É normal fazer uso de adjetivos para definir a qualidade das coisas. Aliás, é para isso que os adjetivos servem: para modificar os substantivos, atribuindo-lhe qualidade, caráter, modo, estado… Não fossem os adjetivos, tudo seria igual. Mas eu tenho notado que as pessoas costumam fazer uso dos mesmos adjetivos para bem qualificar os substantivos da vida. O que era para tornar diferente algo que, em tese, seria igual, acaba tornando tudo igual novamente. Está muito complicado de entender? Oremos.
Um carro é igual a outro até que você o adjetive: um pode ser rápido e o outro lento; um pode ser bom e o outro ruim; um pode ser cinza e o outro preto. Mas e se tudo que for bom você chamar de ótimo, indiscriminadamente? Ou melhor, se você usar o adjetivo ótimo para se referir a tudo que lhe satisfaz? Tudo passará a ter a mesma qualificação, tudo será elevado ao mesmo patamar, certo? Talvez.
Notem, repito, que as pessoas costumam se valer das mesmas palavras – às quais a língua portuguesa qualifica como adjetivos, ao analisar a sua classe gramatical – para incrementar o potencial dos objetos e das experiências à sua volta. Uma pessoa que diz que algo é “bom demais da conta, sô!” – exemplo em homenagem à Paula Basques – vai invariavelmente repetir essa expressão quando quiser indicar a qualidade positiva de um objeto ou de uma experiência contida na sua narrativa.

Jóia!
Isso varia tanto de indivíduo para indivíduo como de região do país para região do país. O exemplo de Minas já foi citado. No sul, temos o suspeito “trilegal“; no norte, algumas expressões também são clássicas, como o “joia” e o “bom demais!” – esta última também comum em Minas Gerais; no Rio, apesar das gírias da moda que surgem a cada verão, o “maneiro” é a expressão consagrada; em São Paulo, é o insosso e pouco original “muito legal” ou o “muito bom” – Erica, corrija-me se eu estiver errado.
Mas se você parar para observar, verá que, apesar do contexto regional no qual a pessoa está inserida, cada um tem o seu jeitinho particular de contar suas histórias e, por que não, adjetivar suas experiências. Eu, por exemplo, invariavelmente me pego adjetivando as coisas como “sensacionais“. O vocábulo “sensacional“, para mim, indica um todo completo, uma experiência marcante, significativa, imperdível, digna de ser repetida pelos amigos e pelos inimigos. “Sensacional” significa ótimo, excelente, excepcional, imperdível, formidável, um espetáculo!… Se bem que “um espetáculo!” eu também uso bastante. Em conversas, às vezes ainda faço a brincadeira infame, compreensível apenas para o sotaque carioca: “aquilo ali já foi um petáculo…“
E cada pessoa que eu conheço tem o seu jeitinho particular de dizer as coisas e, obviamente, adjetivá-las. Da mesma forma que eu uso o “sensacional“, conheço uma pessoa que diz que tudo é “incrível“. Palavras diferentes (basta digitar uma e outra na pesquisa de imagens do Google que você vai perceber a diferença), com significados dicionáricos – permitam-me o neologismo – um pouco diferentes mas que, no dia-a-dia, significam a mesmíssima coisa: o substantivo é “bom pra cacete!“
Voltando ao “joia“, tenho um tio que era conhecido por esse apelido justamente por repetir o adjetivo incansavelmente. Lembro que eu era pequeno e meus pais já falavam comigo assim: “vamos na casa do Tio Jóia?“ E pensar que, depois de tantos anos, ele perdeu o acento… Só descobri seu verdadeiro nome algum tempo depois: Tio Wilson – porque o nome muda mas, uma vez tio, sempre tio. E eu, às vezes, também me pego usando o “joia” para algumas coisas, sempre com o polegar em riste.
Outro amigo define todas as suas boas experiências como “maravilhosa“. Para ele, tudo que é bom, é “maravilhoso“. O negócio é tão sério que o pessoal faz brincadeira com a expressão, imitando o gestual que ele faz sempre que pronuncia esse adjetivo, sempre que quer se referir a algo que ele fez ou gosta de fazer, remetendo-lhe, assim, à memória.
Conheço gente também que usa o “maneiríssimo” para significar a mesma coisa que “maravilhoso“, “incrível“, “sensacional” ou “espetáculo“. Para todos esses casos, o “maneiro” carioca é o ordinariamente bom. Seus adjetivos particulares, inclusive o “maneiríssimo” é o suprassumo do bom, o fino, o que há de melhor. O Eduardo, no seu jeito formal de ser, se recusa a usar gírias modernas e porcas e prefere usar as expressões que eram a gíria do momento na sua infância longínqua: “bacana” é o seu referencial de qualidade diferenciada. Sarita, mais elegante ainda, é a dona do “muito legal“.
Mas nada se compara aos neologismos – ah, sempre eles. O melhor de todos, e sugestivamente autodefinidor, é o “estrondante“. “Estrondante” é tudo aquilo que “estronda“, saquolé? (sim, o meu amigo que usa esse neologismo sempre a faz acompanhar de um “sabe qual é?” falado ao melhor estilo carioca).
No fim, tudo quer dizer a mesma coisa.
Aaaaaaah, obrigadíssima pela homenagem! Mas, mesmo sendo mineira me recuso a falar o sô. Acho o fim da picada, a coisa mais horrível do mundo. Mas, assumo, falo o bom demais (da conta também não!). E agora, parando para pensar, uso o muito legal e o bacana também! E quando a coisa é assim, estrondante, costumo dizer: putz, legal demais!
Você até hoje, até onde lembro, nunca disse que um post era “putz, legal demais!”. Não nos comentários…
É, às vezes eu acho que falar: putz, legal demais! é mais sonoro que escrever… Mas, vou me lembrar da sua resposta!
Hehehehe… Blz.
Gostei do post, bacana (hã? Hã?). Esses posts supimpas são realmente do balacobaco. Mas faltou você falar de uma coisa que é espeto: a transformação de adjetivação de substantivos, o melhor exemplo é “show” (mas tem também o “espeto” que eu acabei de usar). Né não?
Só queria corrigir uma coisa: “bacana” era usada na longínqua adolescência. Na minha remota infância se usava mesmo era “airoso”. 8)
“Saquolé”? Sempre pensei que fosse “sacolé”, ou “sacoé”.
Ok. Eu também esqueci de falar do “irado”. Quando lembrei, o post já estava no ar.
E o cara que fala “estrondante” fala “saquolé” mesmo, e não as variações mais contraídas.
Sabemos de muitas coisas das quais não nos damos conta. O uso de “muito legal” ou o “muito bom” por mim – e o restante da população do estado – é um exemplo disso. Parecem expressões saídas de minha boca.
MUITO BOM seu texto!!!!!
Hehehe… Obrigado.
HA poucos sites sobre o uso dos adjetivos esse e um dos poucos sites sobre isso
Espero que gostem do comentario♥♥♥♥♥!
Cl♥r♥ Fernandes Amaral
Claro que gostei do comentário! Seja bem vinda e volte sempre!
PS.Bom resumido adorei este site.
Espero que contenui assim.
Meus parabens ao criador dessa maravilhoso site♥♥!
Cl♥r♥ Fernandes Amaral
Obrigado. Volte sempre! E comente sempre que quiser.
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