Vale a pena conhecer Perugia?

Assis fica a uns 25km de Perugia que, por sua vez, fica a uns 150km de Florença.  É um passeio meio longo para fazer um bate-volta, mas ainda assim é um bate-volta possível, se feito com alguma disciplina de horário.  Dá para combinar os dois no mesmo dia?  Dá, mas Assis fica um pouco corrido e tem aquele problema que lá tudo fecha para o almoço.  O ideal é terminar Assis antes das 12h (precisa chegar bem cedo a Assis para conseguir isso, bem cedo mesmo) para aproveitar esse tempo para se deslocar até Perugia e almoçar lá.  Dá para gastar um dia em Assis e um dia em Perugia?  Aí fica mais difícil: acho até que Assis tem coisas a oferecer para um dia inteiro, mas Perugia…  Então vamos por partes, até porque hoje não é dia de falar de Assis, mas de Perugia.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante a viagem à Itália foi a preocupação das cidades com o meio ambiente urbano.  Em todos os sentidos: qualidade do ar (meu carro desligava sozinho toda vez que eu o dsengrenava parado e depois religava só de pisar na embreagem), beleza e manutenção das vias, segurança da população, e, principalmente, mobilidade urbana.  Em termos de mobilidade urbana, a ZTL me pareceu uma das soluções mais drásticas que eu vi nesse sentido.  Concorrendo com ela – e disparado mais elegante, genial, bacana e eficiente, está o minimetro de Perugia.

O centro histórico de Perugia, guardando as características geográficas mais significativas do período antigo, está situado no alto de uma montanha com penhascos de ambos os lados.  Também guardando características urbanas antigas, poucas ruas que permitem o acesso à cidade são estreitas.  Juntando todos esses ingredientes, Perugia tinha tudo para dar errado no quesito “mobilidade urbana”.

Minimetro
Minimetro

Para solucionar esse problema, a primeira providência foi implantar a famigerada ZTL.  A segunda foi construir um enorme anel rodoviário que permite àqueles que estão apenas de passagem pela Umbria cruzá-la sem ter que entrar na cidade de Perugia – o principal entroncamento rodoviário da província.  Com ele, é possível chegar a Assis sem se estressar com o trânsito local de Perugia.  Por fim, a terceira, a melhor e mais genial iniciativa de todas (e a mais recente também) foi a construção do minimetro: um bonde/funicular/metrô não-tripulado que liga a periferia de Perugia ao seu centro histórico.

Alguns dirão que essa ideia é boba, e que o metrô e o trem fazem isso em muitas cidades do mundo.  Não é tão simples assim.  Primeiro porque a iniciativa é pioneira na Itália, até onde pude perceber.  Segundo porque o minimetro tem um traçado inteligente: a estação central é no subsolo do centro histórico e, por isso, não interfere no planejamento urbano nem na preservação do patrimônio histórico; por ser no subsolo, permite acesso fácil e eficiente a tudo o que interessa ver e visitar por ali, a partir do ponto mais alto; uma das estações é adjacente à principal estação ferroviária da cidade, de modo que os meios de transporte estão integrados; o traçado da linha prioriza as zonas urbanas mais densas da cidade, contribuindo para captar ainda mais usuários; e a estação final (na outra extremidade da linha, em zona de ocupação pouco densa) possui um enorme bolsão de estacionamento e está muito próxima ao Estádio Renato Curi, à garagem da companhia de ônibus, e à universidade; a tarifa é módica e fica ainda mais módica nos bilhetes combinados e de longa duração (voltados para os habitantes da cidade).  Mas se você vai só subir e descer uma vez, comprar dois bilhetes simples (chamados apropriadamente de “UP!”, válidos por 70 minutos a partir da validação inicial) é mais barato que o bilhete diário.  Sem falar que a estrutura do minimetro é um show!  Eu, marmanjo, já me diverti pra caramba andando naquele trenzinho, imagina uma criança?

Por isso, sem sombra de dúvidas, afirmo que, do ponto de vista logístico da viagem, Perugia tem o sistema mais eficiente e fácil de visita a uma cidade italiana.  Até porque eu descobri, sem querer (sabe aqueles erros que dão mais certo que o acerto planejado inicialmente?), que na segunda estação do minimetro o estacionamento é grátis (na primeira estação, é pago, e bem pago)!!!  Outras dicas importantes são: a frequência do minimetro é ótima, portanto, se perder um, espere só um pouquinho pelo próximo; guarde o bilhete porque ele é necessário para passar na roleta da saída também; e perca um tempinho para ver como ele faz o “retorno” nas estações finais.

No centro histórico de Perugia há pouco o que se ver – o suficiente para uma manhã ou uma tarde na cidade.  A estação do minimetro é do lado de um mercado público.  Depois, além do mercado, tudo o que há para ver de importante na cidade está entre a Via Baglioni e o Corso Vannucci, duas ruas paralelas bem próximas a esse mercado (na verdade, o mercado é o prédio dos fundos do Tribunale di Perugia que, por sua vez, domina um dos lados da Via Baglioni.  São basicamente quatro coisas: a Catedral de San Lorenzo, a Fonte Maggiore, a Galleria Nazionale dell’Umbria e a Piazza Italia.  É um miolinho pequeno e bonito, muito bem conservado e quase todo plano – bem agradável para caminhar.

