Roma: a cidade das igrejas

Basílica de San Paolo fuori le Mura
Estátua de São Paulo na Basílica construída sobre seu túmulo

Roma é uma cidade com exigências bem claras para quem a visita.  A cidade é, sim, apaixonante, mas não cativa todos os gostos.  Apaixonar-se por Roma requer uma predisposição por alguns interesses até certo ponto óbvios: história, arte (religiosa, principalmente), caminhadas e religião – católica, obviamente.  Roma é o berço do catolicismo, foi lá que Pedro e Paulo morreram e foram enterrados (sobre seus túmulos, dois dos maiores e mais importantes templos católicos foram construídos) – e a devoção a esses dois santos é espantosa.  O catolicismo moderno empresta a esses dois santos uma importância acima de todos os outros e abaixo apenas da representação carnal de seu próprio Deus na Terra.  Mal comparando, fossem santos portadores de títulos de nobreza celeste, eles seriam os arquiduques da parada.  É algo justo, pela posição que ocuparam e pelo papel que tiveram na história da Igreja, mas não é sobre eles que este post vai falar.

Por ser o berço do catolicismo, e porque a cidade teve nas regras da Igreja as suas próprias regras durante quase toda história do mundo ocidental – após a queda do Império Romano, o Papa foi chefe de Estado dos Estados Pontifícios que tinham, em Roma, sua sede, situação que durou até meados do século XIX – nenhum prédio é tão comum em Roma quanto as igrejas.  Elas pululucam por todos os lados, uma em frente à outra, uma ao lado da outra, até uma em cima da outra…  Tem igreja com cara e jeitão de igreja, tem prédio antigo convertido em igreja, capelinha dentro de prédio público, templo pagão convertido em igreja, enfim: qualquer coisa serve para abrigar uma igreja, em Roma.

Por toda essa questão histórica, é natural que a religiosidade em Roma atinja níveis extremamente elevados, mesmo nos dias de hoje (maior até do que em Madri).  Embora o catolicismo não seja unanimidade em Roma  – como provavelmente nunca foi em lugar nenhum do mundo -, pode-se sentir a sua presença em todas as ruas e esquinas da cidade.  Não duvidaria se alguém me dissesse que Roma é a cidade com maior número de igrejas no planeta.  E não são apenas igrejas: são padres e missas também, a toda hora, em todo momento, em todo lugar.  Os quadro contendo os horários das missas e de confissões em qualquer igreja da Itália (e não apenas de Roma) é de dar inveja a qualquer pároco do Brasil e de outras partes do mundo.  Eles chegam a se dar o luxo de prever horários em que missas são celebradas e confissões são ouvidas em outras línguas, além do italiano, em determinados lugares de maior apelo turístico (ou não).  É um assombro, mesmo para pessoas viajadas e interessadas pelas coisas do catolicismo, como eu.

Por isso, visitar igrejas em Roma é algo inevitável.  Afirmo isso sem medo de errar.  É praticamente impossível ir a Roma e não adentrar em um templo católico sequer (o Coliseu, por exemplo, é uma igreja).  Eu, por uma propensão natural às coisas religiosas, por gostar de arte religiosa e por gostar particularmente de visitar igrejas, pude me refastelar em Roma.  E, apesar de ter visitado muitas delas, acredito que, para cada uma que eu entrei, passei na frente de cinco sem entrar e deixei de conhecer outras dez ou quinze (quiçá mais ainda).  Roma tem igrejas de todas as idades, estilos arquitetônicos, tamanhos…  É virtualmente impossível não achar uma sequer que caiba no seu gosto.

Por isso, exibo abaixo uma lista de algumas igrejas em Roma, na ordem em que eu as visitei.  Algumas delas são absolutamente imperdíveis, mesmo que você não goste de Roma, de religião, do catolicismo, de arte, de arquitetura, de história.

