Potsdam

Potsdam é o bate-volta clássico de quem vai a Berlim.  Não é o único, mas é o mais conhecido, divulgado e fácil de fazer.  O acesso é bem simples: pegue o S-Bahn, linha S7 (um trem a cada dez minutos, nos dias de semana, e a cada vinte minutos, nos fins de semana e feriados), em qualquer das estações centrais de Berlim (Alexanderplatz, Hauptbanhof ou Zoologischer Garten) e, em menos de 45 minutos, chega-se à Potsdam Hauptbanhof (a estação central de Potsdam), estação final dessa linha.  Importante dizer que Potsdam fica na “Zona C”.  Isso significa que o seu bilhete do S7 para chegar lá deve incluir viagens também para essa zona.

Para aproveitar bem o dia, é recomendável sair bem cedo.  Se quase tudo em Potsdam abre às 9h, é recomendável programar-se para chegar em Potsdam pelo menos 8:30h, porque as distâncias a percorrer por lá são grandes – e os percursos são quase todos feitos a pé.  Querendo chegar mais cedo, não há problemas: tire alguns minutos para tomar café da manhã em um dos dois ou três cafés da estação central de Potsdam – muito agradáveis, por sinal.

O Palácio Sanssouci visto da entrada principal do Parque
O Palácio Sanssouci visto da entrada principal do Parque

O “problema” de Potsdam é que a cidade tem muito mais a oferecer do que um único dia é capaz de abrigar.  Além do Parque Sanssouci – a principal atração da cidade -, há também ruas cheias de comércio e restaurantes, diversos outros palácios (inclusive o Cecilienhof, onde ocorreram os encontros da Conferência de Potsdam) e a Glienicker Brücke (a ponte onde União Soviética e Estados Unidos trocavam seus espiões), dentre inúmeras outras atrações turísticas.  Um dia, apenas, não dá para ver tudo.  É preciso fazer escolhas e a minha escolha foi pelo Parque Sanssouci e seu anexo Parque Charlottenhof, que são tombados pela Unesco como patrimônio mundial da humanidade e concentram, num espaço geográfico razoavelmente pequeno (ou, melhor dizendo, percorrível a pé), inúmeros palácios e jardins.

Imprescindível para o sucesso da visita é ter um mapa em mãos.  Há postos de venda de mapas do Parque Sanssouci espalhados pelo parque.  São pequenas máquinas de autoatendimento que trocam dois euros por dois mapas (venda casada, sim!).  Também é importante ter uma meta traçada para a visita e, o meu roteiro, considerei muito bom.  Deu tudo certo.  A ordem dos comentários abaixo é a ordem que eu planejei e executei, com sucesso.

Após o café da manhã na estação de trem, caminhei até o Parque Sanssouci (eu me perdi no caminho, mas me achei) e chegei na bilheteria do Palácio Sanssouci (a principal atração do parque) ainda antes às 9:30h.  Embora todos os guias dissessem que ele abriria às 9h, a bilheteria só abriu às 10h.  Na minha frente, meia dúzia de italianos falavam alto e gesticulavam eloquentemente (eu sei que isso é um pleonasmo, mas foi inevitável).  Fiquei imaginando como devia ser difícil interpretar italiano (porque falar a língua não basta – é preciso interpretá-la com todo o corpo).

Às 10h em ponto a bilheteria abriu e uma multidão de italianos já se concentrava na minha frente na fila.  Era uma grande família que havia deixado quatro gatos pingados mofando na fila enquanto passeavam e tiravam fotos pelos jardins do palácio.  Eles surgiam e se multiplicavam.  Não ousei reclamar, para não ter que gargalhar da forma como eles se comunicariam comigo durante uma eventual discussão.

Comprei o bilhete para um dia inteiro chamado Premium Day Pass.  Se a família fosse maior, o Premium Family Ticket valeria mais a pena.  Um bilhete para mim e outro para a Fiona foram a medida da melhor economia possível.  Esse bilhete dá acesso a quase tudo que há para ver em Potsdam (inclusive o Palácio Sanssouci) e ainda muitas atrações de Berlim, como o Palácio Charlottenburg.  Na verdade, ele é um grande desperdício, já que é virtualmente impossível ver tudo aquilo num único dia.  Mesmo assim, tanto pela praticidade quanto pelo custo, ele acaba valendo a pena.

