Um giro por Assis

Gostei muito do roteiro que eu montei para a visita a Assis.  Dá para conhecer a cidade toda em uma manhã (não toda, mas o filé mignon dela, porque se alguém quiser entrar em todas as igrejas, museus e algumas lojas de Assis, vai levar mais de um dia para completar o percurso), com direito a um almoço precoce (antes do meio-dia, para evitar filas e atendimento lento) – tempo suficiente para conseguir seguir viagem e combinar Perugia (a 25km dali, mais ou menos) no mesmo dia.  Perugia é tema para a semana que vem.

O roteiro partiu da saída para a cidade do Parcheggio Mojano (mencionado no post da semana passada), deu uma volta na cidade e voltou para o ponto de partida.  O desenho do passeio foi esse aí:

Basílica de São Francisco
Basílica de São Francisco

1. Basílica de São Francisco: a maior atração turística de Assis é, sem sombra de dúvidas, a basílica dedicada ao filho mais ilustre e famoso da cidade, Giovanni di Pietro di Bernardone – nome de batismo de São Francisco – cuja construção teve início logo após a sua canonização, em 1228.  Ela está localizada na extremidade oeste da cidade, no topo de um penhasco que era conhecido como Colina do Inferno (porque era dali que os criminosos condenados à morte eram jogados penhasco abaixo).  Na verdade, há ali três igrejas dentro de uma única basílica, uma sobre a outra.  A visita se inicia pela igreja inferior, a primeira a ser construída, depois se estende até a cripta (outra igreja, mais recente, construída o redor do túmulo de São Francisco) e termina na igreja superior (a saída é feita pela porta principal da igreja superior, a partir de onde são feitas as melhores fotos da Basílica).  Eu esperava encontrar uma Basílica mais castigada pelo terremoto de 1997, mas não encontrei nenhum um resquício sequer.

Estava tudo lindo e bonito.  Só não foi perfeito porque o segurança que estava tomando conta da porta de entrada da igreja inferior fez uma grosseria gigantesca com uma garota que pretendia visitar a basílica.  Tudo bem que as roupas delas eram um pouco curtas demais para o critério necessário ao ingresso em igrejas na Itália (mas não eram nada demais: um short e uma blusa sem manga, perfeitamente adequadas ao calor que fazia naquele dia em Assis), mas isso não justificava aquela grosseria.  A menina, instada a se vestir adequadamente, amarrou uma canga ao redor da cintura, emulando uma saia sobre o short, e tentou entrar.  Foi interrompida com uso da força pelo segurança, que a trouxe para fora num puxão que significava, em qualquer língua, o prenúncio de um barraco.  Dali para frente, ele proferiu uma série de palavras de baixíssimo calão para ela (xingou-a mesmo!), cheio de razão, num tom de “onde você pensa que vai vestida desse jeito?“.  Ele foi grosso de um jeito que eu só consigo ser quando quero muito ser muito grosso com alguém (com muitos muitos na frase mesmo).

Basílica de São Francisco
Entrada para a igreja inferior

Eu fiquei com vergonha de ter testemunhado aquilo; e ter testemunhado aquilo naquele lugar.  Passei a visita toda pensando em como é que um sujeito naquele lugar que inspira os melhores sentimentos do ser humano consegue colocar todo o encanto da visita (da peregrinação, por assim dizer) por água abaixo.

Entrando na basílica inferior, percebe-se logo que as paredes são cobertas por afrescos tão belos quanto coloridos.  Ela é escura e introspectiva, um convite à penitência e à reflexão.  No transepto direito, um afresco feito por Cimabue chama a atenção de todos que visitam a igreja: A Virgem com São Francisco, Anjos e Santos – provavelmente o retrato mais fiel de São Francisco jamais feito (o tampinha torto e orelhudo, feio pra dedéu, do lado direito do afresco).

