Eu tenho andado muito de ônibus no Rio de Janeiro. Isso tem feito a minha mente voltar à sua época mais fértil – justamente a época que deu origem a este blog, quando eu também me valia intensamente desse meio de transporte. Cada vez mais decepcionado com as diferenças entre um transporte público decente e o nosso, e cada vez mais atento aos absurdos que acontecem à minha volta, resolvi escrever esta série de posts. Ela (a série) é um manual introdutório à arte de andar de ônibus no Rio de Janeiro. Talvez se aplique também a outros lugares do Brasil, parcial ou até mesmo integralmente. Seu foco, porém, é o transporte público rodoviário carioca. Toda ciência tem os seus princípios, andar de ônibus aqui não é diferente. Os princípios que introduzem o estudo dessa ciência – digo, desta arte – e o primeiro deles é esse aí:
Princípio da auxiliariedade: todo passageiro é um auxiliar do motorista no desempenho das suas funções de condutor do coletivo. Esse princípio deriva do sentimento geral de solidariedade e do maior interesse do passageiro de chegar logo ao seu destino. Na prática, se o motorista pretende dobrar à esquerda ou à direita, algum passageiro poderá ser requisitado a auxiliá-lo, seja olhando para ver se há espaço suficiente para a conversão, seja colocando a mão para fora da janela para pedir espaço para o veículo ao lado. Se alguém deseja desembarcar do coletivo e o motorista está sem visão da porta traseira porque o coletivo está cheio, os passageiros têm a obrigação de orientar o motorista quanto ao término ou não do desembarque. O ideal é que passageiros mais experimentados e com alguma iniciativa tomem essa função para si independentemente de requisição. Caso o ônibus possua um trocador, ele ocupará a função de auxiliar-mor. Os passageiros, neste caso, permanecem na posição de reservistas, aguardando convocação.
Continua semana que vem…
Aqui que devo responder?
Estranho isso, né? Sempre acho…
Enfim, não são posts mensais. São posts mensais também.
Se ler uma sequência de 3 perceberá. A última dupla foi uma coincidência. Tenho passado muito tempo no metrô, apesar de ainda não ter resolvido escrever um manual sobre essa atividade, ando gastando a lapiseira na caderneta de anotações. Os últimos poemas estavam lá. Estou copiando-os lentamente.
Pode responder onde você quiser! Fiz a observação porque você postou exatamente um mês depois do anterior.
Não existe coisa mais invasiva do que transporte público no Brasil. Não sei se depois de velho estou ficando (mais) chato e misantropo, mas fato é que tenho criado aversão a esse tipo de contato. Participar involuntariamente da conversa das pessoas, lutar feito um selvagem pelo espaço que meus pés devem ocupar no chão e buscar pelo oxigênio escasso que permeia um sistema de odores pouco amistosos definitivamente são atividades que não me agradam. Mas como infelizmente não ganho o suficiente para trabalhar de carro todos os dias, eu visto a fantasia de container pela manhã e me permito ser transportado como inerte mercadoria. Até a chegada da próxima estação.
Pô, David, até comentando post você é poético, cheio de firulas e metáforas!…
Realmente, muito poético. Vc tem um blog?
O David tem um blog em desuso chamado Vala Comum.
uhmpf…
Que houve, Dani? Tá resmungando do que?
Esse post do principio da auxiliariedade me lembrou aqueles momentos em que estamos um vôo longo, de 12h ou mais, com um casal e um bebê recém-nascido na fileira da frente. Ao final de tanto tempo, você segura a criança pros pais poderem cochilar, ajuda a trocar fralda e corre até o risco de ser convidada para madrinha do batismo.
Você quer dizer que você – FelixCatus – segura a criança para os pais, né? Eu não! Até porque não existe uma criança sequer que tenha ido para o meu colo sem abrir o berreiro.
Quando eu tiver filhos e for viajar de avião, aviso você para ir junto.
Eu já fiz isso várias vezes. Até ajudei a trocar fralda em banheiro de aeroporto…
Veio, de novo, uma visão de um certo filme… Shrek com os trigêmeos…
Posso interpretar essa sua visão como uma praga rogada sobre mim?