Foi ela que me deu a bronca!
Foi ela que me deu a bronca!

Ato contínuo, entrei no Palácio.  Deslumbrado, saquei a câmera fotográfica e tirei uma, duas, três fotos…  Fui interrompido por uma mulher (loira, obviamente) falando alemão.  Achei que ela quisesse dizer que era proibido tirar fotos ali dentro.  Por isso, logo apontei para uma placa que dizia apenas que era proibido o uso de flash.  Como ela só falava alemão e eu não falo alemão, a comunicação continuou no melhor estilo indígena americano:

– Yes photo, no flash!, eu disse, apontando para a tal placa.

Ela concordava, mas falava também um monte de outras coisas em alemão que eu não fazia a menor ideia do que eram.  Dei de ombros e continuei meu caminho, tirando fotos, sem flash.  Ela veio atrás, falando um monte de coisas em alemão novamente, e me chamou a atenção tocando meu ombro.  Virei-me e ela apontou, sem dizer nada, para um homem que estava lá no salão anterior.  Fui até ele e, finalmente em inglês germano-macarrônico, recebi a explicação de que, para fotografar o interior dos palácios dos Parques Sanssouci/Charlotenhof, eu deveria adquirir uma “licença” por três euros.  Essa licença era ostensivamente exibida por uma fita vermelha que eu deveria usar no pulso.

– Só isso?!!!  Toma!

Ele não quis receber.  Apontou para uma outra pessoa, que segurava todas as fitas na mão, no balcão que alugava também o audioguide do palácio – que, obviamente, eu não peguei.  Paguei, levei a fita.  Coloquei no pulso e continuei a visita do local onde havia parado, recebendo, agora, um lindo sorriso da loira que havia me interceptado anteriormente.

Mas a visita seguia a passos arrastados.  Os salões estavam todos fechados.  Eu entrava num salão, via-o todo (os salões do palácio são relativamente pequenos, como todo o palácio em si), e não conseguia seguir para o salão seguinte porque a porta estava fechada – e sempre havia um leão de chácara na porta.  Lá pelas tantas, entre uma abertura ou outra da porta que ligava ao salão seguinte, percebi que havia um grupo visitando o Palácio na nossa frente.  Era por isso que a abertura do palácio havia atrasado em uma hora: um “jabazinho básico alemão” para uma excursão prejudicara o cronograma de funcionamento do palácio sem prévio aviso e sem nenhum respeito aos demais turistas.  Nem adiantava ficar pau da vida ou reclamar: seria impossível discutir em alemão e a discussão não resultaria em nada útil.  Até em países de primeiro mundo há privilégios odiosos…

Face externa do Palácio Sanssouci
Face externa do Palácio Sanssouci

1. Palácio Sanssouci: o pequeno palácio foi a casa escolhida pelo rei Frederico, O Grande (não me perguntem a razão do apelido porque eu não me interessei em descobrir) para passar o resto dos dias de sua vida longe das frescuras e da nojeira da corte em Berlim.  Depois foi abandonado pelos seus sucessores, depois redescoberto, reformado, ampliado…  Pouco sobrou da cabana de campo original do Frederico.  O cuidado com o acabamento, principalmente nos entalhes, tanto dentro (quando são invariavelmente talhados a ouro) quanto fora do prédio (uma das melhores expressões do rococó que eu já vi na vida), são perfeitos.  Cada aposento tem uma cor, um tema.  Num deles, Voltaire dormia quando passava suas temporadas na corte alemã.  O palácio, de um único pavimento ao nível do chão, dá mesmo a impressão de ser uma casa de campo agradável e aconchegante, um sabor de pé no chão que não se tem na cidade grande.  Os jardins, do lado de fora, são incrivelmente bonitos, principalmente quando vistos de longe, com o palácio no fundo a enfeitá-los.  É a obra-prima de todo o complexo formado pelos dois parques e, portanto, imperdível.  A cozinha e a adega, no subsolo, são o oposto.  Ali quase tudo é artificial: fogões desenhados no vidro e umas panelas de cobre penduradas formam a grande cozinha.  Não vale nem como registro histórico.  A adega tem lá algumas garrafas empoeiradas, mas não dá nem para distinguir se há vinho nelas ou não – mais parece o almoxarifado do museu.  Não vale a pena sequer cogitar descer as escadas para ver essa parte do palácio.  Apesar de tudo isso, a expectativa que eu nutria por conhecer o palácio fez com que eu o achasse bem modesto num primeiro momento – fiquei, na verdade, bastante decepcionado com a visita.  Mas repito: ele é belíssimo e julgo que se eu não tivesse tanta expectativa a seu respeito, nem tantos percalços durante a visita, diria-o maravilhoso.

