Taxistas portenhos

Uma das coisas que mais me afligia nessa viagem era a relação com os taxistas de Buenos Aires.  Em todos os lugares em que se publicavam experiências de viajantes brasileiros em Buenos Aires, havia gente falando mal dos taxistas portenhos.  Diziam que eles davam voltas intermináveis pela cidade, davam golpes nos turistas-passageiros, passavam notas falsas, arrumavam encrencas, brigas e outras confusões.

Desci do avião com sete pedras na mão, quando tive que pegar um táxi para ir de Ezeiza até o Aeroparque (o aeroporto doméstico de Buenos Aires).  Já havia visitado o Google Earth e praticamente decorado um mapa que recebi da Sarita antes de viajar.  Sabia de cor e salteado e de trás para frente o caminho a fazer até o Aeroparque.

Depois de arrumar um táxi em que coubessem todas as nossas malas, e com o preço previamente acertado (88 pesos), o táxi partiu com o motorista caladão, respondendo quase que monossilabicamente a todas as minhas perguntas, feitas em um portunhol muito ruim.

Depois de um tempo, desisti de puxar conversa e decidi que era melhor seguir viagem calado mesmo.

Pouco tempo depois, ele fala, sem fazer muita questão de ser compreendido, que seguirá viagem pela Autopista – rodovia com pedágio que vai direto ao centro de Buenos Aires -, e vez de pegar a Av. General Paz – anel viário de Buenos Aires que não tem pedágio – porque o carro estava muito cheio.  Respondi para ele ir por onde ele quisesse e que não havia problema de tempo para chegar ao Aeroparque.

Ato contínuo, avisei ao pessoal do banco de trás, sem fazer nenhuma questão de ser compreendido, que o taxista estava armando para me dar uma volta.  E estava mesmo.

O caminho que ele seguiu era o caminho ideal e o que eu esperava que qualquer pessoa em sã consciência fizesse: bem mais curto e rápido que o outro.  Mesmo com o pedágio, ainda era mais econômico, principalmente porque os pedágios eram muito baratos (no total dos três pedágios, o cara não gastou dois pesos e meio).

Chegamos no Aeroparque e eu lhe entreguei uma nota de cem pesos e pedi que me desse o troco (doze pesos) em moedas, para evitar receber notas falsas.  Ele se fez de desentendido e me deu apenas dois pesos em moedas (as únicas moedas de um peso que ele tinha no porta-moedas).  Pedi os outros dez pesos em nota mesmo e ele disse que oitenta e oito pesos era o preço para ir pela Av. General Paz, e não pela Autopista.

Percebendo que era a hora da briga, comprei-a, enquanto o pessoal desembarcava do carro para assistir a avença com a devida distância.  Retirei a nota de cem da mão do motorista após um sorridente pedido de licença, avisei que eram 88 pesos ou nada e saí do carro para pegar as malas no porta-malas.

Ele voltou atrás e me apresentou uma nota de dez pesos que peguei, antes de lhe entregar a nota de cem pesos.  Eu já estava convencido desde antes do pedágio que noventa pesos era um bom preço para encerrar a contenda.

Nem preciso dizer que o taxista ficou pau da vida e desceu também, correu para o porta-malas e, quando ia pegar uma mala para jogar no chão eu me pus na frente e disse para que não tocasse em nada.  Ele gritou um monte de besteiras enquanto eu pegava rapidamente as malas e colocava nos carrinhos que o pessoal já tinha providenciado enquanto assistiam a briga.

Gritei com ele também, em péssimo portunhol, que ele não era homem e que pouco importava a quantidade de pessoas e malas dentro do carro, que o dinheiro acertado era para ir de um ponto a outro, pouco importando o caminho a seguir.

Ele só parou de gritar quando eu ameacei quebrar o carro dele – ameaça falsa, é verdade, eu nunca ia fazer isso.  Mas ele enfiou o rabo entre as pernas e sumiu dali.

Esse foi o meu presente de boas-vindas em Buenos Aires.

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Buenos Aires, férias

2 Comments

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  1. Nossa… Acho que a única vez em que tive confusão assim pra resolver foi dentro do Louvre, em frente a Monalisa… Mas isso é história pra um post. Em Nova York também… Ô, gente mal educada. Podia ter ido à polícia e fazer perícia (fui agredida pelo carregador de malas, pode?). Mas resolvi voltar quietinha para o Brasil. Sei lá o que podia acontecer…

    Sempre achei os taxistas portenhos tranqüilos e simpáticos, até. Peguei muito táxi sozinha. Isso é meio loteria. Questão de sorte mesmo.

    Cheguei a Praga com várias pedras na mão, pois dizem que são os taxistas mais desonestos da Europa. Não tive problemas também.

    Muita sorte a sua… Acho que, da próxima vez, vou programar minhas férias para o mesmo período e lugar que você for visitar. Como você pôde ler, eu não tive a mesma sorte.

  2. Estive em Buenos Aires três vezes, duas a passeio e uma a trabalho. Em todas as vezes tivemos algum tipo de problema com taxista… Da última vez, em fevereiro último, assim como você, brigamos com o motorista porque ele falou que a minha nota era falsa… Na verdade eu comecei a briga e deixei o Cézar terminá-la… O cara ficou muito pau da vida com a gente…

    Todos os meus amigos que tiveram problemas com taxistas em Buenos Aires e criaram confusão, contaram que eles saíram de fininho para escapar da confusão (era golpe, claro!). A solução parece ser esta. Vc cria caso, grita e eles botam o galho dentro.

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