A Cervejaria Bohemia em Petrópolis

Eu nem lembrava disso, mas foi só pegar a Rodovia Washington Luiz sentido Juiz de Fora que eu logo vi um outdoor me convidando para visitar a mais nova atração turística de Petrópolis – possivelmente do Estado do Rio de Janeiro também: a Cervejaria Bohemia.  Eu já havia lido a respeito dela no blog Rio de Janeiro a Dezembro, que eu acompanho embora não seja muito fã devido à sua dedicação primordial à gastronomia de elite – algo que não figura dentre os meus interesses prediletos.

Cervejaria Bohemia
Cervejaria Bohemia

Consultei o site e vi que não era necessário reserva para fazer a visita.  No dia seguinte, após horas infindáveis de compras na Rua Teresa e de uma rápida visita de praxe ao Museu Imperial, rumei a pé mesmo para a mítica e histórica sede da fábrica daquela que é considerada por muitos a melhor cerveja de produção de larga escala do Brasil.  Fui a pé porque o centro de Petrópolis é pequeno, tudo é pertinho: o Palácio de Cristal, o Museu Imperial, a Catedral, a Rua Teresa…  Mas quem quiser ir de carro, além das vagas na rua há um estacionamento quase em frente à Cervejaria.

Aviso aos navegantes, porém, que a “boa” não é ir de carro.  Não dá para sair da visita impune – mesmo alguém que não curte cerveja como eu.  Vá num dia e volte no outro.  Durma em Petrópolis.  Não que o visitante vá terminar a visita bêbado.  Não é isso.  É que não é boa norma arriscar descer a serra, numa rodovia movimentada e com percurso extremamente sinuoso, com um mínimo resquício de álcool no sangue.  Sem falar que é proibido dirigir alcoolizado…  Portanto, invista um pouco mais na viagem, reserve um hotel, recupere-se da visita durante a noite e volte para casa no dia seguinte, são e sóbrio.

Suba a serra no sábado de manhã cedinho, faça compras rápidas na Rua Teresa, almoce a Feijoada no D’Ângelo – uma das melhores que eu já comi na vida –, faça a digestão caminhando com pantufas no Museu Imperial e siga pela Av. da Imperatriz, passando pelo Palácio de Cristal, até a Cervejaria Bohemia (que funciona até 20h nos sábados, embora a bilheteria feche às 18h).  Visite-a, volte para o hotel, durma e retorne ao Rio de Janeiro no dia seguinte.

A Cervejaria Bohemia, hoje, não é só uma fábrica de cerveja.  Ela também é uma fábrica de cerveja.  Por que então repetir aquela monótona visita que quase todo mundo já fez quando estava na escola, à antiga fábrica da Brahma na Praça Onze?  A Bohemia busca ali outro público.  Não mais aquelas crianças ávidas por apenas sair da sala de aula e dar um passeio – até porque nenhuma criança estava interessada no método fabril de cervejas e refrigerantes quando visitou a Brahma.  A Bohemia quer o adulto, aquele que, mais do que consumir cerveja, aprecia e se interessa por ela – especialmente aquela camada da população que está disposta a pagar mais por uma cerveja de melhor qualidade, ainda que, para isso, tenha que beber menos (e apreciar a bebida).

Por isso, a Cervejaria Bohemia deixou de ser uma mera fábrica para se tornar um museu da cerveja (a bebida) e da marca que praticamente se confunde com a identidade e a história de Petrópolis – com uma fábrica ao lado, mas isso é mero detalhe.

E tudo lá é lindo, bonito, bem planejado, bem acabado, bem gerido e muito organizado.  Desde a compra do ingresso até a saída, nenhum detalhe é perdido.  A visita é muito interativa, sem ser enfadonha.  Há um toque de aguçamento da curiosidade ao mesmo tempo que o visitante não precisa se preocupar com nada a não ser buscar a próxima informação, mais adiante no sentido único do roteiro da visita.

Ali é possível aprender sobre a história da bebida desde a sua criação pelos sumérios até o aperfeiçoamento da técnica da sua fabricação pelos monges europeus na Idade Média.  A história da Bohemia também é contada, por meio de rótulos e chapinhas antigas, fotos e outros itens de coleção.  Até o visitante chegar à “Praça Koblenz”, um lugar aberto onde estão expostos quatro mosaicos extraídos da antiga fábrica da Brahma na Praça Onze – demolida recentemente para ceder lugar aos setores pares do sambódromo.  Dali pega-se um elevadora até o quarto andar, sob orientação de um monitor.

Sala do Mestre Cervejeiro
Sala do Mestre Cervejeiro

No quarto andar, o visitante sai do elevador dentro de um ambiente que é a recriação estilizada do laboratório e escritório do criador da cervejaria e pioneiro da arte cervejeira no Brasil, Henrique Kremer.  Ali, forma-se um grupo de visitantes que segue junto até o final da visita.  Ali, também, assiste-se a um filme sobre a história da Cervejaria e o processo de fabricação da cerveja – o que o filme chama de “arte dos mestres cervejeiros”, comparando tal conhecimento aos dos alquimistas medievais, como se a busca da cerveja perfeita fosse equivalente à busca pela pedra filosofal.

Dali em diante, a visita obedece ao processo de fabricação da cerveja, desde a obtenção dos seus ingredientes (água, malte, cevada, lúpulo, trigo e aveia – que podem ser provados em seu estado natural) até a forma de mistura desses ingredientes até a obtenção do produto final.  Tudo isso, claro, percorrendo os ambientes originais da Cervejaria Bohemia (com azulejos antigos, tanques de cobre, escadas apertadas…).

