O que ver e fazer em Siena

Torre del Mangia
Torre del Mangia

Siena é uma cidade razoavelmente grande para tanta história.  O resultado desse tamanho é diretamente proporcional à quantidade de ladeiras que ela possui – e, com as ladeiras, vêm também as escadarias.  Por seu tamanho e seu relevo acidentado, pela quantidade de turistas que a visitam diariamente e pela quantidade de coisas para se ver, e ainda por causa da enorme dificuldade de se andar por suas ruas estreitas e mal arrumadas (é tão difícil orientar-se ali que eu, que tenho um ótimo senso de orientação, me perdi!), por tudo isso, Siena merece respeito, cautela, planejamento e muita estratégia por parte do turista que a pretende visitar.

Primeiro, é necessário traçar uma boa estratégia de chegada à cidade.  Se de trem, saiba que a caminhada da estação até a Piazza del Campo é longa e em subida.  O Google Maps está aí para não me deixar mentir.  Há transporte público disponível para parte do trecho (a parte mais crítica da subida, para dizer a verdade), mas nenhuma das opções vai deixar o turista realmente perto da Piazza del Campo – o que pode ser bom, por propiciar uma primeira caminhada na cidade, ou ruim, por não atender integralmente às expectativas do viajante.  Nem pense em usar outro meio de transporte (carro, táxi, bicicleta…) no centro histórico de Siena.  Além de ser uma ZTL para lá de rigorosa, é muito difícil andar ali com qualquer veículo motorizado, tanto por causa do labirinto de ruas da cidade quanto por causa da infindável quantidade de gente que circula a pé por ali.  Esforços não faltam para torná-la uma cidade acessível, mas Siena não é, por sua natureza, uma cidade muito amistosa com pessoas com dificuldade de locomoção.

Ir de carro para Siena também não é tarefa das mais fáceis – muito menos baratas – mas Siena tem se esforçado para apresentar lá suas vantagens para quem decide percorrer a Toscana no seu automóvel.  A rodovia que vai de Florença a Siena é uma das raras da Itália que não têm pedágio.  Já em Siena, a cidade construiu uma série de estacionamentos (com preços situados entre o honesto e o salgado, tendo por base a realidade europeia) próximos aos limites da ZTL.  Ali, turistas e cidadãos podem estacionar seus veículos para atacar a cidade como melhor lhes aprouver.  Não é difícil achá-los, já que inúmeras placas brancas com aquele “P” azul (ou seria um “P” branco em um fundo azul?) enorme indicam o caminho para os estacionamentos desde a saída da rodovia.  O importante notar é que, sempre ao lado do tal “P”, nas placas, existe um nome – o nome do estacionamento, normalmente batizado em função do ponto turístico mais próximo dele.  Algumas placas informam até se o estacionamento está lotado ou tem vagas, em tempo real.  Antes de ir a Siena, gaste uns dois minutos examinando o Google Maps para ver qual é o estacionamento que melhor atende à sua programação na cidade.  Vale a pena.

Fontebranda
Fontebranda

Eu escolhi o estacionamento da Porta Fontanebranda (ou Fontebranda, não lembro ao certo).  Pelos seguintes motivos: era o mais próximo da Piazza del Campo, pelo que eu pude perceber; tem escadas rolantes que poupavam boa parte da subida para o centro da cidade; tem ponto de ônibus na porta ligando direto à Piazza Independencia (o ponto de ônibus mais próximo da Piazza del Campo); e o seu acesso podia me conduzir a dois lugares (à Piazza del Campo e ao Santuário di Santa Caterina).  Esse último fator me permitiria dar uma volta pela cidade sem passar necessariamente pelos mesmos caminhos, poupando preciosos passos em ladeiras (o que era crítico para a Fiona, grávida).  A minha estratégia era, então, tentar chegar com alguma ajuda mecânica (as escadas rolantes ou o ônibus) ao ponto mais alto possível da cidade e visitar o que estivesse num trajeto o mais descendente possível, até chegar no carro novamente.  Consegui.

Subindo as escadas rolantes (não tem jeito, entre o estacionamento e o início das escadas tem uma ladeirinha para subir, mas bem curtinha), chega-se à esquina da Via del Costone com a Via di Vallepiatta.  Ainda não é o ponto mais alto do percurso, mas é o que dá para conseguir com a escada rolante.  Saindo da escada, virei à esquerda, seguindo a indicação das placas, em direção ao Duomo – uma subida leve até a porta do batistério, seguida de uma escadaria que permite chegar à Piazza del Duomo.  Praticamente em todas as esquinas há placas indicando o caminho para o Duomo e para a Piazza del Campo.

Batistério
Batistério

É altamente recomendável a visita ao batistério – melhor dizer logo que é imperdível -, tão bonito que ele é.  O problema é que a maioria dos turistas que visitam a cidade está inserido em excursões diurnas vindas de Florença.  Os guias dessas excursões não orientam descer a escadaria ao lado do Duomo (olhando de frente para a fachada da igreja, do lado direito, próximo à bilheteria) para ver o batistério.  Deixei a Fiona lá embaixo, subi, comprei o ingresso e desci para vermos o batistério.  Ele é repleto de obras de arte renascentistas, de diversos autores.  Uma verdadeira mostra do que cada um era capaz de fazer.  O destaque fica por conta dos afrescos lindíssimos que ornam as paredes daquele espaço aconchegante, todos relativos à vida de São João Batista.