Parede do grande salão da Bildergalerie
Parede do grande salão da Bildergalerie

2. Bildergalerie: olhando os jardins a partir do platô do Palácio Sanssouci, a Bildergalerie é o prédio situado à esquerda (em oposição ao Neue Kammern, que é o prédio situado à direita, mais próximo do moinho – veja a figura abaixo).  A Bildergalerie era, originalmente, uma estufa onde o rei cultivava plantas.  Com o passar do tempo, o prédio foi convertido em galeria de arte e hoje é o mais antigo museu de arte criado por um governante alemão.  Hoje suas paredes estão abarrotadas de obras de arte e seu grande salão interior (praticamente o prédio inteiro é um único salão de exibição) deixa qualquer visitante boquiaberto.  Assim como no Sanssouci, os entalhes cobertos de ouro são perfeitos, um espetáculo à parte dos inúmeros quadros expostos nas paredes.  O pecado ali fica por conta da iluminação vinda das enormes janelas da face frontal do prédio, que acabam dando luz demais ao ambiente e prejudicando a visibilidade das obras de arte.  Cortinas mais espessas ali cairiam muito bem.

O Neue Kammern vista do Parque Sanssouci
O Neue Kammern vista do Parque Sanssouci

3. Neue Kammern: ali tive uma surpresa.  Ao contrário das visitas dos prédios anteriores, onde eu apenas exibia o meu passe diário e ele era marcado com furos, no Neue Kammern, além desse ritual simples, eu ainda devia sacar dois pequenos ingressos para poder visitá-la.  Não havia fila para entrar, havia pouca gente lá dentro, mas no que eu pude entender do gestual da mulher do balcão, isso era necessário (óbvio que ela também não falava nenhuma língua além do alemão).  Achei o exagero do controle meio esquisito, mas não havia razão para discutir e topei a “brincadeira”.  O Neue Kammern  também foi uma estufa real nas suas origens.  Depois de algumas reformas, ele hoje mais parece um imenso lugar para festas e recepções.  Tem aposentos amplos e contíguos, de cores e decorações diferentes, mas sempre de muito bom gosto.  Um aposento tem espelhos, outro é revestido com pedras azuis, outro com talhos dourados…  Ali, nas pedras azuis de um dos salões, havia marcas em baixo relevo indicando a lembrança da guerra (inscrições como “1945” são facilmente visualizáveis).  Os grandes janelões o integram ao jardim com rara perfeição, lembrando muito os Trianons de Versailles e, também, o Palácio Imperial de Petrópolis.

