Pragas suburbanas – pipa

Foi-se o tempo em que somente nesta época do ano, quando começam as férias escolares, a molecada, ainda em prova final, revisitava um dos hábitos-símbolo do subúrbio carioca: soltar pipa.  Eu sempre achei muito curioso como um passatempo tão primitivo, simples, barato, lento e ocasional consegue sobreviver à pressão gerada pelos tempos modernos onde jogos eletrônicos, caros, rápidos, sangrentos, fascinantes e com tendência individualista fazem cada vez mais a cabeça das crianças (e de adultos também).  Fiquei ainda mais impressionado quando percebi que, nos últimos dois ou três anos, soltar pipas deixou de ser uma praga (ops, ato falho!), digo, um passatempo restrito às crianças e às férias de julho e de janeiro…

Linha com cerol e pipa: lazer suburbano típico

Linha com cerol e pipa: lazer suburbano típico

Eu entendo, e admiro, que a pipa seja uma forma de identidade cultural do suburbano.  Pouquíssimas crianças criadas na Zona Sul, a leite com pêra, são capazes de soltar pipa.  Eu mesmo, suburbano convicto, sou muito pouco hábil na arte da navegação eólica de uma pipa, carência de habilidade essa que se deve muito mais à falta de prática (eu sempre preferi jogar futebol e andar de bicicleta) do que à falta de oportunidades para praticar (minha casa com terraço era um lugar ótimo para soltar pipa).  Mas daí a ver um monte de marmanjos com seus 50 ou 60 anos atravessar uma avenida movimentada correndo atrás de pipa voada sem sequer olhar para o trânsito vai uma diferença muito grande.

Pipas entorpecem: essa é a única explicação que eu encontro para esse fenômeno.  E, como todo entorpecente, viciam.  Deve haver alguma coisa hipnótica no dançar de uma pipa esvoaçante no céu, ou no cheiro da cola usada para fazer cerol.  Talvez seja um prazer masoquista em sentir os dedos feridos pelo cerol, ou ainda uma sensação de superioridade ao conseguir pegar uma pipa voada em meio a tantas pessoas que também tentam pegá-la e poder soltá-la novamente sem ter que pagar (menos de um real) por isso.  Se não for isso, não há explicação razoável para a perpetuidade dessa forma de lazer.

Ao mesmo tempo que colorem os céus, as pipas causam o inferno na terra: a prática é responsável por inúmeros atropelamentos nas ruas porque pessoas não medem esforços ao perseguir cegamente as pipas moribundas que retornam ao chão após terem suas linhas cortadas por outras pipas que, por sua vez, também terão as linhas cortadas por outras pipas…  A cegueira provocada por esses corpos decadentes é assombrosa!

Rolos de linhas chilenas

Linhas com cerol também fazem vítimas aos borbotões (Filomena, recentemente, foi a bola da vez).  Sua capacidade cortante aumentou muito nas últimas décadas.  Se é verdade que a necessidade força o desenvolvimento de novas tecnologias, isso pode ser facilmente constatado com as pipas e suas linhas com cerol.  Antigamente, cada um moía o seu vidro como podia, misturava com cola e fazia o seu cerol caseiro.  Depois, o cerol, com melhor padrão de qualidade, passou a ser vendido pronto e cada um aplicava na sua linha.  Hoje em dia, linhas com cerol ultracortante – chamadas “linhas chilenas” – são vendidas prontas para uso, e seu cerol tem qualidade infinitamente superior à de qualquer outro cerol que exista na praça ou que alguém seja capaz de produzir em casa.

Se essas linhas cortassem só os dedos dos que soltam pipa, tudo bem.  O problema é que elas fazem muito mais estragos que isso.  Restos de linha ficam pendurados em postes e no telhado das casas, em antenas de televisão, causam entupimento de redes de águas pluviais….  Eventualmente, elas cortam pessoas que não têm nada a ver com a brincadeira, e até matam pessoas (especialmente motociclistas, geralmente cortando-lhes o pescoço).

A praga não termina aí: agora inventaram os tais “festivais da pipa”.  Soltar pipa sozinho não tem graça nenhuma.  O legal mesmo é juntar uma galera (encontros como esses são normalmente agendados por meio das redes sociais) para fechar uma rua ou uma esquina do subúrbio (pouco importa se é movimentada ou não, se tem autorização do Poder Público ou não) só para soltar pipa com os amigos.  Fica todo mundo ali soltando pipa, um cortando o outro, o dia inteiro, faça calor ou faça frio, esteja sol ou nublado.

De dentro das malas de carros novos ou velhos, saem verdadeiros arsenais como rolos enormes de linhas com cerol, rabiolas, pipas de todos os tamanhos e cores, que vão ao ar uma a uma, numa verdadeira batalha caótica aérea.  Quando alguém tem sua linha cortada por outra pessoa e vê sua pipa seguir seu caminho ao sabor do vento moribunda e descontrolada, ouve gozação de todos os demais.  Quando corta, faz o mesmo.  E, sempre que tem a oportunidade, sai correndo no meio dos carros – eventualmente até invadem casas vizinhas – só para pegar a pipa moribunda.

E engana-se quem pensa que são crianças ou jovens que engrossam as fileiras desse exército de pipeiros: são normalmente adultos e velhos barrigudos, com a vida ganha, que estão ali para se divertir da mesma maneira que faziam há trinta, quartenta, cinquenta ou sessenta anos, quando eram garotos.  Tanta coisa melhor para fazer…

Atualizando: no dia seguinte à publicação deste texto, fui informado por um amigo que, no dia anterior à publicação, o RJTV publicou uma matéria exatamente sobre este assunto.  Quem quiser ver, clique aqui.

8 thoughts on “Pragas suburbanas – pipa

  1. Isso realmente é mais difícil de ver la nos rincões onde eu moro – só nas comunidades que tem. Mas quando eu morava com a minha mãe, nessa época de férias eram constantes os sustos com as pessoas atravessando a Linha Vermelha correndo e olhando para cima, atrás das pipas.

    E, realmente, o que mais impressiona e me deixa indignado é ver marmanjos barbados e barrigidos correndo atrás de pipas numa atitude mais irresponsável do que a de muitas crianças. Isso é ridículo!

    Pior ainda: disputando pipa voada com a molecada.

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