Sobre a visita ao Duomo, é possível comprar um único ingresso que permite ver todas as atrações do Duomo: a igreja em si, o batistério, a cripta, o oratório e o museu.  O batistério é ótimo, a igreja é incrível, o museu é bom, a cripta é fraca (não perca seu tempo indo lá!) e eu optei por não ir ao oratório.

Vista do Mirante do Duomo
Vista do Mirante do Duomo

Depois da visita ao batistério, era a vez de visitar o museu, cuja entrada fica ao lado da bilheteria, fora da igreja.  É uma visita bem legal, pois ele abriga várias obras de arte sacras.  Não é grande, é muito verticalizado, repleto de escadas para subir – tantas que, num momento, pensei ter perdido alguma parte do museu entre os lances de escada.  Subindo sempre, e muito, chega-se ao terraço do que seria a extensão da Catedral – uma obra de ampliação interrompida pela Peste Negra em 1348 e jamais terminada devido à constatação de erros básicos de engenharia.  Dessa obra restou apenas uma enorme parede da ex-futura nave central da igreja.  É difícil subir as escadas, tão apertadas que são.  Quando um sobe, quem desce tem que voltar para o terraço e esperar a vez para descer.  Foi difícil negociar essas passagens.  Mas tudo vale a pena.  Lá do terraço, tem-se uma bela vista da cidade e do próprio Duomo – possivelmente a vista aérea mais bonita da cidade.

A Catedral em si é espetacular, diferente de tudo o que eu já havia visto na vida, em termos de igreja.  A fachada em listras horizontais (o interior também), o formato do pórtico, a suntosidade e a singularidade do piso (repleto de desenhos e símbolos em forma de mosaico, geralmente de histórias bíblicas), as obras de arte…  Para preservar esses mosaicos, e para que todos possam vê-los por inteiro, eles são permanentemente isolados por cordas.  Os visitantes só podem circular por entre eles, contornando as cordas – o que é muito bom.  Imagine a confusão que seria se todos pudessem pisá-los ou aglomerar-se em cima deles?  Ninguém os veria, ninguém poderia contemplá-los.

Duomo di Siena
Biblioteca Picolomea

Como se não bastasse tudo isso, as imagens dos altares laterais são também estonteantes.  As capelas adjacentes não ficam atrás, com destaque para as capelas São João Batista e Chigi.  Outro destaque da Catedral é a imagem da Madonna del Voto (a quem a cidade teria sido consagrada na véspera de um ataque de Florença, em 1260, repelido com sucesso pelas forças numericamente bem inferiores de Siena) – que todos os anos recebe as homenagens da contrada vencedora do Palio.  E, para embelezar ainda mais a igreja, o visitante ainda é brindado com a exuberante vista da Biblioteca Picolomea, que pode ser acessada por uma porta na lateral da nave central.  A imagem ao lado vale mais do que qualquer palavra que eu escreva aqui para descrevê-la.

Em frente ao Duomo fica o Museu de Santa Maria della Scala, um antigo hospital transformado em museu.  O núcleo do hospital é a antiga igreja de Santa Maria Annunziata, do século XIII, remodelada no século XV, quando ganhou a aparência atual.  O hospital abriga um museu arqueológico.  Não o visitei.  Preferi me dirigir (e me perder no caminho) até a Piazza del Campo.

Piazza del Campo
Piazza del Campo

A Piazza é linda.  Seu formato assimétrico foi o que mais me fascinou.  A inclinação exagerada me impressionou.  O calçamento com tijolos vermelhos é de 1349 e segue um padrão de espinha de peixe, com dez linhas de traventino, que dividem a praça em nove partes, desde a Boca de Gavinone (ralo central), em frente ao Palazzo Pubblico, até as bordas da praça.  O número de divisões são uma referência simbólica ao Conselho Noveschi (Nove, em italiano), que pavimentou a Piazza e governou Siena durante o seu esplendor medieval, entre 1292 e 1355.  Da Piazza, onze ruas apertadas conduzem ao restante da cidade.  Num dos lados da praça está a Fonte Gaia, construída em 1419, como ponto final de um sistema de adução de água para o centro da cidade, substituindo uma fonte anterior.  A fonte tem forma retangular e é adornada em três lados com muitos baixo-relevos da Madonna cercada pelas virtudes cristãs clássicas.

Piazza del Campo e o Palazzo Pubblico
Piazza del Campo e o Palazzo Pubblico

Muita gente chega na praça e senta, na sombra ou no sol (geralmente preferem a sombra) para deixar o tempo passar, comer um sorvete e aproveitar o melhor visual da cidade.  Foi ali que, seguindo a indicação de uma pessoa conhecida, eu finalmente achei o sorvete sabor soup inglese.  Em nenhum outro lugar encontrei esse sabor – e olha que eu procurei…  Por ser tão raro e por ter sido tão indicado, eu esperava que fosse algo realmente demais.  Não foi.  Foi só um sabor diferente, mas normalzinho.  Vale a pena experimentar para matar a curiosidade.  E só.  A praça é bem melhor que o sorvete.

