As vilãs da vez

Você vai visitar a casa de alguém.  Chega lá e é muito bem recebido.  A pessoa não é abastada, mas faz o melhor que pode – e até o que não pode – para lhe receber bem.  Prepara as melhores comidinhas, compra as bebidas que você mais gosta, coloca tudo em cima da mesa e ainda lhe recebe na porta de casa, com sorriso no rosto e os braços abertos para um abraço apertado, daqueles que parece que vocês não se veem há quatro anos.

Apesar de tudo isso, essa pessoa tem uma mania esquisita, que incomoda você.  O papo é agradável, a comida está fantástica, você se regozija, sente prazer em estar ali na casa dela, exceto por aquela mania – que não é ruim, mas incomoda você, em grande parte por você não estar acostumado a ela.  É chato, qualquer um reconheceria, mas é o jeito de ser do seu anfitrião, você sabe disso, sabia com antecedência, e mesmo assim aceitou visitá-lo na casa dele, onde a tal mania se revela com mais vigor.

O que você faz?  Reclama com ele?  Proibe o seu anfitrião de fazer aquilo?  Ou simplesmente atura, afinal de contas, você está na casa dele, comendo do bom e do melhor, você gosta dele, não quer perder o amigo e, ainda por cima, mamãe lhe deu educação suficiente para saber se comportar nessas horas?

As vilãs da vez
As vilãs da vez

Pois é.  Tô de saco cheio dessa história de neguinho (no sentido carioca da palavra) ficar falando mal das vuvuzelas.  Na televisão, na imprensa escrita, na imprensa virtual…  Nego só mete malha nas vuvuzelas (que aqui no Brasil se chamavam berrantes até este ano, todo mundo tocava e ninguém falava nada).  É a cultura dos caras, que os deixem tocar à vontade!  Todo mundo sabia que seria assim antes mesmo de escolherem a África do Sul como sede da Copa.

Os europeus, atuais “donos do futebol”, gostam de beber nos estádios, assistir jogos sentados confortavelmente em suas poltronas cativas, eventualmente cantar um pouco, torcer esticando os cachecóis sobre a cabeça e batendo palmas quando o time de coração faz gol.  Pensam, assim, serem o 12º jogador em campo.  Não podem impor seu estilo de torcida aos torcedores do mundo inteiro!  É, no mínimo, uma falta de respeito à diversidade cultural; no máximo, uma tirania e uma tremenda falta de educação.

Os incomodados que se mudem“, já dizia a minha avó.  Nunca levei muita fé na verdade absoluta deste ditado, porque acreditava em outro também: “o seu direito termina onde o meu começa“.  Como eu acho que ninguém tem o direito de dizer o que alguém deve ou não pode fazer dentro da sua própria casa, acho que, neste caso, somente o primeiro ditado se aplica – na sua integralidade.  Todo mundo tem a opção de assistir a Copa do Mundo na televisão da própria casa, ninguém é obrigado a ir ao estádio aturar as vuvuzelas.  E, se for, terá o direito – bem como o prazer e o privilégio – de tocar a sua vuvuzela sem ser incomodado.  Será, aliás, uma enorme honra para o anfitrião ver o visitante partilhando com ele a sua cultura, o seu prazer, o seu jeito de ser.  Ou alguém aí, quando viaja para o exterior, se recusa a comer a comida local?

Eu, por exemplo, odeio festa com som alto.  Não consigo, de jeito nenhum, entender por qual razão as pessoas têm que se enfurnar num lugar escuro, muitas vezes apertado, com luzes psicodélicas voando para todos os lados de maneira completamente aleatória e desorganizada, soltar fumaça ali dentro, ligar o som no último volume e ficar sacudindo de um lado para o outro.  Isso não é festa: é tortura!  Saio dessas festas com o ouvido zunindo, sem ter tido o prazer de conversar com as pessoas que eu gosto e não vejo há um bom tempo – porque o volume do som, infernalmente alto, não permitiu a comunicação.  E, nem por isso, deixo de ir à tal “festa”, nem por isso vou falar mal dela, ou odiar o anfitrião.  É o jeito dele de ser, é o meu respeito a isso, é a urbanidade mínima que se espera das pessoas.  Respeito às diferenças.

Portanto, chega de falar mal das vuvuzelas!  Eu quero ouvi-las em todas as transmissões – principalmente se elas anularem a voz do Galvão.  Viva as vuvuzelas!  Viva o povo sulafricano e sua cultura!  Sejam eles um exemplo para o mundo!

E eu quero o meu direito de assistir o jogo em pé no Maracanã em 2014, bebendo mate vendido por ambulantes dentro de um isopor caindo aos pedaços, preferencialmente com estádio superlotado e portões arrombados na final, com o Brasil em campo e 200.000 pessoas lá dentro.

OBS. Este post tem origem no mesmo bate papo que originou o seu post irmão do Bobeatus Sunt.  Tá um pouco atrasado, eu sei, mas é que só agora enchi o saco dessa baboseira de falar mal das vuvuzelas.

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Copa do Mundo, devaneios

4 Comments

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  1. Isso aí, viva as vuvuzelas (detalhe que só ontem aprendi o nome correto).
    E se o time do Brasil não fizer bonito (como infelizmente creio que não fará), vuvuzelas nele!!!

    Quanto pessimismo…

  2. menino, sabe que no domingo eu falei que essas vuvuzelas para mim eram iguais às nossas cornetas…?! Tipo uma que alguém está tocando desde hoje cedo… só uma coisa, você não acha que quando o jogo está acontecendo, o barulho fica igual a um zilhão de abelhas?

    Lembra um pouco o barulho de abelhas, mas é diferente.

  3. Sobre o jogo…o que que eu falei?

    Horroroso não foi. Pelo menos venceu, coisa que muita gente não conseguiu.

  4. Eu pensava que só eu não entendia a diferença entre as vuvuzelas, berrantes e afins…

    E eu acho que entendo. Daí a entender vai uma diferença muito grande.

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