbilical, sabe?  A gente corta o cordão na hora mas, na verdade, não corta nunca.  Eu sinto o cordão ligado em mim até hoje.

Sua meta, para o ano seguinte, era mudar dali para a capital, de onde ela viera há muitos anos, para viver um grande sonho, uma grande paixão, um grande amor.  Ali, naquele fim de mundo, não havia escola à altura da inteligência do seu filho.  Faculdade, então, nem se fala.  E ela já tinha tudo planejado.  Já tinha apartamento na capital, já havia falado com a diretora da escola, já estava até procurando acompanhamento psicológico para o menino, para ajudá-lo a se adaptar à cidade grande.

Mas seu filho não era o seu único elo com seu ex-marido.  Ela não conseguia se livrar dele, ainda tinha “uns rolos” para resolver com ele.  Cidade pequena, eles viviam se encontrando…  E não é que ele entrou no restaurante no momento em que ela tocava no assunto.  A outra história de Antônia era mais triste que a primeira.

Todo ouvidos, escutei pacientemente tudo que ela tinha a dizer sem quase intervir.  Eu estava louco para conversar com alguém e aquele desabafo foi bom para os dois: ela precisava falar e eu precisava ouvir.  O negócio perfeito!

Depois que seu ex-marido saiu do restaurante, ela retornou à minha mesa e tocou em um dos primeiros assuntos da conversa para, depois de alguns rodeios, abrir seu coração:

- Sabe o que é?  Eu vou falar.  Você não é daqui, vai embora amanhã mesmo (mal sabia ela que eu tenho um blog e que estava louco para escrever aquela história), então eu posso falar.  Para o povo daqui eu não falo nada.  Se deixar, eles tomam conta da vida da gente.  Eu tenho que fazer tudo escondido.  Mas para você eu posso contar.  Sabe o que é?

E falou.  Estava desesperada de preocupação, porque seu ex-marido estava com câncer de próstata.  Eu falei que meu pai já havia tido a doença também, e estava curado.  Ela não se conteve e perguntou se havia efeitos colaterais e, antes que eu respondesse qualquer coisa, quis saber logo sobre impotência.  Ah, aqueles “rolos” que ela tinha para resolver com o ex-marido já estavam mais que claros.  Mas ela não parou por aí:

- Porque você sabe, né?  Um homem na idade dele…  Ele tem 52 anos.  Tá no auge, em plena forma.  Com a experiência que ele tem, dá banho em qualquer garoto que tem por aí.

Dizia isso enquanto balançava a mão, como se se abanasse para afastar um calor repentino que tomava conta do seu corpo.  E eu continuava ouvindo tudo calado, sem interromper.  E também marejava os olhos fixos no infinito.  Qualquer outro efeito colateral ela suportaria, mas esse seria difícil.

- Como é que é?  Ele fica com vontade mas não sobe ou ele pára de ter vontade.  Porque imagina como deve ser desesperador sentir vontade mas não conseguir nada?!  Mas se ele não tem vontade, aí menos mal.  Pelo menos ele não vai sofrer.

E falou muito mais.


Respostas

  1. Putz, minhas viagens ainda não renderam posts como esse… Fantásticas, as duas histórias de Antônia!

    Eu também adorei. E demorei o maior tempão imaginando como seria a melhor forma de relatá-las, e depois outro tempão escrevendo, lendo, apagando e reescrevendo…

  2. Ô Antônia danada!!!! Apresente-a para minha amiguinha Neuza do curso de francês. Vc não tem idéia do que pode acontecer. Ah! Ah! Ah!

    Eu até poderia fazer isso, mas há tantos poréns nessa história… Melhor deixar como está.

  3. [...] todos excelentes.  Escolhi um e rumei para lá (o restaurante da D. Antônia, aquela das “Duas Histórias de Antônia“).  A comida estava ainda melhor que a conversa: um sensacional peixe ao [...]


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