Igreja de São Cosme e São Damião
Igreja de São Cosme e São Damião

1. SS. Cosma e Damiano: a igreja dedicada aos dois irmãos gregos doutores e mártires da Igreja foi construída sobre as ruínas do Templo de Rômulo (note que duas colunas à direita da foto e os dois pedestais a ela simétricos do lado esquerdo testemunham o pouco que sobrou do templo romano original).  Essa prática – de construir igrejas sobre templos pagãos – era bastante comum na Antiguidade e uma parte considerável das igrejas de Roma tem essa origem em comum.  A visita a essa igreja se dá em duas fases: a primeira, quando se visita o Forum Romano, entrando pela porta que aparece na foto.  Essa visita leva à “igreja inferior” que hoje é utilizada como espaço para exposições temporárias do Forum Romano.  Do lado de fora do Forum Romano, outro acesso, pela Via dei Fori Imperiale, permite a entrada na “igreja superior” – essa sim, magnífica! -, após passar por um pequeno claustro.  Nela estão sepultados São Marcos (evangelista) e Santa Marcelina.  A importância desta basílica para a história da medicina não está relacionada apenas ao fato de os dois irmãos serem médicos e, por isso, os padroeiros dos médicos, cirurgiões, farmacêuticos e veterinários, mas também à tradição que diz que Claudius Galen em pessoa ministrou palestras na Biblioteca Pacis, localizada ali no Templo de Rômulo. Além disso, nessa “área médica” do Forum Romano, os médicos da antiga Roma faziam seus encontros.  A visita da igreja inferior não custa nada além da entrada do Forum Romano; a visita da igreja superior é gratuita e não demora nada, porque ambas as igrejas são pequenas.  Mais um motivo para se crer que não conhecê-las seria quase um pecado.

Vista lateral da Curia Julia, a partir da Basílica Aemilia
Vista lateral da Curia Julia, a partir da Basílica Aemilia

2. Sant’Adriano al Foro: é provável que nove em cada dez visitantes de Roma não façam a menor ideia de que este é o nome oficial do prédio que abriga essa igreja.  No entanto, é provável que nove em cada dez visitantes de Roma já tenham entrado ali.  Isso porque a Basílica de Sant’Adriano al Foro é, na verdade, o nome oficial da Curia Julia, o prédio que abrigava o Senado Romano, no Forum Romano, em priscas eras (o nome “al Foro” indica a sua localização).  Aliás, foi justamente por esse motivo que o prédio, construído em 44 a.C. e restaurado entre 284 e 305, foi uma das poucas edificações do Forum Romano que sobreviveram praticamente intactas até os dias de hoje (as outras foram os arcos monumentais) – todo o resto foi sucateado ao longo dos anos, após a Queda do Império Romano.  Seu interior é bastante simples, já que sua principal função original era servir como local de encontro para os senadores romanos.  Daí o fato de seu piso ser mais elevado junto às paredes que no centro, emprestando-lhe a forma aproximada de um anfiteatro onde podiam acomodar-se sentados cerca de 300 senadores.  A beleza do prédio original resistiu apenas no piso colorido e recortado que forma mosaicos.

Domo da Igreja de São Martinho e São Lucas
Domo da Igreja de São Martinho e São Lucas

3. SS. Martino e Lucca: foi quando eu entrei nessa igreja que eu tive o primeiro choque com a dose cavalar de catolicismo com que Roma convive todos os dias.  Sua cripta, com túmulos de vários santos, mostrou-me como algo tão raro no Brasil é tão comum e banal em Roma.  Ao lado do Forum Romano, entre o Arco de Sétimo Sévero e o Altare della Patria, de costas para a Via dei Fori Imperiale, uma igreja que já existia desde 625 foi reformada, a partir de 1635, por ninguém menos que Pietro da Cortona (um gênio da arquitetura romana que está sepultado abaixo de uma pedra branca situada logo na entrada da igreja), quando ele foi eleito presidente da Accademina di San Lucca, a qual abarcava todos os arquitetos, pintores e escultores de Roma desde a sua fundação, em 1577.  O resultado dessa reforma foi uma igreja onde os ornamentos (que existem e são belíssimos) perdem espaço para a perfeição arquitetônica.  A simetria, a adequada distrituição dos espaços, a amplitude e a imponência do domo (vejam a foto ao lado), a iluminação na medida certa, tudo ali parece perfeito.  Abaixo do piso principal, a cripta guarda os túmulos dos santos – por mim totalmente desconhecidos.