É impossível não parar naquela praça enorme e imaginar o furor de uma multidão apaixonada e insandecida torcendo por seus cavalos no Palio.  Eu fiz questão de fazer o percurso a pé, imaginando cada subida e cada descida, cada curva e cada reta no lombo de um cavalo.  A curva mais perigosa de todas, no pé direito do Palazzo Pubblico, assusta mesmo.

Torre del Mangia
Torre del Mangia

Por falar nele, o Palazzo Pubblico é também chamado de Palazzo Comunale.  Ele serve até hoje como centro administrativo da cidade.  Sua torre (a Torre del Mangia) é símbolo de Siena e da Itália.  Ela tem 102m de altura e pode ser subida a pé (escadas intermináveis) mediante a aquisição de um ingresso e o enfrentamento de uma fila.  Seu nome deriva da alcunha Mangiaguadagni (literalmente, “comedor de lucros”) atribuída ao seu primeiro tocador de sinos da torre (Giovanni di Duccio).  Na boa: pagar e enfrentar fila para subir escadas já estavam fora da minha programação (eu já havia subido o mirante do museu, e isso, para mim, já estava de bom tamanho).  Preferi somente visitar o Palazzo.

O museu do Palazzo é bonzinho.  É um museu da cidade de Siena.  Seus destaques são as peças de época e os  afrescos famosos, como um que mostra Guidoriccio da Fogliano na Sala del Mappamondo (Sala do Mapa-mundi).  Uma das mais famosas obras no palácio é a representação do Bom e do Mau Governo na Sala della Pace (Sala da Paz), ou Sala dei Novi (Sala dos Nove).  É interessante notar que esses afrescos diferem bastante do que se encontra no resto da Itália, já que tratam de temas mundanos e políticos, não de alegorias religiosas.

Igreja di San Domenico
Igreja di San Domenico

Embora Siena tivesse ainda outras coisas para oferecer (museus de contradas, igrejas variadas e becos intermináveis), segui rumo à Igreja de San Domenico, também conhecida como Basílica Cateriniana.  Por fora, sua fachada está inacabada.  Por dentro, é de uma pobreza e austeridade dominicana mesmo.  Ela abriga várias relíquias de Santa Catarina de Sena (ou melhor, de Siena), que morava ali perto (sua casa se transformou num santuário, que vale a pena a visita).  Algumas obras de arte da igreja são bonitas, mas a igreja nem de longe pode ser considerada algo imperdível.  E olha que a caminhada até ela é longa…

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6 Comments

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  1. Então você quer dizer que Siena está mais para Grand Siena? Hein? Hein? Pois é…

    Não. Siena merece um dia inteiro e muita disposição. Só isso, sem trocadilhos.

    • Ufa! Pensei que o Edu ia cair no lugar comum e repetir a dose das piadinhas Fiat, rs.
      Mas olha, no começo dessa série sobre a Itália eu falei que achava que vc estava escrevendo mais dela do que das outras e estou cada post mais convencida disso. Mas que bom, suas descrições nunca são demais.

      Eu podia ter dividido este post em dois. Daria menos na pinta. Aposto que você nem leu até o final, só viu as figuras.

  2. Vou confidenciar que, apesar de ler integralmente todos os posts, às vezes eu meio que me perco, de tanta informação que tem neles, principalmente quando não conheço o lugar comentado, pois fico tentando imaginar o que é o que, onde fica, como é, etc.

    No entanto, é inegável que eu prefiro o excesso à falta. E certamente, numa provável e futura viagem à Europa, irei reler e imprimir cada um dos posts dos lugares a serem visitados.

    Em suma: diferente de outras pessoas, que ficam só vendo as figuras (rs), eu me interesso e leio todos os posts de viagem!

    Que bom! Pelo menos uma pessoa lê tudo. rs

  3. Parabéns pelo post! Repleto de explicações para uma pessoa que deseja conhecer Siena. Fico, realmente, muito agradecido pelas informações de onde deixar veículos e também sobres os lugares a serem visitados. Grande abraço. Virei fã do blog.

    Gostou mesmo? Então volte sempre!
    Aproveite Siena, é uma cidade fascinante.

  4. Você se supera nesses posts.

    Ele tava muito mal escrito, com vários erros.
    Viajei de novo enquanto corrigia.

  5. Gostei muito do seu post. Também vou para Siena e estou procurando por estacionamentos. O estacionamento que você deixou seu carro era público ou privado? Olhei no Google e não vi nenhum estacionamento na área.
    Outra dúvida que fiquei, me parece que a área em que fica a Fontebranda é uma ZTL, não?

    Obrigada!

    Nicole, o estacionamento que utilizei era público. Fica do lado direito da via, a metros do início da ZTL (mas ainda do lado de fora) – clique aqui para ver a foto do satélite. Note a entrada dele no canto superior direito da foto. Se tiver mais alguma dúvida, me avise.

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