Pragas suburbanas – fogos de artifício

Clique na imagem para ver seu site de origemTodo dia é a mesma coisa: em algum lugar do subúrbio, sem nenhum motivo aparente, a qualquer hora do dia ou da noite, ouve-se o estrondo de um morteiro ou de outro tipo de fogos de artifício a pipocar.  A troco de nada: não é revéillon, não é dia de final de campeonato, não é nada!  Suburbano adora um barulho, adora uma confusão, adora incomodar e, para isso, solta fogos de artifício a troco de nada, a torto e a direito.  Quem mora do subúrbio nunca estará livre dessa praga.

É dia de celebrar a festa de um santo famoso: um Santo Antônio, um São João, um São Jorge, um São Sebastião…  A igreja e os devotos se encarregam de acordar a vizinhança com uma “Alvorada Festiva” – uma espécie de alarme público, com uma certa dose de sarcasmo no nome, que joga por água abaixo todas as chances de alguém permanecer embalado pelo sono além da hora em que os fogos pipocam nos céus do subúrio, o que sempre acontece extremamente cedo.  E os santos competem entre si: quem faz a alvorada mais cedo?  Alguns têm suas alvoradas às 6h, outros às 5:30h, outros às 5h…  Depende do padre e do santo, eu acho.  Deve haver alguma glória opaca em atrapalhar o sono alheio o mais cedo possível.

Mas os fogos religiosos não param por aí: no fim da quermesse em honra ao santo padroeiro, toda paróquia do subúrbio promove a sua própria “queima de fogos” – e de recursos doados pelos fiéis – sem a menor preocupação com segurança.  O santo celebrado, ou outro santo amigo, há de proteger a todos e abençoar a festa.

E nas procissões?  Fogos de artifício acompanham carros de som barulhentos que amplificam o poder antiauditivo de rezas e cantos desafinados, reforçando o anúncio da passagem da procissão – como se precisasse – e acordando doentes, idosos, bebês, sem se importar muito com o seu estado de saúde nem com a tranquilidade alheia.

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Nem sempre dá tudo certo...

Apesar de tudo isso, as igrejas são as menores responsáveis pela balbúrdia pirotécnica suburbana carioca.  Há outros atores piores desse teatro de horrores da periferia.  Mais que elas, os baloeiros cariocas sempre capricharam nas cangalhas de seus balões para fazer espetáculos ao mesmo tempo bonitos e perigosos.  Quilos e mais quilos de fogos de artifício são amarrados aos balões para estourarem – quando tudo dá certo, o que nem sempre acontece – nos céus suburbanos cariocas.  O espetáculo faz barulho, muito barulho e, quando feito durante a noite – o que não é regra, acreditem! – proporciona até um visual bonito.

Mas, como eu disse, nem sempre os balões sobem à noite.  Aliás, é extremamente comum que eles sejam soltos pela manhã bem cedo, especialmente em finais de semana compreendidos entre o dia das mães e o dia dos pais.  É como se todo final de semana entre essas duas datas fosse dia de comemorar algum santo: desde algumas horas após o anoitecer até de manhã cedo, a toda hora se ouve barulho de fogos de artifício em algum canto (ou, pior, em todos os cantos) do subúrbio.  Quem tem problemas para dormir, deve adorar…  Quem mora próximo a locais onde habitualmente os baloeiros se juntam para encher e soltar seus balões (um processo lento e difícil de se ocultar, devido às proporções enormes dos balões)…

E, para quem acha que é só isso, aviso que está redondamente enganado.  O carioca suburbano é um ser alegre por natureza.  Independente do seu estado de indigência cidadã, completamente abandonado pelos serviços públicos, ao menor sinal de alegria – genuína ou oriunda de um porre tomado em um podrão – ele corre para a rua e ergue o braço segurando um morteiro e risca o fósforo, só para dividir com toda a vizinhança a sua felicidade.

Se é gol do seu time de futebol, ele solta fogos; se é gol do time que está jogando contra o time do vizinho, ele solta fogos.  Se a filha passou no vestibular, ele solta fogos; se ela terminou com o namorado, também.  Quando compra um carro novo, ele solta fogos; e faz o mesmo quando a mulher faz aniversário, quando chega a geladeira nova, quando consegue um aumento no trabalho, quando o cachorro faz cocô no lugar certo, quando morre a sogra…  Qualquer coisa minimamente alegre é motivo para comemoração – com fogos!  Por isso é que, do nada, a qualquer hora do dia ou da noite, é possível ouvir o estrondo de um morteiro em qualquer lugar do subúrbio.

Mesmo no fim do ano, os fogos de artifício não se furtam a reafirmar a fama de praga suburbana.  Como parte das celebrações genuínas do morador do subúrbio carioca (agravadas pelo porre), os fogos pipocam nos céus desde a véspera do natal até a tarde do dia 1º de janeiro.  É um espetáculo de disperdício de dinheiro, tempo e pólvora.  Os piores dias são os dias 24 e 31 de dezembro, quando não se passa cinco minutos ininterruptos sem ouvir um estrondo de morteiro – em qualquer lugar do subúrbio, por mais remoto que seja.  Não seria melhor guardar os fogos para a hora própria (a meia noite do dia 1º de janeiro)?

O hábito de soltar fogos de artifício também se presta a outras funções pouco ortodoxas: avisar a chegada do carregamento de drogas à favela (o que pode, tecnicamente, ser encarado como uma genuína comemoração suburbana) ou da chegada da polícia ou da facção rival para um confronto com os traficantes da favela.  Substituindo os velhos e lendários sinais de fumaça, os fogos de artifício superam até mesmo as novas tecnologias de comunicação à distância nos quesitos eficiência e rapidez, já que não dependem de sinal, não sofrem grampos, interferências e não dão ocupado.  São linha direta entre o olheiro da favela e o dono do morro, sem atravessadores, sem telefone-sem-fio.  Uma praga suburbana multifacetária.

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4 Comments

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  1. Cara, dá pra sentir sua revolta com o post! Lavou a minha alma!

    Me fez bem também.

  2. Ai se me deixassem escolher o lugar de soltar o rojão…ia começar com o padre!

    Coitado do padre…

  3. Pelo visto você deve comemorar quando vez por outra uma fábrica (clandestina) de fogos de artifício explode por aí, certo? Comemoração esta munida, como não podia deixar de ser, com fogos de artifício…

    Essas coisas não resolvem o problema. Nem atrapalham. O mercado dá seu jeito de reabastecer os consumidores.

  4. Cara, perfeito, só que com um adendo…
    Não é somente uma praga suburbana, é uma praga que nasce e se alastra onde se reúnem pobres e favelados!
    Isso é fato, infelizmente teremos que conviver com esse estúpido hábito, haja vista que o Rio é uma imensa favela e nossas “toridades” nada fazem a respeito.
    Abraço

    Menos, Jorge. Menos.
    A prática é odiosa mas nem todas as pessoas o são.

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