Cárcere Mamertino
Cárcere Mamertino

4. San Pietro in Carcere: são duas igrejas diferentes, uma sobre a outra.  A de cima se chama San Giuseppe dei Falegnami; a de baixo (situada abaixo, inclusive, do nível da rua) tem o nome de San Pietro in Carcere, embora seja conhecida pelos guias turísticos como Cárcere Mamertino.  O nome dela já diz do que se trata: o local onde São Pedro foi preso (o letreiro sobre a antiga entrada da igreja diz que São Paulo também ficou ali; no entanto, os estudos dão conta que ele, por ser cidadão romano, ficou em prisão domiciliar).  Construída para ser uma cisterna, por volta de 640-616 a.C., passou a ser utilizada para dispersar corpos de prisioneiros mortos após a construção de um ralo que a interligou à Cloaca Máxima (canal que drenou o imenso pântano que existia no local do autal Forum Romano e que, até hoje, fede a esgoto).  O ambiente ali, porém, não é fétido, mas úmido – muito úmido.  Tão úmido que é difícil imaginar como alguém conseguiria viver ali por muito tempo sem morrer vitimado por doenças respiratórias.  Apenas uma claraboia a liga à igreja superior – possivelmente o único meio de comunicação entre os prisioneiros e os seus algozes.  A visita começa numa porta lateral bem sinalizada (olhando de frente para a igreja, do lado esquerdo).  Ali, após pagar (7 euros por pessoa, um roubo!) e esperar a formação de um grupo, você desce as escadas até a igreja superior.  Dali, após uma breve explicação da guia, você desce até o Cárcere Mamertino.  Se você houver comprado o audioguide no início da visita (o que faz o preço subir para 11 euros), você continua vendo sei lá o que (é óbvio que eu não comprei o audioguide), talvez o restante da igreja superior.  Se não, você é posto dali para fora enquanto a guia continua a visita com o restante do grupo.  Só não entendi a razão para se ter uma guia e o audioguide juntos.  Não faz nenhum sentido.  A igreja, em si, não é dois metros maior do que mostra a foto ao lado.  Uma placa menciona as agruras do hóspede ilustre do lugar; uma coluna e uma pedra lapidar sustentadas por armações de ferro testemunham o que outrora foram peças de um altar onde cristãos primitivos e medievais veneraram a presença de Pedro ali.  No fim das contas, ficou a convicção de que a visita só vale a pena pelo sentido histórico-religioso que ela contém.

Igreja de Santa Maria in Aracoeli: o exterior pobre esconde uma igreja linda por dentro
Igreja de Santa Maria in Aracoeli: o exterior pobre esconde uma igreja linda por dentro

5. Santa Maria in Aracoeli: lá no alto do Monte Capitolino, mais alto até do que os Museus Capitolinos, ela marca o lugar onde, segundo a lenda, a Sibila Tiburtina profetizou a chegada de Cristo ao Imperador Augusto, pouco antes da morte dele. Augusto, por isso, dedicou ali um altar ao filho de Deus, o ara coeli, isto é, “altar do céu”.  Nela foi sepultada Santa Helena, mãe de Constantino, Imperador Romano que tirou da clandestinidade os cultos não oficiais do Império – inclusive o cristianismo.  Apesar de ser administrada por franciscanos desde o século XIII, ela tem um interior surpreedentemente bonito e rico, retratando o fato de ela ter sido, por séculos, a “igreja oficial” da administração da cidade.  As 22 colunas que sustentam a nave central foram todas pilhadas do Forum Romano – por isso, não há uma sequer idêntica à outra.  Uma capela perto da sacristia contém a estátua milagrosa do Santo Bambino, ou o Cristo Menino de Aracoeli, que uma lenda diz ter sido esculpida na madeira de uma árvore do Jardim das Oliveiras, em Jerusalém.  Como o original foi roubado em 1994, apenas uma réplica aparece ao público.  A visita é gratuita e a entrada pode ser feita tanto subindo a escadaria que parte da Piazza Venezia quanto por um portãozinho lateral que dá acesso ao Altare della Patria.  Por dentro, apesar da proibição de fotografar, todo mundo usa suas máquinas fotográficas livremente.  Eu, que no início havia guardado a minha câmera, saquei-a e usei bastante, sem ser chamado a atenção.  Só vale a pena perder a visita se não for possível subir escadas.