Perto do altar fica a descida para a cripta, que nada mais é do que outra igreja abaixo da igreja inferior (uma escada, de um dos lados do altar, serve para descer e outra, do lado oposto, para subir).  A cripta (reaberta ao público após restauração concluída em abril de 2011) guarda o túmulo de São Francisco, descoberto em 1818 após passar séculos com a localização exata esquecida. O túmulo havia sido escondido pelo irmão Elia (um dos seguidores de São Francisco) para evitar a pilhagem das relíquias.  Ali, muita gente aproveita a visita para rezar, meditar, refletir.  Eu mesmo não resisti a ficar ali olhando com cara de tacho, sem acreditar que estava diante de um dos maiores santos da história da Igreja, enquanto inúmeras pessoas davam voltas ao redor da coluna sobre a qual está o túmulo, no centro da cripta, rezando e tocando a coluna com as mãos.  Por ser um ambiente fechado, é proibido acender velas ali dentro.  Os peregrinos são convidados, então, a apenas pegar uma vela na porta de entrada da cripta, levá-la apagada até o túmulo e deixá-la ali (pede-se donativo em troca da vela).  Ao invés de seguir o sugerido, eu trouxe uma para casa de lembrança.

Por falar em lembrança, após sair dali e da igreja inferior, o visitante chega a um pátio que faz parte do interior do convento adjacente à basílica – o Sacro Convento.  Ali há um museu com obras de arte doadas por peregrinos e uma biblioteca repleta de obras medievais, mas o que vale a visita mesmo é a imensa loja de souvenires.  São tantos itens, dos mais diversos tamanhos, preços, e tipos que qualquer um fica perdido.  Não que a loja seja mal organizada – muito pelo contrário.  Mas a variedade desnorteia.  E os preços não são só acessíveis: são bons!  É impossível sair dali de mãos abanando (e eu, que já estava carregando a vela da cripta, enchi a mochila de lembranças para dar para um monte de gente aqui no Brasil).  Porque não há quem vá dizer que não gostou de uma lembrança alusiva a São Francisco comprada na sua basílica em Assis: a lembrancinha comprada ali é tiro certeiro no coração de qualquer um (mesmo que seja só um pingente de alguns centavos de euro).  E, diferentemente da maioria das lojas de souvenires oficiais da Itália, essa loja aceita cartão de crédito com prazer.  É muito difícil sair dali de mãos abanando.

Basílica de São Francisco
Foto clássica da Basílica de São Francisco

Através da arcada do convento se entra na igreja superior da basílica.  Ampla, bem iluminada, ela foi feita assim para representar a glória de São Francisco.  As paredes são cobertas inteiramente por afrescos pintados pelos mais famosos artistas do início da Renascença – especialmente os 28 afrescos de Giotto situados na parte baixa da nave, que narram a vida de São Francisco por meio dos seus episódios mais marcantes.  Esse conjunto, de valor inestimável para a história da arte, marca o início efetivo da Renascença, pois foram as primeiras obras de arte a registrar alguma espécie (ainda que tímida) de sentimentos nos personagens desenhados.  Perca algum tempo observando a cena em que São Francisco seminu discute com seu pai (veja o ódio nos olhos de seu pai e a história da cena mais abaixo neste post) e a que ele está em seu leito de morte (observe a ternura no olhar de Santa Clara em sua direção). Depois de sair, tire a foto clássica da Basílica (como a foto ao lado, no ponto “C” do mapa lá de cima).

Templo de Minerva
Igreja de Santa Maria sopra Minerva

2. Piazza del Comune e Igreja de Santa Maria sopra Minerva: bem no meio da cidade fica a Piazza del Comune.  Na verdade, ela mais parece um alargamento da Via Portica do que uma praça, mas ela é uma praça, onde outras ruas acabam se encontrando com a tal Via Portica.  A praça hoje substitui o antigo Forum da cidade – o centro comercial e administrativo dos povoados romanos – e, por isso, ali estão os principais edifícios cívicos de Assis: o Palazzo del Capitano del Popolo (construído no século XIII e restaurado em 1927), a Torre del Popolo, o Palazzo dei Priori, a Fonte di Piazza e o Templo de Minerva.  Todas as construções são de pedra, para variar; tão medievais quanto impressionantes.  De tudo isso, o que mais chama a atenção, é o Templo de Minerva – convertido em igreja cristã em algum momento do ocaso do Império Romano.  Diferentemente das igrejas do Forum Romano, que estão bastante depauperadas por fora, devido à pilhagem de seus materiais para construção de outros prédios em Roma, o Templo de Minerva encontra-se em excelente estado de conservação.  O tempo parece não tê-lo afetado.  Espremido entre a Torre del Popolo e outro prédio de aspecto mais modernoso, suas colunas imponentes se destacam de todo o restante da praça e aguçam a curiosidade de quem passa por ali.  É bizarro ver um prédio romano no meio de uma praça medieval.  Mais bizarro ainda quando se entra na igreja e se vê um interior barroco!  Um anacronismo artístico tão esquisito que faltam palavras para explicar.