As pás do Moinho Histórico
As pás do Moinho Histórico

4. Moinho Histórico: o moinho, situado atrás do Neue Kamern, não é mais o moinho original.  Este foi destruído com um tiro de bazuca durante a II Guerra Mundial.  Hoje, ele vale muito mais pela sua história do que pelo seu presente.  A lenda ao seu redor é mais ou menos a seguinte: “o Rei Frederico, o Grande, estava incomodado com o barulho que ele produzia e fez tudo que estava ao seu alcance para desativar o moinho.  Ele ofereceu ao dono do moinho, cujo nome era Grävenitz a sua compra, após deixar claro que tinha poder para tomar-lhe o moinho sem pagar indenização.  De acordo com a lenda, Grävenitz respondeu: “Com todo respeito, majestade, o Senhor teria esse poder se não fosse a Suprema Corte de Berlim”.  Assim graças ao recém implantado sistema constitucional alemão, o dono do moinho foi o primeiro cidadão a ganhar um processo contra o governo alemão.”  Isso é só uma lenda.  A verdade, ao que parece, é algo um pouco diferente disso: o rei, na verdade, gostava do moinho, pois ele dava um ar rural ao palácio.  De qualquer forma, há um fundo de verdade nela.  O dono do moinho processou o rei, mas por outros motivos.  O moinho foi construído em 1738, dez anos antes do castelo.  O dono do moinho reclamava que o castelo bloqueava o vento.  O rei foi condenado a comprar um novo moinho para Grävenitz, o que foi feito em 1787.  O velho moinho se tornou, desde então, apenas um monumento histórico.  Visitálo vale a pena somente pela vista que ele proporciona lá de cima.

O mais belo salão interno do palácio: o Salão de Rafael
O mais belo salão interno do palácio: o Salão de Rafael

5. Orangerie: Continuando rumo a oeste, depois do Neue Kamern chega-se a esse palácio grande, imponente, solene.  Ele tem 300m de comprimento e estilo renascentista, em oposição ao rococó dos palácios vistos até então (estilo que ficou domina os aposentos do seu interior).  O palácio em si é apenas o corpo central, relativamente pequeno.  As duas imensas alas laterais, com mais de 100m de comprimento, são estufas que hoje estão fechadas para reformas e têm um ar de salão de baile.  Ao dirigir-me à entrada, recebi um bilhete que indicava que a minha entrada só seria autorizada dali a alguns minutos, às 12:30h.  Fiquei do lado de fora esperando, e aproveitei para tirar algumas fotos.  Um pouco antes do horário marcado, fui convidado a entrar numa salinha que mais parecia um vestiário, com armários e pantufas mil.  Recebi um folheto plastificado informativo em inglês e fui orientado, a partir de gestos, a calçar as pantufas – sem a necessidade de descalçar os sapatos.  Lembrei do ar pueril das visitas ao Museu Imperial de Petrópolis, mas achei aquilo meio ridículo.  Novamente, topei a “brincadeira” e segui caminho, palácio adentro, esquiando sobre as minhas pantufas.  A visita começou e a guia só falava alemão – eu que me virasse com o folheto explicativo em inglês!  Não só isso: o pequeno grupo (cerca de 30 pessoas, não mais que isso), tinha que se mover todo junto, sempre confinado no mesmo aposento.  A guia abria uma porta, todos avançavam ao salão seguinte e, ato contínuo, ela trancava – com chave! – a porta atrás de nós.  Parecia uma psicose louca ou um jogo de videogame, desses que ao se passar de fase não se pode voltar atrás nem avançar à fase seguinte sem matar o monstro daquela fase.  E assim a visita prosseguiu e terminou – exclusivamente em alemão – durante cerca de 30 minutos.  Tive a impressão de ter sido ludibriado seriamente ali, pois a guia transmitia aos visitantes muito mais informações do que havia naquele pequeno folheto plastificado.  No fim da visita, todos são convidados a subir as escadas até o terraço do palácio (aqui diriam “até a laje“) para ter uma boa vista da região.  A vista vale a pena também, embora não seja muito diferente daquela que se tem do alto do moinho (a do moinho é até mais bonita, pela proximidade com o Sanssouci e o Neue Kamern), mas ali descobri que escadas na Alemanha nunca terminam.  Aliás, são escadas sádicas: elas dão a impressão de que acabaram, mas logo a subida deve ser reiniciada em outra escada que estava fora do alcance inicial da vista de quem sobe.