6. Santa Maria in Via: uma das muitas igrejinhas situadas no meio do caminho entre a Piazza Venezia e a Fontana di Trevi, sua fama e o principal motivo das suas visitas vêm da história que gerou a sua construção.  Na casa do cardeal Pietro Capocci, havia uma fonte nos estábulos. Na noite de 26 de setembro de 1256, a fonte transbordou.  Uma imagem de Nossa Senhora estava flutuando sobre as águas, que desapareceram logo que a imagem foi tirada. O Papa Alexandre IV declarou aquilo um milagre, e ordenou a construção de uma capela no local da fonte.  Nessa capela (a primeira à direita da igreja atual) ainda está a fonte do milagre.  Muitas pessoas vão ali para rezar, apenas.  Outras vão ali em busca da água milagrosa, distribuída em copos de plástico em troca de “donativos” por um sujeito que não parece ter muita fé no que faz – uma situação tão revoltante que eu me recusei a ter uma foto sequer desse lugar.

Basílica di San Giovanni in Laterano
Basílica di San Giovanni in Laterano

7. San Giovanni in Laterano: porque eu cresci ouvindo meu pai dizer que esta era a igreja mais bonita que ele já havia visto em toda sua vida (e olha que ele já viajou muito mais que eu), pela sua importância dentro da hierarquia das igrejas católicas (ela tem o título honorífico de Omnium Urbis et Orbis Ecclesiarum Mater et Caput, que significa “Mãe e Cabeça de todas as Igrejas de Roma e do Mundo”), e por saber que boa parte dos restauros feitos nela durante o barroco romano foram conduzidos por ninguém menos que Francesco Borromini, a minha expectativa por visitá-la era imensa.  Expectativas, aliás, que foram plenamente atendidas.  Não creio que ela seja a igreja mais bonita que eu já vi, mas certamente está entre as dez mais – mais bonita até que a Basílica de São Pedro, no Vaticano.  A fachada clássica, monumental, vertical (foto ao lado) introduz a um interior rico, grandioso – e barroco – onde chamam a atenção as enormes estátuas dos doze apóstolos nas doze colunas da nave central (procure a sua preferida), feitas por vários artistas diferentes, o baldaquino e o teto em caixotões feito por Borromini (sua boca se abrirá naturalmente ao admirá-los). O museu, cujo acesso se dá por uma porta na nave esquerda próximo ao transepto, não vale a pena ser visitado.  Tem poucos objetos em exibição e nenhum deles vale o tempo que se perde lá dentro.  Não cheguei a ver o batistério (onde o Imperador Constantino foi batizado), cujo acesso se dá através de um portão de automóveis que existe após o obelisco, contornando a igreja pela direita de quem olha para ela de frente.  Visita gratuita (exceto o museu, que custa 3 euros por pessoa) e, definitivamente, obrigatória em Roma.