Até aí, a visita é cercada de pompa e formalidade.  Os textos (concisos e precisos, por sinal) são bem decorados e narrados pelos monitores, em português perfeito, impecável.  E aí a monitora pergunta:

Cervejaria Bohemia
Cervejaria Bohemia

– Agora que vocês já passaram pelo processo quente e pelo processo frio de fabricação da cerveja, o que vocês acham que falta antes de comercializar o produto?
– Pasteurizar?
– Não, isso é feito após o envazamento.
– Provar?
– Exatamente, falta provar para checar se o produto ficou bom.  E aí?  Vocês querem provar?
– É…
– Querem ou não querem?
– Claro!  Queremos!
– Então, sejam bem vindos ao…

E aí eu não prestei mais atenção em nada do que ela disse, porque duas portas se abriram numa espécie de cofre ao fundo da sala, onde uma enorme choppeira apareceu com dezenas de canecas cheias prontas para serem degustadas, enquanto dois sujeitos davam aos visitantes as boas vindas à chopperia Bohemia, distribuindo canecas à vontade para degustação.

Todos provam o chopp fresquinho, servido a temperatura ideal, tiram fotos fartamente e exalam felicidade por compartilhar aquele momento tão esperado da visita.  O grupo, que até ali pouco interagia, passou a se dar como conhecidos de longa data (só ali eu notei que havia um casal de gringos no meu grupo).  Daí por diante, aquele português formal, perfeito e escorreito é substituído por um português moleque, de bar, gingado, malandro, carioca, mas não menos perfeito, do monitor que segue com o grupo, apresentando outras coisas relacionadas à fábrica, como maquinário antigo, rótulos, propagandas, etc.

E, mesmo com todos já com cara de satisfeitos e encantados, chega-se a um ambiente formado por um enorme bar, onde atrás do balcão estão três pessoas enchendo taças de Bohemia Confraria com impressionante desenvoltura.  Atrás deles, a parede é tomada por geladeiras repletas de garrafas dos quatro tipos de Bohemia – e duas garrafas de refrigerante no canto inferior direito, escondidinhas, para os motoristas da rodada e para as crianças – que podem visitar a fábrica mediante assinatura de termo de responsabilidade dos maiores que as acompanham.

Aliás, eu ia esquecendo de falar sobre isso.  Servir bebidas a menores de 18 anos é crime e, portanto, para que crianças possam visitar a Cervejaria Bohemia, seus pais têm que preencher esse termo, declarando-se cientes dessa restrição e comprometendo-se a não permitir que os menores ingiram bebida alcoólica durante a visita.  Felícia só bebeu água.

Cervejaria Bohemia
Cervejaria Bohemia

Depois de mais uma sessão de degustação, a visita termina numa enorme sala interativa onde os visitantes já altinhos podem tirar fotos para fazerem rótulos, emblemas, postais, pôsteres, cartazes e chapinhas com seus rostos e até mesmo jogar videogame (uma espécie de Nintendo Wii cervejeiro).  Tudo isso identificado pelo código de barras da pulseira (veja foto ao lado), vai para um banco de dados onde o visitante pode formar um álbum de memórias da visita e enviar para o seu próprio e-mail.  Depois de sair dali, enfim, o visitante vê a fábrica, com garrafas rolando por esteiras de envazamento.

Mas quem está interessado nisso?  Ninguém.  A esta altura do campeonato o que se quer mesmo é beber um pouco – mesmo pessoas que, como eu, não são fãs de cerveja.  É por isso que ali mesmo, a Bohemia fez um enorme bar onde aperitivos e outras comidinhas do gênero são servidas junto com todos os tipos de chopp e cervejas Bohemia, em copos estilizados.  O ambiente é bonito, limpo, amplo e acompanha uma loja de souvenir que podia ser melhor explorada.  O cardápio é chique e tudo o que provei foi muito bonito de se ver e gostoso de comer, apesar de não ser nada imperdível nem espetacular.  O preço é honesto, mas o serviço…  O serviço deixa bastante a desejar.  Eu levei quase dez minutos sentado esperando um garçom me abordar.  A porção de bolinhos de bacalhau demorou cerca de vinte minutos para ser servida.  A porção de minicroquetes chegou até rápido, em menos de dez minutos, mas foi servida bem antes da chegada do pedido do meu vizinho de mesa (ele havia feito o pedido uns cinco minutos antes de mim, e o pedido dele eram apenas dois croquetes).  A impressão é de que a estrutura não agüenta o movimento pleno do lugar.

É um passeio que faz valer ainda mais a pena a visita a Petrópolis.  Se você ainda não foi, está perdendo tempo!

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4 Comments

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  1. Este post me deixou com água na boca!! Apesar de ir a Petropolis com frequencia, ainda não consegui fazer essa visita…(eu tive a oportunidade de conhecer a fabrica quando era adolescente, sem toda esta produção…)

    Como não posso deixar de fazer propaganda da minha terrinha, vou complementar a sugestão de caminhada…saindo do Museu Imperial, siga pela Av. da Imperatriz até a Catedral São Pedro de Alcantara e entrem na Av. Koeller, que na minha opinião, é a rua mais bonita de Petrópolis! Chegando na Praça da Liberdade, é só seguir pela Av. Roberto da Silveira, onde está localizada a sede do tradicional Petropoliano Futebol Clube…dali, já será possível ver o bar da Bohemia.

    Pois faça o favor de tirar a água da boca e colocar chopp!
    E foi exatamente essa caminhada que eu fiz.

  2. Eu ia perguntar, o que você foi fazer numa fábrica de cerveja…e a Fiona, aprovou?

    Eu fui carregar o peso.

  3. Muito legal a sugestão de passeio, inclusive o roteiro da caminhada que a Rebeca fez. Vou lá conferir!

    Vá sim!

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