O caminho para o Belvedere é o que de melhor ele tem a oferecer
O caminho para o Belvedere é o que de melhor ele tem a oferecer

6. Belvedere: Um pequeno palacete no topo da colina, seguindo o caminho feito desde o Neue Kamern e passando pela Orangerie, o Belvedere hoje está fechado para visitação.  É um prédio bonitinho mas muito mal conservado (distoa dos demais) e pintado com um amarelo muito feio.  Para se ter uma ideia, o aposento inferior jamais foi recuperado desde a destruição sofrida durante a II Guerra Mundial.  Seguir a sua direção só vale a pena por dois motivos: é caminho da Casa do Dragão (hoje um restaurante com preços razoáveis – gastei 55 euros com sobremesa e gorgeta incluídas – e ar romântico) e o caminho da Orangerie até ele é de uma beleza inigualável, especialmente para quem gosta de tirar fotos, como eu.  Descendo a escadaria à esquerda desse caminho, jungo ao Belvedere, passando pela horta e o pomar do Parque, chega-se à Casa do Dragão, com fome e já passando da hora do almoço.  Os pratos são gostosos (não muito generosos) e o vinho da casa também.  E não há outras opções de almoço num raio de quase mais de 1km.

A imponência do Neue Palais
A imponência do Neue Palais

7. Neue Palais: de barriga cheia e meio tonto com o vinho, continuei descendo as escadarias da encosta do pomar/horta do Parque, atravessei a estrada que o corta (chamada Maubeerallee) e segui reto toda vida até alcançar o Neue Palais.  Ao contrário dos demais palácios do Parque, ele é grande, imponente, poderoso, com dois andares e em estilo clássico, com fachada coberta de mármores.  Enquanto os demais palácios são visivelmente pacatos, residenciais e íntimos, o Neue Palais transparece o poder do Estado e a suntuosidade da corte.  De fato, ele foi construído com este fim: ser a sede do governo enquanto o governante curtia seus dias de verão no Sanssouci, evitando que tivesse que se deslocar até Berlim para trabalhar.  E, embora eu houvesse programado a visita para um dia em que todos os palácios do parque estivessem abertos (eles fecham à visitação em dias diferentes, o que não tem nenhuma lógica), o Neue Palais estava fechado – sem que nenhuma plaquinha explicasse a razão do inesperado fechamento.  Como não havia a quem reclamar (e, mesmo que houvesse, isso de nada adiantaria, porque a pessoa não entenderia outra língua diferente do alemão), tirei as fotos externas e segui meu caminho rumo ao próximo palácio.

Vista externa do Charlottenhof
Vista externa do Charlottenhof

8. Charlottenhof: ele é outra casinha de campo no meio do Parque que, vizinho ao Parque Sanssouci (não se percebe onde um começa e o outro acaba), serviu à realeza alemã com ares intimistas e rurais.  Foi presente do rei Frederico Guilherme III ao seu filho (Frederico Guilherme IV) e sua nora (Ludovica da Baviera) no Natal de 1825.  O nome do palácio é uma homenagem à proprietária que vendeu as terras ao rei, chamada Maria Charlotte von Gentzkow.  Ali, novamente, a visita foi programada para dali a alguns minutos e seguiu o mesmo ritual do tranca-porta visto na Orangerie.  A guia, também, só falava alemão – e falava muito mais coisas do que havia escrito no folheto explicativo plastificado que me fora entregue com um ar de “se vira com isso aí” antes do início da visita.  A mais singular das salas do palácio é a Sala Tenda, criada para imitar uma tenda de campanha militar (com ares mamelucos). Ela tem o teto e as paredes decorados com papel de parede com listas azuis e brancas. O tratamento das janelas e das coberturas continua esse desenho.  De resto, nada demais.