Igreja de Santa Maria sopra Minerva
Igreja de Santa Maria sopra Minerva

8. Santa Maria sopra Minerva: construída no lugar onde antes se localizava um Templo dedicado à deusa egípcia Ísis (confundida pelos romanos com a deusa Minerva – daí o seu nome), ela é a única igreja em estilo gótico de Roma.  É uma basílica menor, a mais importante igreja da Ordem dos Dominicanos na cidade, onde estão sepultados dois filhos ilustres da ordem: Santa Catarina de Sena (exceto sua cabeça, que está na igreja de San Domenico, em Siena) e Fra Angelico.  Mas nada ali me atrairia mais do que saber que foi no seu interior que Galileu Galilei, após ser julgado por heresia no monastério anexo à igreja, abjurou suas teses científicas, em 22 de junho de 1633.  Do lado de fora, a fachada é tão simples que ela nem parece uma igreja.  Também do lado de fora, na praça à sua frente, o Pulcino della Minerva (um obelisco erguido por Bernini sobre as costas de um pequeno elefante de pedra) chama a atenção de quem passa – mais do que a fachada da igreja.  Por dentro, chamam a atenção os detalhes dourados; o teto azul brilhante, bonito como o mar em alto mar; o Cristo carregando a Cruz, de Michelangelo (à esquerda do altar-mor) e os túmulos de quatro papas: Leão X, Clemente VII, Paulo IV e Urbano VII.  A visita é gratuita e vale mais a pena por ficar no pertinho da Piazza Navona e outros centros turísticos do que pelo que ela tem a oferecer ao turista.

    A estátua de Bernini parece se defender da queda iminente da fachada feita por Borromini
A estátua de Bernini parece se defender da queda iminente da fachada feita por Borromini

9. Sant’Agnese in Angone: uma igreja projetada e construída inteiramente sob as ordens e a maestria de Francesco Borromini – essas são as credenciais dessa igreja, suficientes para tornar sua visita indispensável.  Como se não bastasse, ela ainda fica numa das principais, mais famosas e bonitas praças da cidade: a Piazza Navona.  Como se não bastasse, ela ainda é protagonista, até hoje, de uma das maiores lendas urbanas de Roma: a materialização da briga entre Francesco Borromini e Gianlorenzo Bernini – os dois maiores mestres do barroco italiano, inimigos e rivais, os responsáveis pela reconstrução de Roma durante o século XVII.  Observe a foto ao lado: ela mostra uma das estátuas da Fontana dei Quattro Fiume (Fonte dos Quatro Rios), construída por Bernini, em uma posição na qual parece se proteger contra a queda iminente da fachada da igreja à sua frente, construída por Borromini.  Seria uma tirada sarcástica de Bernini?  Reza a lenda que sim, mas isso parece ser apenas uma lenda, já que a fonte foi concluída alguns anos antes de Borromini começar a trabalhar na igreja.  Sobre a igreja em si, acho suficiente dizer que meus registros de viagem se limitaram às seguintes palavras: “Santa Agnese in Angona é muito maneira – o Borromini era mesmo muito foda.” [sic].  Para uma igreja construída num lugar onde não havia espaço suficiente para que ela fosse construída à maneira tradicional, o trabalho e a genialidade de Borromini foram fundamentais: a igreja é mais larga que comprida mas, ainda assim, aconchegante e harmônica.  Sua fachada recuada não invade a praça nem compromete o espaço interior.  Dentro dela não é permitido fotografar e, apesar do infindável entra-e-sai de turistas, ela mantém um ar reflexivo próprio das casas de oração.  Não perca, até porque você já vai estar ali na praça mesmo: basta entrar e conferir.

Panteão, Santa Maria della Rotonda, Santa Maria ad Martyres...  Escolha o seu nome!
Panteão, Santa Maria della Rotonda, Santa Maria ad Martyres… Escolha o seu nome!

