O jogo do não-gol

Ao final do jogo de ontem, o Márcio mandou uma provocação via twitter, que dizia o seguinte: “tô aguardando ansiosamente pelo post sobre o gol do Deivid“.  Eu não podia deixar a provocação passar em branco.  Também não podia deixar um lance desse impune.  Como ontem já era dia de vídeo, e porque eu não tinha nenhum assunto para escrever hoje, resolvi esperar um dia para compor a resenha.  E esse tempo se revelou um bom aliado na análise do tema.  O tempo dá ao historiador uma isenção do fato proporcional ao seu próprio tamanho.

Todos aqui sabem que, embora seja flamenguista fanático, sou mais apaixonado pelo futebol do que pelo Flamengo.  Para mim, portanto, o jogo de ontem foi excepcional, apesar do resultado, sob a minha perspectiva particular, negativo.  Fui dormir satisfeito com o espetáculo visto, especialmente no primeiro tempo, quando os dois times procuraram a vitória sem medo da derrota – tônica que se inverteu no segundo tempo, quando o Vasco, após a saída do Juninho Pernambucano, passou a jogar como time pequeno que é: fechadinho na defesa, torcendo para encaixar o único contrataque que conseguiria dali para frente.  Méritos do time que tem consciência do seu lugar na cadeia alimentar do futebol e sabe jogar como tal.  Venceu, e isso é o que importa.

No dia seguinte, a verdadeira essência do futebol: a conversa no trabalho, na escola, no bar; a gozação de quem ganhou sobre quem perdeu; louvores ao time vencedor, crise no time perdedor…  Nada disso.  Ninguém falou que foi a primeira derrota do Flamengo para um time do Rio em quase 65o dias; ninguém comentou o pênalti não marcado sobre o Léo Moura; ninguém falou do golaço do Vagner Love; o Flamengo não entrou em crise por ficar de fora da decisão da Taça Guanabara…  Nada disso.

Também ninguém comentou sobre o jogo de ontem – a outra semifinal – entre outros dois outros clubes grandes do Rio de Janeiro.  Não se falou sobre o desastre dos trens na Argentina, sobre a palhaçada da apuração dos votos de São Paulo nem sobre a vitória da Unidos da Tijuca.  Em todos os cantos, quaisquer que fossem os interlocutores (homens ou mulheres, de qualquer time, de qualquer origem), o assunto era um só: o gol que não foi gol.

Sim, porque todo lance que resulta em gol é um gol por definição – a bola entra no gol, e é gol.  Gols anulados são gols anulados – a bola entra no gol, mas o juiz assinala uma irregularidade anterior que anula o lance e, por consequência, invalida o gol – mas, ainda assim, são gols.  Se, no lance, a bola passa perto do gol, o goleiro defende, se a bola explode na trave, não se diz, no dia seguinte, que foi “o lance do gol“, “do quase-gol“…  Foi apenas “aquele lance que a bola passou pertinho, da defesa do goleiro ou que a bola bateu na trave“.

O lance do Deivid, ontem, era chamado apenas de “o gol do Deivid” (notem que até o Márcio, na provocação, tratou-o assim).  Poucos lances na história do futebol têm esse status: as duas jogadas geniais de Pelé na Copa de 1970 – um chute do meio de campo e um drible sensacional sobre o goleiro uruguaio – se encaixam nesse perfil.  São, até hoje, tratados como verdadeiros gols (os gols que o Pelé não fez, ou melhor, os gols que a bola não entrou): só a bola, o juiz daqueles jogos e as câmeras que registraram os lances é que dizem o contrário.  O pênalti do Roberto Baggio sobre o gol de Taffarel, em 1994, forçando um pouco a barra, também pode entrar nessa seleta seleção (por mais pleonástico que isso possa parecer).

O Deivid, na quarta-feira, conseguiu a proeza: entrou no rol, pela porta dos fundos.  Perdeu o gol mais gol do ano, quiçá da década (a que passou e a que há de vir, juntas).  E olha que ele já vinha tentando há pelo menos um ano, quando perdeu o gol contra o Santos e, depois, contra o Internacional.

O que Renato fez ao enfiar a bola para dentro do gol com a barriga; que Romário fez ao driblar, fazer e mostrar a camisa “No War, Peace in the World“; que Petkovic fez, ao cobrar a falta improvável, aos 43′ do segundo tempo; que Roberto fez ao dar um balãozinho no zagueiro e fuzilar o goleiro num sem-pulo espetacular…  São tantos os lances antológicos desse campeonato carioca, que eu poderia gastar milhares de linhas escrevendo sobre eles.  O lance do Deivid foi mais um capítulo dessa antologia, maior que o jogo e, provavelmente, maior que o próprio campeonato.  Gerações ainda vão falar e discutir esse gol.  Do jogo, o resultado, é possível que menos gente saiba do que do gol.  Tudo ofuscado pelo gol do Deivid.  Aliás, o não-gol.

3 thoughts on “O jogo do não-gol

  1. Aliás, acretido plenamente que a carreira do Deivid será lembrada sempre por esse episódio, a não ser que ele incorpore Garrincha ressucitado e seja o autor de um lance genial, que se converta em gol obviamente, para que isso seja esquecido parcialmente. Nisso eu tenho que concordar com a torcida do time pequeno que tem um cinto de segurança no peito (dizem que é para não descer ladeira abaixo): Ao, ao , ao, Deivid é seleção (só se for das paraolimpíadas, com todo o respeito), rsrsrs. Grande abraço!

    Ele será lembrado para sempre desse lance, a não ser que faça o gol da vitória na final da Libertadores. É o único jeito que ele tem de se salvar.

  2. Ah, peraí! É resenha ou choramingação dor-de-cotovelista? E esse delírio de que o Vasco é “time pequeno” só pode ser atribuída à estupefação pela perda de um jogo que a empáfia flamenguista já considerava ganho.

    Foi uma bela partida, realmente, e um resultado justo. Ganhou quem jogou melhor, e quem errou menos.

    Ganhou quem não tinha o Deivid no time, isso sim.

  3. Mimimimimimimimi… Ganhou quem jogou melhor. Para o pênalti no Leo Moura houve a ombrada nas costas que o Gaciba disse que foi no ombro, e que pra mim foi pênalti também. E o Diego Souza perdeu dois gols que, nessa teoria do SE, poderiam ter feito o jogo terminar 3×1 no primeiro tempo.

    Foi pênalti nada. O Gaciba é o melhor comentarista de arbitragem que já houve na televisão brasileira.

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