De volta a Paris

Depois do passeio dos sonhos no Vale do Loire, era hora de voltar à realidade.  Com o fim da viagem próximo, restavam apenas alguns dias mais de viagem – que seriam passados em Paris.  Um fim mais que perfeito para uma viagem que havia sido quase perfeita também.

O primeiro problema a ser superado era cometer a loucura de ingressar em Paris de carro, dirigindo.  O plano era simples: seguir o GPS até o hotel, desembarcar as malas, fazer o check in, voltar para o carro, seguir até a Gare de l’Est, devolver o carro e dali ganhar Paris.  O GPS fez a parte dele, mas o trânsito parisiense, não.  Aquilo é uma loucura, estilo São Paulo.  Para se ter uma ideia, a 300m do hotel, numa ruazinha que só cabiam dois carros (um estacionado à direita e outro andando), o caminhão que estava na minha frente simplesmente parou e começou a descarregar.  Não adiantou esperar, buzinar, reclamar…  Os carregadores do caminhão mandaram dar a volta no quarteirão fazendo gestos claros e caras pouco amistosas.  Dei ré, voltei até a esquina e me virei, sempre ajudado pelo GPS – São GPS, diga-se de passagem.

Se o esquema era bagunçado, senti-me em casa.  Encostei o carro com jeitinho na porta do hotel, descarreguei as malas, fiz o check-in e aproveitei que a maré era favorável para subir com as malas para o quarto.  Não demorou, mas num lugar com trânsito minimamente civilizado, eu não teria arriscado.  Dali até a Gare de l’Est foram mais de quinze minutos – um percurso de menos de 3km – no caótico trânsito de Paris.  Sintam parte do drama no vídeo abaixo: carros parados em ambos os lados da rua, gente parada em fila dupla (mas com piscalerta ligado!)…  Pelo menos respeitam o sinal de trânsito.

Eu só lembrava de um dos muitos guias que eu havia lido sobre viagens que, falando sobre locomoção em Paris, dizia em três palavras tudo o que era necessário saber sobre alugar carros para andar na cidade: “nunca faça isso“.  Como é que uma cidade com transporte público tão eficiente (metrô, ônibus, RER, barco, todos integrados, com preço único e cobrindo toda a Île de France – nome pelo qual a Grande Paris é chamada) pode ter um trânsito tão caótico?  Duvidei que a solução para São Paulo ou o Rio de Janeiro fosse investir em transporte público…

Mas a minha passagem por Paris seria apenas para descansar.  Não era para ficar no hotel, se refastelando, mas para fazer apenas aquelas coisas que realmente dão prazer em Paris – bem diferente dos roteiros obrigatórios da Cidade Luz.  E aí vão algumas dicas de passeios realmente gostosos de se fazer:

Pont des Arts
Pont des Arts

1. Pont des Arts: a ponte construída por Napoleão (a primeira feita com estrutura metálica sobre o Rio Sena) não é apenas mais uma ponte sobre o Rio Sena.  Se todas elas têm a sua característica própria, a Pont des Arts exala encanto.  Por ser uma ponte de pedestres, é possível passear calmamente nela, sentar-se, conversar, ouvir música, tirar fotos, fazer piquenique, sem medo de atravessar a rua ou ter que ouvir o barulho ensurdecedor de ônibus e automóveis lhe apertando na calçada estreita.  Nela, os casais apaixonados atrelam cadeados às grades de proteção e jogam a chave no Sena, prometendo amor eterno entre eles.  De tempos em tempos, a prefeitura de Paris retira todos os cadeados das grades, liberando os antigos casais de seus compromissos (brincadeira!) e abrindo espaço para novos casais fazerem seus votos.  Então, quando forem lá, levem um par de cadeados!  Como se não fosse bastante, a Pont des Arts ainda proporciona a melhor vista da Pont Neuf, da Bibliothèque Mazarine, da lateral do Louvre e do próprio Rio Sena.  Assistir o pôr-d0-sol dali vale a pena.

2. Quartier Latin: o caos daquelas ruas, especialmente no fim da tarde, é fascinante.  A enorme quantidade de turistas, a variedade de restaurantes, artistas de rua, o clima ameno, tudo ali é gostoso – dos asquerosos churrascos gregos aos indescritíveis sorvetes (experimente um na Amorino, que fica na esquina da Rue de la Huchette com a Rue Xavier Privas).

Anoitecer no Louvre
Anoitecer no Louvre

3. Museu do Louvre: se visitar o museu é a minha atração favorita em Paris, andar por fora dele não fica muito atrás.  O prédio é magnífico – no entanto, poucas pessoas se dão ao trabalho de admirá-lo.  Aproveite, então, para fazer um passeio ao ar livre e admirar o edifício – que é ainda mais bonito à noite, iluminado.  Veja o espaço formado no interior de sua ala Sully (chamado Cour Carrée), a pirâmide e o Carrossel.  Olhe as estátuas situadas na balaustrada do prédio, as pessoas que passam por ali ou simplesmente esperam que as ouras passem, as enormes diferenças entre cada um dos braços do prédio…  Espie pelas suas janelas, assista o fim da tarde ali, depois que a confusão causada pela horda de turistas se dispersar como fumaça no vento.