10. Santa Maria della Rotonda: esse é o apelido mais formal dessa igreja que atende pelo nome oficial de Santa Maria ad Martyres mas é conhecida, no mundo todo, como Panteão de Agrippa.  Por ser usada como igreja desde o século VII, ela é um dos prédios romanos melhor preservado – senão o melhor preservado – do mundo: seu corpo principal tem formato circular e se situa atrás de um frontão aberto na rotunda, coberto por um domo de caixotões, com uma abertura circular central (o “oculus”).  Quase dois mil anos após sua construção, este domo ainda é a maior estrutura feita de concreto não armado do mundo. A altura do oculus ao chão e o diâmetro do círculo são idênticos: 43,3 metros.  No seu interior, paredes revestidas de granito abrigam os túmulos de dois reis da Itália: Victorio Emanuelle II e Umberto I – guardados por organizações monarquistas até hoje, dia e noite.  Esses túmulos, embora grandiosos, quase não chamam a atenção no interior da igreja, pois perdem a audiência para um rival quase imbatível: Raffaello Sanzio, cujo túmulo está ali à vista de todos.  A visita é tão concorrida que chega a ser difícil circular na sua entrada e, de certo modo, também dentro dela igreja.  Por tudo isso, sua visita é obrigatória, absolutamente imperdível.  Aos domingos (não lembro se isso também vale para os outros dias da semana), às 11h e às 18h há missa no seu interior e, durante a missa, é proibido visitar o prédio por dentro.  Erre – ou acerte – esses horários.

Basílica de Santa Maria Maggiore
Basílica de Santa Maria Maggiore

11. Santa Maria Maggiore: ela é a basílica papal mais central da cidade (as outras três são a Basílica de São Pedro, no Vaticano, a Basílica de São Paulo Extramuros e a Basílica de São João do Latrão), e também é conhecida pelo apelido “Basílica Liberiana”, porque teve como patrono o Papa Libério.  A lenda de sua construção é mais ou menos assim: durante o auge do verão em Roma, no ano de 358, um casal foi visitado pela Virgem Maria durante seu sono. Ela lhes pediu que construísse uma igreja em sua honra usando suas economias, já que não possuíam filhos nem herdeiros. O local onde a igreja deveria ser construída, segundo a Virgem, seria revelado com uma nevasca – mesmo no calor de agosto. O casal contou o ocorrido ao Papa Libério – que havia tido um sonho idêntico, para sua surpresa. No dia seguinte, nevou no topo do Monte Esquilino e o Papa mandou iniciar a construção da basílica com os fundos doados pelo casal. Por isso, a festa de Nossa Senhora das Neves é celebrada anualmente até hoje, em 5 de agosto.  Seu nome reflete duas idéias: a de grandeza (é a maior igreja de Roma dedicada à Virgem Maria) e do fato de ser uma basílica papal (ou uma basílica maior). Ela abriga a mais antiga imagem mariana da cidade, chamada Salus Populi Romani, que se diz ter sido pintada por São Lucas usando uma mesa de madeira que teria pertencido à Sagrada Família de Nazaré. Testes de carbono 14 realizados na imagem atestam que ela  tem cerca de 2000 anos de idade, reforçando a crença.  Ela está na Capela Borghese, onde não é possível adentrar para fazer turismo, mas que pode ser espiada a partir da nave central.  Por fora, é possível olhar para o prédio e não suspeitar que é uma igreja, mas um palácio (ela, de fato, serviu como palácio papal por muitos anos após o retorno do Cativeiro de Avignon).  Não fosse o campanário ascendendo sobre o telhado no meio do prédio, essa falsa impressão seria ainda mais evidente.  Antes de entrar, é necessário passar por uma multidão de pedintes e cobrir o corpo (apenas para quem está vestido com short ou camisetas sem manga; eu estava de bermuda até o joelho e assim fiquei, sem problemas) com um pedaço de pano distribuído gratuitamente ali mesmo.  Muita gente oferece um donativo em troca do “aluguel” da “roupa”, mas não existe nenhum tipo de constrangimento ou incentivo a que se faça isso.  Por dentro, a amplitude dos espaços é gigantesca e suntuosa.  O teto em caixotões (diz-se que o ouro do teto é de origem inca e foi trazido por Cristóvão Colombo à Espanha e depois doada ao Papa Alexandre VI, lenda essa que não tem nenhum respaldo já que a descoberta do ouro inca foi feita muito tempo após a morte de Colombo) impressiona e rouba a atenção de quem entra.  Capelas laterais magníficas parecem mais uma galeria de contemplação à arte do que propriamente um lugar de contemplação divina.  Enquanto estive ali, pensei que, se eu morasse em Roma, não conseguiria me concentrar nas missas – teria minha atenção roubada para as igrejas e suas obras de arte.  Os mosaicos das paredes de cima da nave central, que contam histórias do Velho Testamento, são deslumbrantes, os monumentos funerários papais também (ali estão enterrados Clemente IX e Nicolau IV, pelo menos) e o seu ponto alto é a Cripta da Natividade, abaixo do altar principal – onde Santo Inácio de Loyola celebrou sua primeira missa e onde Gianlorenzo Bernini e São Jerônimo, dentre outros, estão enterrados junto com outros católicos proeminentes, incluindo alguns papas.  Uma placa do lado direito do altar marca o local do sepultamento de Bernini.  A visita à Basílica é absolutamente imperdível.  O museu, cujo acesso é feito por uma entrada à direita da nave, mal sinalizada, é rápido de ser visto e bastante interessante, mas tenho dúvida se vale os 4 euros do ingresso.

