De bicicleta em São Francisco

Eu não sei porque raios o Google Maps não permite a incorporação de mapas da California.  Em todo caso, aviso a quem interessar que o roteiro completo a ser descrito neste post está neste link.

Tudo bem que São Francisco seja a cidade das ladeiras.  Mas existem áreas planas também.  E nelas o estímulo para andar de bicicleta é grande, por parte do poder público.  As ciclovias se multiplicam, a educação no trânsito é grande, os passeios são lindos, enfim: tudo conspira a favor das bicicletas (exceto as ladeiras, obviamente).  E, mesmo numa cidade tão montanhosa, a parte que se salva é muito bem aproveitada – mais até do que em outras cidades bem mais planas no Brasil, como o Rio de Janeiro.

A bicicleta
A safada da bicicleta que eu aluguei

O negócio é caro: paguei 32 dólares por um dia de aluguel de uma bicicleta safadinha, desconfortável e um pouco traiçoeira – e era a bicicleta mais barata que havia disponível.  Tinha 21 marchas e banco largo, guidão curvo, uma tranca e uma garupa com elástico, para carregar qualquer coisa bem presa.  No preço estava incluido também um capacete – cujo uso só é obrigatório para menores de 18 anos.

O rapaz que trabalhava na loja onde eu aluguei a bicicleta se chamava Cristiano, brasileiro de Juiz de Fora-MG, e que já morava em São Francisco há bastante tempo.  Disse que havia vendido o carro e desistido de dirigir em São Francisco.  O trânsito lá andava muito ruim, insuportável e manter um carro na cidade estava ficando muito caro: garagem, combustível, estacionamento, trânsito, multas…  Sim, multas.  A reação do poder público ao excesso de veículos em São Francisco, segundo o Cristiano, foi o aperto da fiscalização e a diminuição a níveis negativos da tolerância às infrações de trânsito.  Ele mesmo vendera seu carro depois de somar trezentos dólares de multas em uma única semana.  Mesmo que ele não fosse um bom motorista, eu saí dali convencido de que andar de carro em São Francisco havia se tornado uma aventura financeira perigosa – bem diferente de 20 anos antes, quando eu estive lá pela primeira vez e era fácil e barato encontrar vagas pela cidade.

E saí em direção ao Fisherman’s Wharf, o famoso ponto turístico na orla da baía de São Francisco, onde restaurantes e lojas se acumulam, onde turistas se acotovelam, perto do ponto final da principal linha de bonde da cidade (aquela mesma que cruza a Market Street e termina no Castro).  Mas não me detive ali, senão para amarrar o cadarço do tênis.  Eu queria sair para ver o mar e as coisas que eu via na televisão.  Eu havia juntado dinheiro para poder viajar e, de escolha própria, havia escolhido a solidão do passeio para curtir a cidade de uma maneira que eu nunca havia feito antes – meus amigos não quiseram pedalar: um “para evitar a fadiga” e o outro porque estava com hemorróidas e ficou com medo de se prejudicar sentando no selim.

E não me arrependi nem um pouco do visual do passeio.  Mesmo com aquela neblina baixa – a cara mais autêntica do verão de São Francisco – e o vento frio cortante que entrava na baía vindo do Oceano Pacífico – também marca registrada do verão da cidade – consegui tirar fotos lindas e ver a cidade por um ângulo totalmente diferente.  Vi pessoas correndo, crianças soltando pipa, jogando bola, brincando na areia da praia, vi cachorros correndo para lá e para cá atrás de gravetos arremessados por seus donos (às vezes até dentro da água!), famílias fazendo churrasco, passeando, praticando esportes ou só apreciando a vista.  Vi São Francisco como São Francisco é para os sanfranciscanos.

Passeio de bicicleta por São Francisco
San Francisco Maritime Park

Logo ao final da Jefferson Street, depois do Argonaut Hotel, fica o San Francisco Maritime Park: um gramado situado no fundo de uma enseada protegida por um molhe de concreto por onde se pode andar e pedalar.  Fui até a ponta do molhe para tirar uma foto da cidade vista do mar (ou quase isso).  O vento lá na ponta era mais frio do que na terra firme, mas a vista também era mais bonita que na terra firme.