As Termas Romanas de Frederico Guilherme IV
As Termas Romanas de Frederico Guilherme IV

9. Termas Romanas: um pouco ao norte de Charlottenhof fica um prédio amarelado que imita umas Termas Romanas.  Não é nada além do resultado de uma excentricidade de Frederico Guilherme IV, fanático pelo estilo italiano, que as mandou construir para ter ali, pertinho de Charlottenhof.  A essa altura, a pulseira vermelha, de papel, já estava por arrebentar do meu pulso e eu achei por bem tirá-la e preservá-la, colocando-a parcialmente visível no bolso da alça da mochila destinado a servir de receptáculo para o telefone celular.  Por isso, quando eu saquei a câmera e tirei a primeira foto (sem flash), uma mulher (loira) veio lá de longe gritando com voz muito grossa.  Em alemão.  Eu não sei se alguém já teve a oportunidade de conviver com a língua alemã mas eu afirmo: qualquer coisa dita em alemão por uma mulher com uma voz grossa como aquela soa como uma bronca sem precedentes na história (ainda que sejam calorosos  e sinceros elogios).  A vergonha que eu senti ali não tem medida.  Enquanto ela continuava a falar mil coisas naquela língua incompreensível, gesticulando, eu me limitava a tentar chamar a sua atenção para a bolsa do celular na alça da mochila, onde estava a pulseira vermelha.  Como ela estava louca da vida, não conseguia prestar atenção nos meus gestos.  Depois de dois estalos de dedos e um psiu bem pronunciado por mim, apontei claramente para a pulseira.  Ela viu, e mudou o tom da bronca – desconfio que ela, agora, não mais condenava a falta da pulseira mas a razão pela qual ela não estava no meu braço.  Por isso, mostrei que a pulseira já estava quase arrebentando com gestos beeeem largos – mas sem falar nada, porque é ridículo falar algo em português para um alemão entender.  Ela percebeu a dramaticidade da situação e parou de falar imediatamente.  Abriu um largo sorriso, sincero e carinhoso, e recolocou a pulseira onde ela estava, acrescentando gestos de “deixa ela aí mesmo, é o melhor que você faz para que ela não arrebente de vez”.  Se pediu desculpas, eu não entendi, porque não entendo nada de alemão – o que não muda em nada a vergonha que eu senti ali levando aquele esporro monumental.

A cereja do bolo: a Casa de Chá Chinesa
A cereja do bolo: a Casa de Chá Chinesa

10. Casa de Chá Chinesa: pertinho dali, a nordeste, fica a Casa de Chá Chinesa – na minha opinião, a coisa mais bonita que eu vi nesse passeio.  É o fechamento da visita com chave de ouro – pena que começava a chover nessa hora e eu não tive muita chance de tirar todas as fotos que eu queria.  O prédio redondo contém três aposentos ao redor de um grande salão central.  Janelas redondas e francesas que vão quase até o chão permitiam que a luz entrasse no interior do pavilhão.  O teto, na parte da varanda (que ocupa o espaço de um quarto aposento) é suportado por quatro colunas de pedra folheadas a ouro.  As duas colunas centrais são adornadas com estátuas nos seus pés.  No alto do prédio, a cúpula é coberta com uma figura chinesa com um parassol aberto.  Ali, parece que cada detalhe foi pensado, repensado e executado com extrema perfeição.  A harmonia das cores (o verde das paredes com o dourado) é impressionante, a decoração interna também – a pintura do teto, o candelabro, as porcelanas, os móveis…  É tudo perfeito!

Marcas de tiro na altura do peito: alguém já foi fuzilado ali
Marcas de tiro na altura do peito: alguém já foi fuzilado ali

A visita terminou aí.  Havia tempo ainda para andar pela cidade, ver o comércio, as ruas, ou mesmo tentar conhecer outros palácios da região ou a Glienicker Brücke.  Cansado de andar bastante durante todo o dia (anda-se muito nesse passeio), preferi pegar o trem de volta para Berlim e descansar (cheguei a dormir no trem de volta).  No caminho, surpreendi-me ao ver a parede de um prédio qualquer numa rua qualquer com inúmeras marcas de tiro concentradas em um perímetro pequeno, na altura do peito de uma pessoa do meu tamanho.  Certamente alguém fora fuzilado ali.  Mais marcas da Guerra…  Elas estão mesmo por todos os lados.