Santa Maria del Popolo
Santa Maria del Popolo

12. Santa Maria del Popolo: depois de ver tantas igrejas muito bonitas em Roma, visitar Santa Maria del Popolo não causou grandes comoções.  A igreja é lindinha – assim no diminutivo mesmo, tanto porque ela é razoavelmente pequena, se comparada às gigantescas basílicas da cidade como por ser bonita sem ostentar isso, tanto na fachada sóbria quanto no interior austero, sob o ponto de vista arquitetônico.  Seu domo é o mais antigo da cidade.  Ela tem obras de arte incríveis (quase sempre telas renascentistas, como as de Caravaggio e Pinturicchio), que fazem a visita valer a pena.  A praça que lhe empresta o nome (Piazza del Popolo), onde ela está acanhadamente localizada, é igualmente bonita.  Na verdade, porém, duas histórias acerca dessa igreja são mais interessantes que ela própria: a da sua construção e a de um hóspede ilustre.  Ela foi erigida no século XI no local onde Nero morreu e foi sepultado, e sua alma danada, segundo a lenda medieval, habitaria o tronco de uma nogueira plantada no local. A árvore foi mandada derrubar em 1099 por ordem do papa Pascoal II: foi queimada e as cinzas jogadas no rio Tibre.  O papa mandou construir uma capela em honra da Virgem Maria naquele mesmo local. Gregório IX (papa de 1227 a 1241) mandou em 1227 substituir a capela pela atual igreja para o povo – “popolo”, em italiano.  Muito tempo depois, em 1512, um padre alemão peregrinou a Roma – uma viagem que mudaria sua vida e a de muita gente – e se hospedou no monastério da Ordem dos Agostinianos, que administra a igreja até hoje.  Seu nome: Martinho Lutero.

Basílica de San Paolo fuori le Mura: a mais bonita de Roma
Basílica de San Paolo fuori le Mura: a mais bonita de Roma