Catedral de São Rufino
Duomo di San Rufino

3. Duomo di San Rufino: São Rufino foi o primeiro santo da cidade, um mártir do século III.  A igreja atual é a terceira construção, a maior igreja da cidade, sua catedral e contém os restos mortais do santo que lhe empresta o nome.  Foi nela que São Francisco e Santa Clara foram batizados.  Foi na enorme praça inclinada em frente à Catedral (um belo exemplo de harmonia urbanística, calçada com pedras do Monte Subasio) que São Francisco teve a sua célebre discussão com seu pai (narra a história que ele teria ouvido a voz de Deus pedir que reconstruisse uma igrejinha fora dos muros da cidade; então ele pegou várias mercadorias da loja do pai, vendeu-as a baixo preço e deu o dinheiro ao padre para que ele fizesse a obra; o pai prendeu-o num celeiro e depois no porão de sua casa, acorrentado; por compaixão, sua mãe o soltou e ele foi buscar refúgio junto ao bispo da cidade; sabendo disso, o pai foi ao seu encontro reclamar indenização pelo furto que praticara na loja, ele tirou toda a roupa, jogou no chão aos pés de seu pai e partiu para sua nova vida completamente nu e pobre) – uma das cenas pintadas na Basílica de São Francisco, na extremidade oposta da cidade.  Fora ter sido o palco da história, a igreja não apresenta nada muito interessante que justifique subir a ladeira (ela fica na parte alta da cidade) e visitá-la.

Santa Clara
Igreja de Santa Clara

Foi ali que eu descobri um grande problema de Assis: a cidade inteira fecha para o almoço.  Por isso, não consegui visitar a cripta (onde se encontra o sarcófago que contém os restos mortais de São Rufino de Assis), o Museu Diocesano (também no interior da Catedral), a Igreja de Santa Clara e a Porciúncula – uma igreja (de Santa Maria degli Angeli) construída para abrigar uma capela (a Porciúncula), aos pés da colina de Assis (a parte nova da cidade).  Foi nesta capela que, segundo a tradição, São Francisco entendeu sua vocação e resolveu se converter.  Dá para entender porque os franciscanos consideram a Porciúncula um local sagrado.  Hoje, a Igreja de Santa Maria degli Angeli abriga também um convento adjacente, onde passarinhos fazem seus ninhos nas mãos da estátua de São Francisco todos os anos, desde tempos imemoriais e um jardim de rosas de uma espécie que só existe ali (Rosa canina assisiensis) – reza a tradição também que, certa vez, São Francisco teria rolado por um jardim de plantas espinhosas para resistir à tentação mundana, e os espinhos, então, se transformaram em rosas quando entraram em contato com seu corpo.

Assis, apesar de ser uma cidade com vocação eminentemente turística (seja turismo histórico, seja turismo religioso), concentra ainda no seu centro histórico uma quantidade muito grande de prédios residenciais.  Eu imaginava encontrar uma cidade inteira voltada para o turismo e me surpreendi quando vi o contrário.  Nas maiores ruas, de fato, existem alguns estabelecimentos comerciais (lojas e restaurantes) mas, fora dali, é raro encontrar algo além de residências.  E residências bonitas: as casas têm paredes de pedra – bem medieval mesmo! – e portas bonitas, flores, escadas, janelas…  Mesmo que não houvesse a história conspirando a favor de Assis, ela valeria a pena uma visita.

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2 Comments

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  1. Tá tudo anotadinho! Quando a Fê vir este post vai ficar com os olhos cheios d’água.

    Calma, avise a ela que não é para tanto!

  2. Como sempre, ótimos os seus relatos.

    Ao lê-los (sim, li mais um post na íntegra!), fico impressionado com o volume de informações associados à viagem em si. Desde a elaboração pormenorizada do roteiro até a elaboração dos posts, passando pela intensidade e a organizacao com que a sua viagem é feita. É realmente impressionante e difícil de ser seguido. Mas é um ótimo parâmetro. Parabéns!

    Obrigado, mais uma vez.

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