Novelas – Tieta: a caixa da Perpétua

Há muito tempo eu não assisto novelas.  Nem lembro qual foi a última novela que eu assisti.  Hoje, além de não assistir, desprezo-as completamente.  Acho um desperdício da capacidade criativa humana.  Os retratos feitos da sociedade são péssimos, extremamente comerciais e elitistas, muitas vezes de péssimo gosto.  Os personagens se repetem, interpretados sempre pelos mesmos atores, com as mesmas vozes, cenários parecidos…

Mas já houve casos em que as novelas se prestaram a contribuir para a arte, tanto no quesito escrita quanto no quesito interpretação.  A minha tarefa, neste mês, é separar quatro vídeos que mostram as boas contribuições das novelas para a cenografia nacional.  Trabalho difícil…  Lembrei de dois casos e tive que pedir ajuda para lembrar de outros dois.  O de hoje, é um dos que lembrei logo – a última cena da novela Tieta, que foi ao ar entre 1989 e 1990.

Eu gostaria que todos reparassem bem na cena: ela começa num corredor da casa, estreito.  A iluminação é péssima, artificial, parece aquelas coisas de filme amador de festa de quinze anos, só um refletor amarelo apontando para o teto.  Depois que Perpétua aparece e expulsa o pessoal da casa a vassouradas, ela é posta no mesmo quadro com a vassoura e a foto do Major – seu ex-marido que, apesar de já falecido antes mesmo da trama começar, é o motor de seu personagem.

A tosqueira da cena continua, com uma dose de humor: ela própria tenta levantar voo com a vassoura.  É como se o autor quisesse dizer que a sua obra é de ficção, mas existe um limite para ela.  Talvez ela seja realidade, talvez personagens tão humanos realmente existam, talvez exista uma dose de Perpétua e uma dose de Tieta dentro do espectador.  Tudo isso para, em seguida, chamar o espectador novamente à ficção.

O recurso cenográfico da varredura da casa por Perpétua é interrompido por um facho de luz que atrai sua atenção para dentro do quarto.  É o Major que finalmente dá as caras, mas não muito claramente.  A luz no fundo oculta sua face embora deixe transparecer sua silhueta – recurso cenográfico clássico para cenas evocativas de coisas sobrenaturais.  Ele não diz nada, nem precisa.  Todos já sabem do que se trata, mas ninguém está muito aí para isso.  A morte de Perpétua já eram favas contadas.  Os espectadores estão interessados no que vem depois.

O olhar de Perpétua para a câmera, com um sorriso enigmático, até certo ponto safado (a avó da Fiona diria “sapequinha“), serve apenas para mostrar o que ela esperou toda a vida.

A ficção volta à tona na cena seguinte.  Perpétua, até depois de morta, ela é o centro do assunto.  Já virou mito, por ter desaparecido.  O corpo jamais foi encontrado.  Ficção pura!  Um deleite!  Sem deixar a peteca cair, o assunto em que todos (personagens e espectadores) estão realmente interessados, finalmente vem à tona: a caixa da Perpétua.

A cena seguinte é um primor: uma procissão de vários personagens pelo quarto.  Eles entram pela única porta existente no quarto e saem de cena… Como não existe outra porta, devem ter saído pela janela mesmo.  Pouco importa.  O interessante da cena é ver que, sem revelar às claras o objeto dentro da caixa, o autor solta as respostas ao enigma no ar.  Algo como a dúvida de Dom Casmurro – guardadas as devidas proporções.  Um primor!

Apreciem!

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6 Comments

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  1. Cara… e o mais legal é que essas cenas convenciam há vinte anos!

    Faltou você falar que o panorama social das novelas é “inverossímil” e “caricato”.

    Posso dar uma sugestão (se essa não for uma das 4 novelas que você selecionou)? Qualquer cena da Corte do Reino de Avilan em “Que Rei sou Eu?”, de 1989. São atuais até hoje!

    Não selecionei nenhuma cena dessa novela, por puro esquecimento. Deixo essa para você postar no BS.

    • Pode postar, se quiser. Este mês só vou falar de Copa (e JG, sempre que ele arrumar uma arte). Qualquer outra coisa, só depois de 11 de julho.

      Não… Vídeos só às quintas-feiras e todas já estão cheias. Fale disso depois da Copa, em julho, agosto…

  2. Eu adorava essa novela. As de antigamente eram ótimas. As de hj… acabo vendo por costume.
    Só quero ver as próximas! Beijos!

    Ps. Vale Tudo foi uma das melhores.

    Ok. Mas os posts deste mês já estão programados há quase dois meses. O que está na lista, está. O que não está, ficou de fora. Aguarde os próximos!

  3. Eu adorava essa novela! Até hoje quando alguma coisa é misteriosa para mim eu digo: “como dizia D. Milu, mistério (se vc se lembrar, vai saber como é que ela falava). Atualmente quase não tenho visto novelas, todas estão insuportáveis…
    Tomara que você tenha colocado uma cena da minha super, hiper preferida. A imbatível! Vou esperar para ver, depois falo qual é, ok?

    Eu também até hoje falo: “mistééééério”! Hahahahaha!!!!!
    Ok, vamos esperar sim. São quatro quintas-feiras este mês, tomara que uma delas seja da sua favorita.

  4. gostaria muito que repetisem no vale apena ver de novo ;por que e um sucesso! foi a melhor novela.parabens!

    Realmente seria bem melhor do que repetir umas porcarias que andam passando por aí.

  5. mais o que tinha na caixa da perpetua????

    Você viu o vídeo e não descobriu???

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