No fim do dia, além do cansaço, ficou a satisfação de ter visto tudo o que eu vi misturada à sensação de ter deixado muita coisa para trás em Potsdam.  Eu acho que, para ver tudo (tudo mesmo!), com a calma e a atenção que ela merece, Potsdam precisaria de três dias inteiros dedicados somente a ela.  E afirmo, sem dúvidas, que eu voltaria facilmente a Potsdam numa outra oportunidade…

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12 Comments

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  1. Lê,
    muito bom o post e as fotos! Vc conseguiu fazer com que eu me sentisse parte da viagem!!! Pude até imaginar a alemã vociferando contra vc por causa da pulseira! rs
    Bjs

    Você teve paciência de ler até o final? Puxa… Nem acredito.

  2. Ah, o texto apesar de longo ficou cativante sim; não sei se pelas fotos dos monumentos lindos, ou por ser contado mais como uma estorinha…
    Mas no meio disso tudo senti falta dos Kus…kkkkkkkkkkkkkkk

    Em Potsdam não há Kus… Isso é coisa do pessoal de Berlim, pelo visto.

  3. Se em 1 dia de Potsdam você já nos brindou com tamanho post rico de detalhes, o que dirá em 3 dias de viagem? Seria a reedição do “Velho Testamento”.

    Mas para quem gosta de viagem, nada melhor do que ler posts que comportam, principalmente, os bastidores da viagem. E isso você vem fazendo com maestria.

    Aliás, você ousou tirar foto das alemãs que pagaram geral pra você em sua visita? Era tudo tipo Angela Merkel? Cruzem, só de pensar…

    De fato, era muita história para contar num post só, mas eu fiquei com preguiça de dividir em dois capítulos – seria embromação demais.
    Tirei foto da primeira. Era tipo Angela Merkel sim, mais nova e ainda com alguma graça. Olha a foto dela aí.

  4. Kkkk, ótimo Eça!
    Realmente, para os dias restantes, senta que lá vem estória, rsrsrsrs

    Na outra semana, dia 18, preparem-se para a história… Essa sim vai ser de rolar de rir.

  5. Agora fiquei curiosa: kd a foto da Angela mais nova??? rsrsrs

    Tá do lado do texto, na parte que eu falo dela! Você ainda não viu?

  6. Kkkkkkkkkkk, vi agora! Realmente, a bichinha tá com uma cara de quem NÃO comeu e não gostou que dá medo…

    Cara de sargento mau!

  7. Eu vou imprimir todos os seus posts sobre Berlim e Londres, já que são os dois lugares que tenho certeza que vou. E essa certeza só se dá por conta dos bilhetes aéreos comprados: a ida para Berlim e a volta partindo de Londres. Você não tem noção do tanto que eu tô bava!

    Compra um bilhete pra mim que eu te ajudo a acalmar.

  8. Olha, eu viajei muito com vc neste dia, heim. Até na parte da bronca por conta da alta da pulseirinha! rsrsrs
    Que lugar maravilhoso! Acho que eu tiraria mil fotos só naquele caminho para o Belvedere. Beijos!

    Não tirei mil, mas tirei muitas fotos. O caminho é mesmo muito bonito.
    Mas o estômago estava roncando e a pressa de chegar no restaurante do dragão era grande…

  9. Bicho !!!! Muito massa o post … estou indo em maio para Berlim e farei o passeio para Potsdam. Vc pegou algum ônibus para chegar ao palácio ou é de “expresso canelinha”?
    Tenho problema nos pés e sempre tento economizar um pouco nas caminhadas para poder andar no dia seguinte.

    Fui a pé. Mas tem um bonde que te leva até mais perto dos palácios.
    De lá, muito expresso canelinha para ver tudo. Muito mesmo.

  10. adorei o post,vou seguir seu roteiro e de preferencia nao levar bronca das alemaes,ksksks.Tbem nao falo alemao!Estarei em Berlim em marco e quero conhecer Postdan,valeu pelas dicas !

    Boa viagem e boa sorte.
    Mas não esqueça que o post foi escrito em 2011. Vale a pena conferir se horários e preços ainda se mantêm.

  11. Você é realmente do Cachambi?

    Sou da Garcia Redondo =)

    Não sou mais.

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