Voltei e cruzei a primeira ladeira do percurso – a que percorre uma pequena colina onde se encontra o Fort Mason Park.  Acelerei a bicicleta para ganhar embalo e iniciei a subida a todo vapor.  Quase morri na metade da subida – não que fosse uma subida muito íngreme, nem muito longa.  Era só uma subida e eu, que não andava de bicicleta há uns três ou quatro anos (excetuando dessa estimativa os passeios em bicicletas ergométricas na academia), não estava nada preparado fisicamente para aquele esforço.  Pelo contrário: minha recente vida sedentária me convidava a ter um piripaque ali.  Resisti de teimoso e conclui a subida ainda em cima da bicicleta, mesmo usando e abusando das marchas de força.

Passeio de bicicleta por São Francisco
Marina de São Francisco

E o pior dessa subida é que não há nada lá em cima, nem é possível contorná-la.  A subida só serve para ser descida depois – uma recompensa mais que merecida para tanto esforço inúti!  Dali para frente o passeio é sempre plano, mas contra o vento gelado do Oceano Pacífico.  Enquanto eu pedalava e passava pela Marina de São Francisco, xingava o vento gélido sem parar e tentava me recordar se, alguma vez na minha vida, eu havia sentido tanto frio.  Só um momento vinha à minha cabeça para comparar o frio que eu sentia naquele vento: o verão de 1992, também passado em São Francisco.  E lembrava também da célebre frase de Mark Twain: “não há inverno mais rigoroso que um verão em São Francisco“.

E fiquei muito admirado de ver que, mesmo naquele frio de lascar, havia crianças brincando na areia da praia, gente tomando banho de mar, soltando pipa, jogando bola…  Como é que pode?  Essas crianças não têm avós para zelar por elas?  Ninguém para mandá-las aquecer o peito, vestir o casaco, botar um gorro, sair do vento frio, ou coisa que o valha?  E será que aquelas crianças são de uma raça ou espécie superior, imunes ao frio?

Sem respostas, segui meu passeio.  Lá no final da Marina, fugi da orla e entrei na Baker Street para cumprir a etapa mais importante do passeio: revisitar o Exploratorium – um museu de ciências, possivelmente o mais maneiro que eu já havia visto na vida.  Aliás, não só revisitá-lo, mas tirar novamente uma das melhores fotos que eu já tirei na vida: a vista do Palácio de Belas-Artes (onde o Exploratorium está situado) a partir da Baker Street mas, desta vez, sem meus pais aparecerem na foto.

Exploratorium
A mesma foto, vinte anos depois

Foi muito bom ver que, por ali, continuava tudo tão bonito quanto há 20 anos, exceto pelo banco que ficava posicionado exatamente no centro do jardim, em alinhamento perfeito com as colunas do canopi central do Palácio – ele não estava mais lá.  Tirei a foto, não ficou tão bonita, mas o momento nostálgico rendeu uma paradinha de alguns minutos para sentir saudades de casa e imaginar que, quem sabe, dali a mais vinte anos, eu poderia voltar, desta vez com a Felícia, para ela tirar a mesma foto de mim – se puserem o raio do banco de volta no lugar!  Ou mesmo que não o ponham lá.  O mais maneiro de tudo foi poder mandar a foto direto via WhatsApp e perceber, na resposta, que a vibração da minha mãe em vê-la era a mesma que eu sentia em estar ali novamente.

Eu lembrava muito pouco do Exploratorium.  Quase nada, para ser sincero.  Lembrava apenas de ter me divertido muito com os experimentos disponíveis e de ter feito uma das coisas mais maneiras que eu já fiz na vida: participar de uma simulação de terremoto.  Três anos antes daquela minha visita, São Francisco havia sido sacudida e destruída por um violento terremoto.  As feridas ainda estavam abertas na cidade e na lembrança dos habitantes da região.  E eu fiquei muito impressionado com aquilo.