4. Almoçar no Bazar do Hôtel de Ville: um programa barato e até certo ponto burocrático como um almoço corrido no centro de uma grande cidade brasileira.  Almoçar no BHV é uma experiência cotidiana parisiense.  O restaurante fica no alto do prédio, no último andar.  Para chegar lá, é necessário fazer o “sacrifício” de percorrer a loja toda – e depois, para sair de lá, percorrê-la todinha novamente, chega a dar dó.  O restaurante tem uma vista bacana, é bem frequentado e, melhor de tudo, barato.  Não é uma pechincha – afinal de contas, ele está numa grande cidade europeia -, mas é bastante barato para os padrões parisienses de restaurantes em áreas turísticas.  O que mais chama a atenção ali é viver o dia-a-dia de um autêntico cidadão parisiense: a comida que ele come, a bebida que ele bebe, o modo como ele consome a comida, o vinho acompanhando a refeição…  É uma experiência.

Basílica do Sacre Coeur
Basílica do Sacre Coeur

5. Montmatre: dez entre dez turistas que vão a Paris passeiam pelas ruas do bairro.  Muitos procuram por shows, outros por restaurantes, outros ainda por diversão sexual.  Eu procuro por cenários e rostos para fotografar.  Ao contrário do restaurante do BHV que mostra o cotidiano de um parisiense, Montmatre, para mim, mostra o cotidiano de Paris: repleta de turistas e de franceses que ganham a vida com o turismo.  Passar horas sentado num daqueles restaurantes e comer um sanduíche de paté de foie gras com geleia de figo, bebendo o vinho da casa, não tem preço (quer dizer, tem, é um pouco caro, mas vale a pena).

7. Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa: a aparição da Virgem em Paris se deu nessa capelinha esquecida em meio a um dos principais centros de compras dos parisienses – um local com muitas lojas maneiras onde os parisienses fazem suas compras, bem diferente da Rue de Rivoli, onde os turistas fazem suas compras.  O espírito da visita é religioso, mas pode ser uma boa oportunidade também para se adquirir souvenires maravilhosos (e autênticos) para aquela sua tia ou para a sua avó superreligiosa a preços excepcionalmente baratos: as medalinhas custam centavos de euros e os terços um pouco mais que isso.

Jardins de Luxemburgo
Jardins de Luxemburgo

6. Jardins de Luxembourg: semana passada a Ju Foch escreveu sobre o Jardim de Luxemburgo.  Eu comentei que não é o meu lugar preferido em Paris.  Longe disso.  Acho o lugar inóspito, sem metrô perto e sem ter o que fazer além de ficar ali passeando pelos jardins ou quarando no sol, como um autêntico francês.  Mas eu preciso entender que aquele lugar não foi feito para mim, turista.  Ele também é uma experiência do cotidiano parisiense.  Contudo, enquanto eu reluto em aceitar esse fato, eu prefiro continuar passando longe de lá.

8. Arredores da Igreja La Madeleine: a igreja em si é um espetáculo arquitetônico.  O enorme tamanho, a aparência de um templo grego e as obras de arte escondidas dentro dela (especialmente a curiosa imagem da cúpula da abside, onde Napoleão fala diretamente com Deus enquanto o Papa só assiste a cena) já são atrações que fazem a visita à região valer a pena.  Como se não bastasse, pelo menos três lojas ao redor da Madeleine reforçam essa crença: a Decathlon (loja de material esportivo incrível), a Fauchon e a Hédiard (mais que confeitarias, são boutiques de doces que dão banho nos melhores empórios da capital paulista).  Melhor visitar a região de estômago cheio para minimizar a tentação, sob pena de sofrer um grave prejuízo e alimentar seu corpo com muitas calorias a mais.  Aproveite a passagem para conhecer ainda outras lojinhas do mesmo gênero, como a Maison du Miel e a Maison de la Truffe.

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4 Comments

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  1. Simplesmente delicioso o post! E do jeito que vc descreve, parece que é ali, no Centro do Rio, rsrsrs

    Paris tem ainda uma série de outros cantinhos irados como esses. Não é muito diferente do Rio.

  2. Fiz praticamente o mesmo que vocês: no caso, aluguei um carro em uma grande metrópole e segui viagem para outra cidade. A metrópole em questão era Nova Iorque, rumo a Boston, e o trânsito da Big Apple estava simplesmente horrível… como de costume.

    Fora isso, muito bom o seu post, como de costume.

    Valeu. Não cometamos esses erros novamente.

  3. Super em tempo a minha leitura desse post, muito legal suas sugestões!

    Anote tudo e depois conte como foi.

  4. “Dirigindo em Paris”, sem fazer nenhuma “Meeeeerrrrr…”!! E saudade dessa cariocada!

    Como eu não fiz nada de errado, vou entender esse comentário como um elogio.

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