13. San Paolo fuori le mura: fora dos meus planos iniciais, fiquei muito feliz de conseguir tê-la incluído no meu roteiro quando já estava em Roma.  São Paulo Extramuros (seu nome em português) está localizada na Via Ostiense, longe do centro de Roma, mas tem acesso facílimo a partir da estação de metrô a ela homônima.  Foi construída sobre o local onde São Paulo foi enterrado e é, simplesmente, monumental.  Na minha opinião, foi a igreja mais bonita que eu vi nesta viagem, e uma das cinco mais bonitas que eu já vi na vida.  Tão bonita que faltam palavras para descrevê-la.  O piso, as portas, o teto, as capelas laterais, o baldaquino…  Tudo ali é incrivelmente bonito e feito com bom gosto, harmônico e transcendente, grande sem ser desengonçado nem desproporcional, um verdadeiro espetáculo.  Chamam especialmente a atenção o mosaico da abside e os bustos desenhados com mosaico ao redor da parte superior das paredes laterais de toda a igreja, com os rostos de todos os papas, desde São Pedro até Bento XVI – o único mosaico iluminado artificialmente de toda igreja.*  Curioso é que só faltam seis ou sete brasões em branco para serem preenchidos com mosaicos antes de fechar toda a igreja.  Sinal do fim dos tempos?  Os supersticiosos afirmariam que sim, eu duvido.  Na cripta, que pode ser acessada a partir de uma escada próxima ao altar, na nave central, a corrente que teria prendido São Paulo está em exposição.  Também ali, envelopes estão disponíveis (canetas também) para que os visitantes registrem suas intenções para missas celebradas diariamente na igreja.  Não é necessário realizar donativo por meio do envelope, mas o envelope adverte que, caso se deseje a realização de missa exclusiva para aquela intenção, seria de bom tom “rechear o envelope”.  Como se não bastasse toda a sua estúpida monumentalidade, ela ainda conta com uma incrível recepção de apoio ao peregrino, profissional como poucas eu já vi na vida: banheiro gratuito, lojinha (lojona, na verdade) ampla, variada, com preços honestos, snack bar…  Tem até um Mc Donald’s no caminho entre o metrô e a entrada da igreja.  Indiscutivelmente imperdível!

Basílica di San Clemente: mais que uma igreja
Basílica di San Clemente: mais que uma simples igreja

14. San Clemente: não encare essa igreja como uma igreja, quando visitá-la, mas como uma aula de história e arqueologia.  Na verdade, não se trata de uma igreja: são duas igrejas e um templo pagão situados na mesma área, um sobre o outro.  O que se vê acima do nível do chão é a basílica atual, construída por volta de 1100.  É bonita, é antiga, é simples, mas é só mais uma igreja.  Abaixo dela, escavações arqueológicas revelaram a existência de uma basílica anterior (primeiro subsolo) e de um templo pagão (segundo subsolo), que podem ser inteiramente percorridos ao preço de 5 euros.  Dentro da igreja é proibido tirar fotos e nos subsolos também.  Embora ninguém fique olhando, e por isso vi algumas pessoas sacarem suas máquinas fotográficas e fazerem alguns registros, escondidos ou nem tanto, uma mensagem soa toda hora no alto falante chamando a atenção das pessoas.  É meio constrangedor.  No fim, fica a sensação de que a esticadinha a partir do Coliseu (que fica ali pertinho) vale a pena.  E atenção: as pessoas pedindo dinheiro nas portas não estão cobrando ingresso, ao contrário do que elas pretendem fazer crer.  Entre na igreja superior sem pagar nada a elas.

Se você sentiu falta de alguma coisa, não se espante: haverá um post específico sobre o Vaticano nesta série.  Aguarde.

* Ao tempo que a visita foi feita e este post foi escrito, Bento XVI era o Papa da Igreja Católica.

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5 Comments

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  1. Com essa viagem garanti meu terreninho no céu!

    Que nada! Ainda temos que voltar lá para ver várias outras igrejas que não vimos nesta viagem.

  2. Vem cá, gestante já tá em casa né, pra aparecer por aqui com essa relativa frequência…mas que bom, espero q ela pegue gosto pela coisa nos próximos 5 meses, rs

    Pior é que não. Ainda tá trabalhando…

  3. E só vai sair dia 12/12 quando Felícia chegar??? rsrs
    Ma isso é um ótimo sinal, de gravidez tranquila e mãe forte!

    12/12 é o seu palpite… O meu é uma semana depois.

  4. De todas as igrejas que eu visitei em Roma, Capela Sistina á parte, San Clemente é, de longe, a mais sensacional e surpreendente.

    Capela Sistina é no post do Vaticano. Calma!

  5. Belo post, rico em informações. Realmente uma visita a Roma requer visitas a algumas de suas igrejas. Mas você listou muitas delas. Fica difícil visitar todas. Principalmente acompanhado de uma criança. Tem sugestões?

    Veja o que der. Sempre vão faltar algumas para ver.

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