Esquentando os tamborins – O Amanhã

Seguindo a sugestão contida nas entrelinhas do comentário do Eduardo, resolvi colocar os sambas em ordem cronológica.  A ordem que eu havia vislumbrado inicialmente era aleatória.  Seguia a ordem pela qual eu lembrara dos sambas quando planejei a série.  Por isso, o samba de enredo de hoje é de 1978, sete anos após o inesquecível Festa para um Rei Negro, sobre o qual tratamos na semana passada.

A União da Ilha do Governador é conhecida no Rio de Janeiro por ser a segunda escola de samba de todos os cariocas. De fato, ela prima pela simpatia do público como um todo. É uma espécie de irmão caçula, aquele que todo mundo trata bem, é o xodó até dos irmãos mais velhos, cheio de mimos, querido por todos, sem exceção. Assim é a “Ilha”.

E a Ilha conquistou esse lugar cativo no coração dos cariocas, creio, por desfilar os sambas de enredo mais bonitos da história do carnaval carioca. De vez em quando uma escola de samba emplaca um sucesso na avenida, normalmente o samba campeão, e isso é normal. Em alguns carnavais, nenhum samba se imortaliza, e isso também é normal. O que não é normal é fazer o que a Ilha fez: em 13 anos emplacar quatro sambas de enredo no Olimpo do imaginário popular – sem ser campeã em nenhum desses anos. É um assombro!

O samba de hoje é o primeiro dessa linhagem fantástica que qualquer carioca – possivelmente, qualquer brasileiro – sabe também cantar de cor: “O Amanhã”, de 1978. A ele se seguiram “É Hoje!”, de 1982 (“A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela…” – o resto é com vocês!), “Festa Profana”, de 1989 (“O Rei mandou cair dentro da folia, e lá vou eu. O sol que brilha esta noite vem da Ilha, lindo sonho que é só meu…” – o resto é com vocês!), e “De Bar em Bar, Didi, um Poeta”, de 1991 (“Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre que eu to feliz!…” – e o resto também é com vocês!!!).

É muita coisa. Se eu fosse colocar todos eles no ar, quase metade dos vídeos até o carnaval seria ocupada pela pequena e charmosa União da Ilha do Governador. Não foi possível – embora eu adiante que ainda teremos mais um samba de enredo da Ilha nesta série, diferente desses que mencionei. O jeito foi escolher um. E a escolha pelo primeiro deles foi fácil. Primeiro, por ser o precursor dessa série antológica. Segundo, por ser um samba muito melódico, curto, de um único refrão – coisa de antigamente, quando existiam dificuldades fonográficas de gravação do samba e amplificação do som durante os desfiles. Para o samba ser cantado por todos e ouvido uníssono durante o desfile (a tal harmonia), ele precisava ser curto e fácil. O Amanhã é, possivelmente, o último representante dessa geração de sambas de enredo. Nem por isso, menos bonito, famoso, contagiante ou eficiente.

Repare isso na simplicidade da gravação. São tão poucos instrumentos que se ouve a cuíca com uma claridade incrível, fazendo todo o colorido irreverente que só o seu som produz. O pandeiro então, nem se fala – ele, que hoje é um instrumento relegado a servir de malabares para passistas, figura praticamente como o samba inteiro na gravação, é samba e balanço, com direito a estribilhos exibicionistas nas viradas.

A cigana leu o meu destino… Eu sonhei!” – o resto é com vocês.

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2 Comments

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  1. “A União da Ilha do Governador é conhecida no Rio de Janeiro por ser a segunda escola de samba de todos os cariocas”. Só se for pra você, seu, seu… salgueirense! Tá querendo comparar a União com o América, por acaso?! Dobre a sua língua e lave a sua boca para falar da minha escola! Humpf!

    Este é um dos mais bonitos que eu conheço. Não tenho muito a acrescentar à sua descrição, só que ele é lindo e cativante.

    É isso aí. Ela é o América do samba.

  2. São sambas que eu, avesso ao samba em geral, gosto bastante.

    Tá vendo?

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