Esquentando os tamborins – O Mundo é uma Bola

Em 1986 a Beija Flor já havia conquistado o seu lugar no carnaval.  Deixara de ser uma escola de pouca expressão da longínqua Nilópolis para se tornar a Toda-Poderosa Beija Flor de Nilópolis, tricampeã do carnaval carioca, famosa e temida por seu luxo e riqueza – e, principalmente, por seu carnavalesco, o mítico Joãosinho Trinta, que ia para o seu décimo primeiro carnaval na escola, e já acumulava 7 títulos e dois vicecampeonatos no curriculum.

Era ano de Copa do Mundo.  A primeira Copa do Mundo após a frustração de 1982.  A volta da Copa do Mundo ao México, onde o Brasil triunfara tão convincentemente em 1970.  A seleção brasileira estava em alta, o futebol brasileiro estava em alta, o Brasil já respirava, desde o encerramento do jogo no Sarriá, o clima daquela Copa do Mundo.  Uma Copa onde o Brasil pretendia vingar a tragédia ocorrida quatro anos antes.  A Pátria de chuteiras veria que um filho dela não fugiria à luta – que dirá onze juntos, vestidos de amarelo.

Nesse clima, a ideia de Joãosinho Trinta de fazer um carnaval sobre o futebol caiu como uma luva.  A escola se enfeitou com o luxo de sempre.  Não contava com uma das piores chuvas que já desabaram sobre a Av. Marques de Sapucaí em dia – ou melhor, em noite – de desfile.  A chuva, porém, não contava que o efeito despertado por suas gotas foi justamente o inverso àquele inicialmente por ela imaginado.  Ao invés de destruir fantasias e fazer o moral da escola desmoronar, ela retroalimentou a vontade de vencer dos seus componentes.  Eu lembro de assistir aquele desfile pela televisão.  Foi impressionante, assustador.  Eu temi, eu tremi.

E tudo isso movido principalmente pela letra e pela melodia de um samba que não era apenas um canto em ritmo agitado.  Era um verdadeiro hino de louvação ao futebol cuja letra envaidecia, enaltecia e empurrava o Brasil rumo ao tetracampeonato no México, dali a quatro meses.  Hoje, ciente dos resultados daquela Copa do Mundo, o samba pode não parecer tão empolgante nem instigante.  Mas naqueles dias, não houve quem não o aclamasse como precursor daquele título que só viria oito anos depois, com um time avesso àquele que nós gostaríamos de ter exibido ao mundo.  Afinal de contas, nada podia ser mais explícito em relação a isso do que o verso “A arte é jogar bola; vai na Copa e faz um carnaval!“.

Agora imaginem a química na prática: a união de um samba que conclamava à prática da fina arte do futebol na Copa do Mundo porvir e componentes esbanjando garra na hora do “vamos ver”, durante o desfile na Avenida Marquês de Sapucaí.  Não houve brasileiro que não enxergasse ali o espírito com que os jogadores deveriam entrar em campo para cada jogo no México.

Uma melodia em tom maior, que começa com uma conclamação ao Brasil para o encerramento de fileiras rumo à vitória nos gramados com os heróis da Seleção Nacional.  Nele estão presentes toda a força da torcida, toda a superstição do torcedor, toda a força do Maracanã.  Um grito de guerra, um canto de torcida, muito mais do que um samba.  Simples, claro e direto.

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5 Comments

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  1. Engraçado que eu não lembrava nem do desfile, nem do samba enredo. Muito legal a transmissão da Manchete, também.

    E você reparou que o Neguinho da Beija-Flor era a cara do Negueba?

    • Só depois que você falou! Eu prestei tanta atenção em outras coisas, como o logo da Manchete com o néon ou a comissão de frente sem coreografia, que nem me liguei nisso.

      Os efeitos especiais, as vinhetas… Tudo muito velho.

  2. Ó, vou confessar uma coisa só pra vocês: na minha adolescência eu era apaixonada pelo Anísio.

    Apaixonada como? Você achava ele bonitão? Carismático? Explique.

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