Meus vizinhos – Inútil

Há muitos anos, perto da minha casa, existia uma fábrica de roupas.  Dizem que fazia roupas de grife famosa, acho que uma das marcas confeccionadas ali era Yves-Saint-Laurent.  Tudo muito no campo da boataria, mas uma boataria que tem grandes chances de ser confirmada pelos viventes da época.  A fábrica fechou, e já está fechada há muito tempo.  Tanto tempo que eu lembro, ainda moleque, de dar um trocado para o velhinho/vigia do prédio da fábrica para usar a quadra de cimento que havia ali para jogar bola – um “time-contra” entre a minha galera e os funcionários do supermercado da esquina, no horário do almoço deles.

O agradável velhinho corruptível morreu e, no lugar dele, outro vigia foi contratado para zelar pelo prédio.  Ocorre que, além de se desincumbir de suas funções profissionais, ele também se ocupa, amadoristicamente, de tomar conta da vida alheia.  Daí o seu apelido – tão pejorativo quanto indignado, com uma pitada de raiva: Inútil.

É inútil porque não é útil à sociedade, não faz nada de relevante.  Perfeitamente dispensável.  Não agrega valor à vizinhança, exceto aos outros sujeitos que ficam lá na esquina, próximo ao jornaleiro, jogando sueca e conversa fora o dia inteiro.  De fato, deve-se reconhecer que, sem ele, a roda local de sueca não seria possível pois ela depende de quatro pessoas para existir – talvez arrumassem outra pessoa para substituí-lo, não sei.  Isso está no campo das hipóteses e especular não é o propósito deste post.

Nas horas vagas, o Inútil toma conta da vida alheia.  Fazendo concorrência com o Maluquinho Queorassão, ele também aborda os transeuntes da rua para bater papo – nunca me perguntem o que ele fala, porque eu não sei – e…  mais nada.  Nem ajudar a carregar as pesadas bolsas de supermercados das senhoras que sobem a rua ele ajuda – possivelmente para justificar o apelido, eu deveria saber.

Desconfio firmemente que ele não dorme.  É um zumbi, que perambula pela rua a qualquer hora do dia ou da noite.  Se eu saio de casa às 6h da manhã, ele está lá, sentado em frente ao prédio da antiga fábrica, numa cadeira de praia, olhando para a rua.  Se eu volto para casa depois de meia-noite, ele também está lá, no mesmo lugar, fazendo a mesma coisa (nada!).  Durante o restante do dia, ele perambula e bate papo, joga sueca e não faz nada, sem jamais sair daquele espaço de cerca de 150m que separam a fábrica (da qual ele deveria tomar conta) da esquina (da qual ele, de fato, toma conta), desfilando um sorriso malicioso e uma ginga de malandro que ele não é.

Não importa o horário que você o veja, ele está sempre vestido da mesma forma: sapato, calça social e blusa de abotoar caída para fora da calça.  Acho admirável como as pessoas adquirem um padrão de vestuário que as define, e ele parece ser um dos merecedores dessa minha admiração.  Nunca o vi com outra roupa.  Da mesma forma que eu nunca o vi fazer nada de útil.

10 thoughts on “Meus vizinhos – Inútil

  1. Ah, faz a minha???? Mas envia por e-mail, para evitar constrangimento público, hehehe.Falando nisso, eu tenho que te contar de Niterói…mas isso é assunto pra conversa ao vivo.

    Serei todo ouvidos.

  2. Fiquem sabendo que minha vida é um livro aberto, e com classificação livre! Mas vai que a análise dele sugira alguma coisa que dê margem a especulações…infundadas, claro, mas melhor não arriscar…

    O problema é o “vai que…”.

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