Carol: a turbinada

Dessa vez eu fui um dos últimos a embarcar no avião.  Foi difícil me livrar daquele telefonema.  Até parecia que a pessoa nunca havia viajado de avião na vida.  Mas embarquei.  Entrei no avião procurando meu assento: 9F, na janela, como sempre.

Quando a garota que estava sentada no meu assento me viu, eu nem precisei falar nada:

– Esse lugar é seu?

– É sim.

– Meu lugar é o corredor.  É que eu passei por uma cirurgia, estou cheia de dores e sentei aqui para não ter que ficar levantando toda hora para deixar outras pessoas passarem.  Você troca comigo ou quer sentar no seu lugar?

– Ah, eu gosto da janelinha…

Mantendo a posição dos braços, agarrados ao corpo e com os cotovelos dobrados sobre os seios, ela se ergueu com dificuldade e cara de dor.  Entendi logo que cirurgia era aquela, mas fiquei calado – até porque o resultado não estava tão evidente assim.  Devia ser muito pior antes da cirurgia, pensei.

Mas aquilo não era comigo.  Saquei minha câmera enquanto o avião começava a taxiar na pista e tirei algumas fotos da janela para a minha coleção.

Eu estava quieto no meu canto, lendo uma revista, quando começou o serviço de bordo.  Quando chegou a nossa vez, a garota me chamou e pediu para eu descer a mesa de refeições dela, justificando que sentia muitas dores ao esticar o braço, por causa dos pontos da cirurgia.  Não dei muita trela e fiz a gentileza.  Peguei meu lanche e segui quieto na minha.

Até que ela, ao terminar o lanche e ver os detritos recolhidos, pediu que eu “fizesse o inverso”, apontando para a mesa com aqueles braços que pareciam imitar o Horácio ou um Tiranossauro Rex.  Mais uma vez, fiz a gentileza, mas dessa vez não aguentei e resolvi provocar:

– Você operou por que estava doente?

– Não, eu estou bem – respondeu ela um pouco acanhada.  Como eu sabia exatamente onde eu ia chegar, insisti no assunto:

– Mas a cirurgia, você fez porque estava doente, acidente?…

– Não, eu coloquei prótese.  Mas está doendo muito.  Eu só estou viajando porque tive que viajar, o médico não queria deixar, disse que eu tinha que ficar de repouso em casa, mas não tinha jeito, é coisa do trabalho. É que a minha chefe me ligou para dizer que eu tinha ganhado um prêmio da empresa e a cerimônia vai ser em Salvador, num resort, mas eu não vou poder aproveitar nada… – e continuou desabafando, enquanto eu olhava fixamente para os enormes óculos escuros que ela insistia em não tirar do rosto.  Até que eu intervim:

– Mas você está satisfeita com o resultado da cirurgia? – perguntei, apontando para os seios dela com os olhos.

– Tô muito feliz, ficou ótimo, o que eu queria.  Mas está doendo muito.  Para começar, esse sutiã pós-cirúrgico é horroroso e aperta para caramba.  E eu tenho que usar por três meses.  Os pontos eu tiro na semana que vem, mas esse sutiã dói bastante.  É horrível, eu não consigo fazer nada que tenha que esticar o braço, para não abrir os pontos… – eu não resisti e intervim novamente:

– Então como é que você vai fazer para lavar as costas no banho?

Ela fez cara de envergonhada, mas não deixou a bola cair:

– Não sei, não sei, não sei…  Lá em casa eu tinha uma enfermeira para me ajudar, minha mãe às vezes me ajudava, mas agora eu não sei como vou fazer.  E o cabelo?  Também não sei como vou lavar o cabelo…  Tomara que eu divida o quarto com outra menina que queira me ajudar…  Ah, mulher sofre muito…

– No seu caso, sofre porque quer.

– Não é porque quer não.  Tem coisas que não dá para fugir: parto de filho, depilação…  Vai dizer que vocês homens não gostam de depilação?  Duvido!  E eu agora estou me sentido bem melhor, mesmo com a dor.  Antes eu não tinha nada, agora está bem melhor.  Está doendo mas eu estou muito feliz…

E o papo continuou nesse ritmo até o avião pousar.  Ela falou do último carnaval, que passou no Rio de Janeiro, do trabalho, da conexão que ela ia fazer para Salvador e de um monte de outras coisas.  Mas só ela falou, praticamente.  No fim, já de pé no corredor do avião para desembarcar, perguntei o nome dela e ela respondeu: “Carol“.  Virou tema de post.

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2 Comments

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  1. hahahahahahahahahah, gente, que menina sem “loção”. O que ela vai fazer no resort? E como vai receber o prêmio??? Vc é dos meus, dificilmente eu troco meu lugar no avião, só que eu prefiro o corredor!

    Se eu fosse tão sem noção quanto ela, tinha pedido para ver o resultado. Mas eu já troquei de lugar, quando o interesse foi meu (deixei de ficar imprensando na janela contra uma mãe e uma criança histérica que queria ver a janelinha para deixar o pai sentar ali).

  2. A gorota realmente nao tem bom-senso
    hahah
    me diverti bastante lendo o texto.Muito bom

    Obrigado. Sejam bem vindos e voltem sempre!

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