O negócio consistia numa plataforma elevada cercada com grades de metal.  Depois que as crianças subiam ali, ela sacudia simulando o movimento da Terra durante um terremoto.  Primeiro, um terremoto de 4,5 graus na escala Richter; pausa; depois, 5,4 graus.  O primeiro havia sido molezinha, só uma trepidação básica, nada demais.  Pensei que subir apenas 0,9 graus não seria um aumento significante.  Eu já curtia o sabor do desapontamento por um negócio tão fraco naquele museu tão legal.  Mas foi só até a plataforma começar a tremer – e eu instintivamente me abaixar para colocar a mão no chão para não cair.  Se 5,4 graus era aquilo tudo (não dava para ficar em pé com segurança!), eu não queria imaginar o que seria de um terremoto verdadeiramente violento.  Até hoje, não quero.

Exploratorium Area
Palácio de Belas-Artes

E meu sentimento nostálgico aumentou assim que eu cheguei na porta de entrada do museu, onde um cartaz indicava que ele se mudaria dali para um dos armazéns do pier (acho que os píeres 15 e 17) em menos de um ano.  O outrora espetacular museu de ciências parecia estar meio que em ponto morto, esperando a hora de empacotar as coisas para se mudar dali – e levar o mínimo possível.  Os brinquedos interativos pareciam velhos e surrados, o enorme galpão parecia um pouco vazio, escuro e até abandonado.  Havia muita gente lá dentro, muitas crianças principalmente.  Mas não era a mesma coisa de vinte anos atrás.  Perguntei a uma funcionária o que seria do prédio após a saída do museu e ela respondeu que não sabia, ninguém sabia.  Aquele prédio, talvez o mais bonito da cidade, é um dos poucos remanescentes da Exposição Mundial de 1915 realizada em São Francisco.  Seria uma boa que ele não fosse demolido…

O passeio continuou…  E a narrativa dele também vai contiuar, semana que vem.

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3 Comments

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  1. Eu teria alugado uma bike elétrica por conta das ladeiras.
    Você descreve a cidade e nosso passeio de 20 anos atrás de um jeito que bate uma tremenda saudade.
    São esses momentos que dão aos pais a sensação de dever cumprido.
    E nos faz pensar: “Que bom! Eu acertei!”
    Você é um filho maravilhoso.
    Que Deus o abençôe sempre.
    Felícia está aí. Tenho certeza que vocês farão também passeios marcantes e inesquecíveis.

    Eu devia ter alugado a bike elétrica. Não era muito mais caro (acho que dava menos de dez dólares a mais).
    Acertou sim!

    • Nossa Senhora, se não fosse essa modéstia seu filho seria perfeito, Dona Miriam! Mas isso ele vai compensar com a sua neta – JG que aguarde!

      Eu acho que uma bicicleta elétrica não resolveria não. Elas não têm força para aquelas ladeiras, e digo isso porque a minha tentativa de comprar uma foi frustrada justamente porque eu moro em uma ladeira que nem é lá essas coisas.

      E poxa, você conseguiu transformar São Francisco em um lugar super interessante pra visitar! eu confesso que a achei uma cidade tão trivial… Deve ser porque eu não consegui conhecer a Kari Byron, dos Mythbusters.

      Você tirou um peso da minha consciência – o arrependimento por não ter alugado uma bikelétrica.

  2. Sabe quanto é a multa por avanço de sinal em SF? Mais de US$ 400.00! Sei porque um grande conhecido meu estava desatento na direção, alimentando o GPS, e acabou infelizmente avançando o único sinal da cidade que dispunha de pardal para multar.. Inclusive essa pessoa magnífica guarda até hoje a foto de sua notificação recebida pela UPS…

    Infelizmente eu não pude alugar uma bike quando estive, por questões de saúde. Mas certamente o farei numa próxima vez.

    Realmente é impressionante: um frio de rachar ao meio e as crianças, sempre que podem, seminuas e se molhando…

    Essa construção do Palace of Fine Arts é mesmo bela e já vale a visita só para tirar fotos pela Baker st.

    É exatamente desse valor de multa a que eu me referi quando falei que dirigir em São Francisco era algo impraticável nos dias de hoje.

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