Kkkkkkkkkkkkkkk, Leandro, pede pro David descrever os cinco primeiros atos dele ao acordar, vai! Tô louca pra ler “enquanto em busca do creme dental, minha mente divaga sobre a condição efêmera do homem e seu labor…” ou coisa do tipo, kkkkkkkkkkkkkk.
P.S. Brincadeira tá David, amava suas poesias no V.C.
David, é com você!
essa rasgação de seda pro David tá me enjoando (nada pessoal tá #seu lindo _ com hashtag pra diferenciar do Eduardo)…
voltando ao post: minhas opiniões sobre o transporte público podem ser conferidas no twitter todos os dias pela manhã e à noite…quando me desloco para o sacrossanto lar num ónibus “agradabilíssimo”.
Outro dia, ao lado da minha janela parou um daqueles caminhoes de haras, transportando os cavalinho’ para algum lugar melhor que esta cidade.
Me senti humilhada. Os cavalos (que têm um valor agregado maior que o meu – e o dos outros bípedes dentro do ônibus- transportados com todo o cuidado, sem arrancadas bruscas, sem pessoas com seus celulares tocando meteoro da paixão (HORROR, 3X HORROR), sem aquelas mulheres que, mesmo com todas as luzes internas apagadas insistem em colocar a conversa em dia com azamiga (ALTO), sem aquele clássico (isso nunca falta): ALÔ, JÉSSHYKHA, CHAMA TUA MÃE… ou TÁ OUVINDO NÃO PESTE?, tem também o: ALÔ, OI, É…TÔ NO ONIBUS (informação relevante). E, claro, não pode faltar o bom e velho: PÂMHELLA AGHATHA, TÔ NO ONIBUS, TIRA O FRANGO DA GELADEIRA E BOTA NA PIA PRA DESCONGELAR… NÃO PEITO NÃO, COXA (confesso que ao ouvir essa gargalhei)…
Dani, Ultraje a Rigor para você!
Tem também o “Cala a boca e escuta senão vai acabar o crédito!”. Sempre uma incrível conversa num ônibus perto de você.
eu esqueci totalmente do crédito… fundamental pra fazer meu retorno à casa mais feliz… Ultrage a Rigor my shiny white ass viu…
Créditos são o tema de dez entre onze papos ao celular numa viagem de ônibus.
Não é praga, não!!!!
Mas, na minha humilde experiência de vida, percebo que os que mais reclamam e desdenham são os qua mais ficam bobos e surpreendem como pais.
Ah, tá… Se é assim sim, isso realmente pode acontecer.
Gente, li uma poesia dele (David) que quase me fez chorar. Ok, estou meio “a flor da pele” ultimamente… Mas doeu fundo.
Porque ele parou?
Na verdade, ele não parou de escrever. Só parou de publicar no blog.
Mas essa é uma pergunta que só ele pode responder.
Fico muito feliz por saber que existem pessoas que gostam do que escrevo. Infelizmente ando sem paciência para atualizar o Vala Comum, mas o Leando poderia reservar um dia da semana para posts de visitantes, o que acha da ideia, meu nobre anfitrião? Quanto aos meus 5 primeiros atos ao acordar, prometo escrever um texto sobre o flerte belicoso entre o sol e minhas retinas preguiçosas durante o amanhecer.
Tá… Vou pensar sobre a proposta. Vou pensar.
Só quero ver se você consegue escrever com o compromisso da publicação…
Eu conhecia o princípio da solidariedade do trocador, tanto como passageira de ônibus, como motorista. Mas dos passageiros não. Não mesmo! Nunca vi isso acontecendo por aqui, no máximo todo mundo gritando junto ao mesmo tempo agora, porque o ônibus tá lotado ou porque o motorista tá dirigindo como um louco…
Isso é mais comum do que você imagina aqui no Rio. E todo mundo gritando junto ao mesmo tempo é, eu acho, o oitavo princípio da série… Ainda falta.
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Não pode esquecer o princípio do bem estar social. O Governo e as companhias de ônibus estão preocupadas com os níveis de obesidade da população, de modo que transformaram os ônibus em verdadeiras saunas. Assim, os passageiros emagressem enquanto realizam suas viagens.
Você leu os outros princípios? Continue lendo, então… Vai ver que esse fato foi contemplado também nesse estudo.
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