Meus vizinhos – Maconheiro

Ela invade a minha casa várias vezes por dia, quase sempre em horários certos (de manhã cedo, pouco antes da hora do almoço, no meio da tarde, logo após anoitecer e na hora da novela). A fumaça que sobe do outro lado do muro vem do baseado do vizinho, ultrapassa a cerca, os vasos de planta, desce do lado de cá e entra pelas janelas da cozinha, do quarto e da sala. A casa fica toda perfumada: um presentão do vizinho, já que eu não preciso gastar nada para mantê-la assim.

O responsável pela caridade é o meu vizinho maconheiro, um consumidor tão metódico quanto inveterado da erva maldita. Como todo maconheiro, é da paz, só quer poder curtir o seu baseado quietinho, sem ninguém a atrapalhá-lo. Ele esquece, porém, que o seu baseado incomoda – e muito – os outros.

A primeira vez que eu fui na minha casa, ainda antes de morar nela, parei para conversar com o vizinho que estava sentado no portão do prédio vizinho sobre a área.  A primeira coisa que eu reparei foi que ele sorrateiramente jogou longe alguma coisa quando eu me aproximava.  Só notei que era um baseado quando me aproximei ainda mais e senti o cheiro.  Do lado dele, naquele dia, estavam a sua mãe e o seu cachorro – que já passou desta para melhor há muito tempo, e deve ter feito isso rindo.

De lá para cá, o ritual se repete.  Nos horários marcados, ele sai do seu apartamento e vai para a garagem do seu prédio, uma área aberta à frente do edifício, liga o carro, acende o baseado e fica ali, encostado no muro que divide o prédio da minha casa, queimando a erva maldita.  Não sei para que ele mantém o motor do carro ligado enquanto fuma.  Será que ele acha, de verdade, que o cheiro do cano de descarga disfarça o cheiro do baseado?  Se for isso, a única conclusão a que eu chego é que a maconha já está efetivamente afetando o seu discernimento.

Nem mesmo com o vento contra o cheiro deixa de invadir a minha casa.  Mas, com o vento a favor, o negócio é bem pior.  Tão ruim que ele é a única razão para o quarto da Felícia ser o quarto que fica do outro lado da casa, e não do lado cuja janela dá para o prédio dele.  Uma medida que ameniza bastante os efeitos da famigerada fumaça, mas não elimina nos dias em que o baseado é maior e o vento está na direção da minha casa.

Durante umas épocas ele andou sumido.  Já casou e já voltou para casa, já arrumou emprego numa agência franqueada dos correios e já parou de trabalhar…  Ele não dá certo em nada que tenta, exceto fumar baseado.  Ah, nisso ele é bom.  Se houvesse um concurso para quem fuma melhor, eu apostaria minhas fichas nele.  Acho que eu teria grandes chances de vencer a aposta.  Já são mais de dez anos sempre com o mesmo ritual, infalível, indefectível.  Não teria como dar errado.

4 thoughts on “Meus vizinhos – Maconheiro

  1. Infelizmente maconha NÃO mata, e se mata ou causa algum mau demora pra cara….!
    Como a sociedade nos torna impotente de fazer valer os direitos de cidadão, só nos resta duas opções: Continuar com o convivendo com o maldito cheiro ou se desfazer do conforto que nossa casa oferece a todos nós.
    Até porque o ditado diz “Os incomodados que se mudem!”
    C’est la vie!

    Tô convivendo há dez anos.

  2. Eu tive um vizinho maconheiro, e achei que ele fumava bastante, até que ele resolveu reformar o apartamento. Rapaz… o que cada um dos pedreiros fumava era uma grandeza! Todo dia, às seis da tarde, vinha aquela maresia. Incomodava demais, ainda bem que JG ainda não era nascido.

    Pois é. Até o fim do ano passado, era tranquilo. Agora é preocupante.

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