Vista do Giardini Carducci
Vista do Giardini Carducci

A Piazza Italia é bonitinha, mas o que chamo de Piazza Italia se divide, na verdade, em duas partes: a Piazza Italia em si e o Giardini Carducci – uma pequena praça situada num promontório com bela vista para a parte baixa da cidade de Perugia.  Entre elas, um enorme e bonito prédio público se impõe.  O ambiente ali é calmo e muito bom, um ótimo lugar para sentar e descansar um pouco, longe da confusão de automóveis (que passam na via de baixo, fora do alcance dos olhos).  Deve ser um lindo pôr-d0-sol – eu não esperei para vê-lo.

Fonte Maggiore
Fonte Maggiore

A Fonte Maggiore (foto ao lado) domina a ampla praça entre o Palazzo dei Priori e a Catedral de San Lorenzo, construída entre 1277 e 1278.  A fonte era parte de um programa de melhorias civis que visavam celebrar a autonomia da cidade de Perugia. Em 25 faces da pia estão esculturas representando profetas e santos, os trabalhos havidos durante o ano, signos do zodíaco, cenas do Gênesis e eventos da história romana – uma zona generalizada, coisa de quem não sabia direito o que fazer.  Mas até que ela é bonita.

Basílica di San Lorenzo
Estátua de Júlio II

A Catedral de San Lorenzo nem parece uma catedral.  Sua localização, imprensada entre prédios e a Piazza 4 Novembre (onde se situa a Fonte Maggiore), com a fachada voltada para a rua lateral, e não para a praça, e completamente despida de acabamento, gera um certo desprezo em quem a vê – especialmente depois de ter visto tantas catedrais grandiosas e lindas por outras bandas do interior da Itália.  Como é que aquele prédio feio pode ser a catedral da cidade?  Definitivamente, sua aparência não combina com seu status.  O interior não tem nada a ver com o exterior e apresenta um estilo meio caótico.  Na verdade, por dentro ela mais parece um galpão repleto de obras de arte entulhadas do que uma igreja harmônica.  E nem são obras de arte tão-tão assim…  O melhor da igreja, ao meu ver, estava do lado de fora: a estátua de Júlio II (foto ao lado – o mesmo que mandou Michelangelo pintar o Teto da Capela Sistina) sobre a porta lateral, de frente para a Piazza 4 Novembre e a vista da praça e do Corso Vannucci.  Mas não deixe de reparar nas ogivas do teto pintadas (algo raro!) e na Capela do Anel, que abriga o anelo que, segundo a lenda, foi ofertado por São José à Virgem Maria em seu casamento.

Piazza Maggiore e Palazzo dei Priori
Piazza Maggiore e Palazzo dei Priori

Por fim, a Galleria Nazionale dell’Umbria.  Ela está no interior do belo Palazzo dei Priori, que também funciona como sede de repartições públicas locais.  É um prédio esquisito, frio, com fachada assimétrica (fruto de diversas intervenções aleatórias feitas ao longo de quatro séculos), mas predominantemente gótico.  A Galleria em si é um museu de arte de Perúgia, na Itália. A coleção compreende uma extensa mostra da escola umbra de arte ao longo dos séculos XIII a XIX.  É um dos museus mais bonitos, bem organizados, agradáveis e amplos que eu vi na viagem.  A visita é feita em percurso único, progredindo conforme a evolução histórica do acervo – que também é muito bom.  A receptividade dos funcionários é ótima e, no final, uma exposição de fotos antigas da Umbria ainda permitia conhecer um pouco da vida na região no final do século XIX.

A cidade ainda apresenta duas outras “atrações turísticas”: a igreja de San Pietro e o Oratório de San Bernardino.  Não os vi.  A distância (embora pequena) do miolo do centro histórico e as ladeiras no caminho desanimaram – Fiona estava muito grávida nessa época.

Nenhuma dessas atrações ouso considerar imperdíveis.  Perugia não é, definitivamente, uma cidade imperdível.  Vale a pena visitá-la porque vale a pena visitar Assis e, por sobrar um tempinho, visitar Perugia acaba sendo uma pedida óbvia.  Até porque ela é caminho entre Roma ou Florença e Assis.

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5 Comments

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  1. Já que ninguém comentou, uma piadinha infame que pensei desde que li o título:
    – Só pelo nome já vale a pena…

    Mente poluída…

  2. Quer dizer que o minimetro (pensei por ora tratar-de de unidade de medida ou até do irmão do personagem minimim) é uma atração turística à parte?

    Aliás, em alguns momento do seu percurso suspenso, eu me lembrei de algumas passagens do monorail da Disney pelo seu complexo.

    P.S.: mas como tem praça famosa na Itália. É Piazza pra tudo o que é lado.

    P.S.II: eu li todo o post. Novamente…

    Tudo na Itália gira em torno da Piazza.

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