Pragas suburbanas – o vendedor de gás

Sábado de manhã.  Cedo, bem cedo.  Você acorda ao som dos berros de um sujeito na rua:

- Alô, gaeeez!!!…  Alou, gasbraeeeezzz!!!…

É o vendedor de gás, anunciando sua presença e fazendo o seu marketing.  Presente demais na vida do morador suburbano carioca, o vendedor de botijões de gás faz questão de exercitar o dom da voz diariamente – especialmente nas manhãs de sábado – gritando na calçada.  E é sempre a mesma ladainha, com a mesma potência, a mesma entonação, em qualquer canto do subúrbio.

O canto da gasbraez é tão envolvente que o próprio vendedor se empolga com a sua voz, repetindo aquela melodia folclórica pelo simples prazer da repetição automática e ritmada, seguindo a cadência de suas passadas lentas e descompromissadas.  O gestual do vendedor também é sempre o mesmo: ele caminha olhando para baixo, e só ergue a cabeça para gritar suas palavras de ordem.  Tão logo termina o canto do acasalamento, baixa novamente a cabeça e segue a lenta caminhada pelas ruas do subúrbio.

Bujão ou Botijão?

Bujão ou Botijão?

Viver no subúrbio não é sinônimo de fornecimento de gás canalizado na porta.  Ou, mesmo quando a rua é servida por gás canalizado, muitas vezes ele não está ligado na sua residência e, por isso, você simplesmente não pode ser cliente da concessionária de distribuição de gás canalizado – ela não faz questão nenhuma de construir o ramal para sua casa.  A única alternativa restante é contar com o velho e bom botijão (ou bujão, ninguém no subúrbio sabe o certo, e é possível que ambos estejam certos) para cozinhar o alimento-nosso do dia-a-dia.

Além do sujeito cantor que perambula pelas ruas do subúrbio, onipresente, os botijões também são vendidos por caminhões que circulam pelas ruas do subúrbio buzinando ou tocando musiquinhas – dessas de caixinhas de música – para anunciar sua presença à vizinhança.  Em alguns caminhões, a musiquinha é intercalada com gritinhos gravados com voz de taquara rachada: “Ó o gás!!!“  Já é ruim, tosco, suburbano.  Pior ainda com o característico barulho de botijões se chocando uns contra os outros, na caçamba do caminhão.

Mais recentemente, a venda de botijões de gás recebeu mais um curioso elemento suburbano: o motoqueiro.  Percebendo o nicho de mercado causado pela ineficiência das distribuidoras de gás, muitas biroscas de fundo de quintal abriram portas para estocar e revender botijões de gás, entregando-os na casa do cliente (com uma garrafa pet cheia de cloro de brinde).  As entregas são feitas por motos, que circulam pelas ruas (e calçadas) com botijões pendurados na traseira (quicando em cada buraco da rua, com risco de se desprender da moto e sair rolando rua abaixo).

Tudo isso sem falar nos casos em que a distribuição de gás é assumida por máfias locais – milícias, também – que obrigam os moradores de determinada comunidade ou região a apenas comprar botijões – muitas vezes roubados de uma distribuidora oficial – com eles.  Coisas que fazem o vendedor cantor de gás parecer o menor dos problemas do subúrbio.

4 thoughts on “Pragas suburbanas – o vendedor de gás

  1. Tá vendo a importância da distribuidora de gás natural na vida de um serumano???

    Tô. Mas eu passei mais de um ano pedindo para ela distribuir o gás que passava no cano da minha rua para mim e ela se recusava a fazê-lo.

  2. Engraçado, acho que vc já falou disso por aqui, não?? Me lembro que comentei sobre a musiquinha do “supergásbrááááásss” que eu gosto…mas enfim, aqui quase não passam caminhões, os caras passam nas motoquinhas com o botijão amarrado nelas.E pra entrega temos que ligar direto pro depósito.

    Se já falei, não lembrava – e continuo não lembrando.
    Alguém sabe dar esta informação com precisão?

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