Esquentando os tamborins – Bumbum praticumbum prugurundum

Até 1975 o carnaval do Rio de Janeiro era uma monotonia semelhante aos grandes campeonatos nacionais de futebol da Europa.  Ano após ano, só aquelas mesmas quatro escolas de samba venciam, o que deu origem à demoninação “Quatro Grandes”, grupo formado por Portela, Mangueira, Império Serrano ou Salgueiro.  Ocorre que, em 1973, um empresário do jogo do bicho teve a grande ideia de lavar o seu dinheiro no carnaval, e decidiu apadrinhar uma escola de samba cuja expressividade beirava o ridículo até então.  O nome desse gênio era Castor de Andrade; a escola era a Mocidade Independente de Padre Miguel.  O resultado dessa união foi uma baita surpresa no desfile de 1974: a escola desfilou com um luxo jamais visto até então.  Não venceu, mas chegou em quinto, atrás apenas das “Quatro Grandes”.  Os que viram contam que era absurda a diferença entre ela e as demais.  No ano seguinte, foi quarta colocada, à frente da Portela.

A ideia de Castor de Andrade parecia acertada.  Em 1975, Anísio Abraão David, também empresário do jogo do bicho, resolveu adotar outra escola de pouca expressividade para o carnaval carioca: a Beija-Flor de Nilópolis.  E não poupou esforços, contratando ninguém menos que Joãosinho Trinta, então bicampeão pelo Salgueiro, para ali trabalhar.  O resultado desse investimento foi o título de 1976, com o enredo “Sonhar com Rei dá Leão”, uma descarada apologia ao jogo do bicho.  Uma intrusa, com elevado patrocínio financeiro, chegara ao Olimpo, desbancando as “Quatro Grandes”.  A Beija-Flor ainda venceria em 1977 e 1978, coroando um tricampeonato, na força do patrocínio de seu patrono.

Era nítido que o carnaval estava mudando.  O nível da competição estava se elevando e, com ele, as cifras dos investimentos das escolas.  Tudo isso auxiliado pela televisão que, desde 1973, transmitia os desfiles ao vivo.  Em 1979, foi a vez da Mocidade Independente de Padre Miguel faturar seu primeiro título, com a Beija Flor em segundo lugar.  Ao grupo das “patrocinadas”, juntou-se também a Imperatriz Leopoldinense, que dividiu o título de 1980 com Beija Flor e Portela e venceu o de 1981 sozinha, liderada por Arlindo Rodrigues, o carnavalesco que conduzira as modificações implementadas por Castor de Andrade na Mocidade sete anos antes.

Era nítido também que as “Quatro Grandes”, enciumadas e desacostumadas ao papel de coadjuvantes, não estavam satisfeitas.  E é nessas situações extremas que a genialidade do artista aparece e faz a diferença.  Foi exatamente isso que aconteceu.  Um certo Aluísio Machado, sambista da Império Serrano, uma das “Quatro Viúvas”, em parceria com Beto Sem-Braço (de quem, ao que reza a lenda, ele se diz braço direito), resolveu escrever um samba em protesto contra o que ele chamava de “Escolas de Samba S/A”, ou seja, aquelas escolas de samba cujo carnaval abandonara suas raízes pobres, perdera o foco no samba, e concentrara sua força nas alegorias gigantescas e nos adereços luxuosos que só muito dinheiro podia comprar.  Sua ideia era mostrar que o samba é coisa simples, de gente simples; que são as pessoas que fazem o carnaval, e não o dinheiro; que não era preciso muito dinheiro para se divertir no carnaval; que, nas origens do carnaval, ele era feito por gente humilde, pobre, e que nem por isso ele era menos divertido.

Ele conseguiu tudo isso e provou, na prática, que o samba era capaz de desbancar o dinheiro.  Ele conseguiu mais: um título para a Império Serrano – o último da história da escola de Madureira -, desbancando as “Escolas de Samba S/A”.  E ele conseguiu ainda mais: teve a sua criação imortalizada no imaginário popular.  Quem nunca ouviu esse samba?  Quem não sabe cantá-lo?

Ele mesmo explica tudo isso, no vídeo de hoje: Bumbum praticumbum prugurundum, uma onomatopeia dos surdos de uma bateria, o samba campeão de 1982.

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2 Comments

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  1. Fico imaginando a responsabilidade de ser o braço direito do Beto Sem Braço. Principalmente se o braço que falta for mesmo o direito.

    A responsabilidade e a honra.

    • Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, amo as pérolas do Eduardo!
      P.S. Também me amarro nesse samba, e sabendo a história, fica melhor ainda de ouvir.

      Muitas histórias que a transmissão oficial nunca contou…

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