Esquentando os tamborins – O Ti-ti-ti do Sapoti

O samba de hoje no “Esquentando os Tamborins” é mais um daqueles que todo carioca sabe cantar de cor e salteado.  Pode não lembrar que ele foi o samba de enredo entoado pela modesta Estácio de Sá em 1987, reeditado em 2007, sem sucesso na avenida em ambos os casos.  Quero dizer: o sucesso do samba foi indiscutível.  A escola é que não conseguiu fazer jus, na passarela, à força que o samba teve junto ao público (foi quarta colocada em 1987 e décima terceira e última colocada – rebaixada, portanto, ao grupo de acesso – em 2007).  Notem: a ampla maioria das pessoas que ler este post se lembrará de cor e salteado deste samba.  Mas poucas se lembrarão da escola campeã desses dois anos ou de seus sambas de enredo.

Eu era moleque na época do primeiro lançamento deste samba de enredo.  Lembro que, durante as férias (no verão, antes do carnaval, na época que as férias escolares só terminavam uma semana depois do carnaval – ai, que saudade!!!), essa música era febre.  Ouvia-se o tal refrão em staccato pontuado por toques ritmados de tamborins por todos os lados: “Que Ti-ti-ti é esse, que vem da Sapucaí?  Tá que tá danado, tá cheirando a sapoti…”  A música todo mundo já havia decorado antes do desfile, de tanto ouvir repetidas vezes em todos os lugares.

Na avenida, foi diferente.  A começar porque a bateria da escola não conseguiu segurar a cadência.  O samba caiu muito de ritmo, ficou lento demais, terminou o desfile triste, quase sonífero.  Para se ter uma ideia do que isso significa, compare os dois vídeos mostrados neste post.  No primeiro, do desfile de 1987, a música é bem mais lenta e arrastada.  No segundo, de 2007, a música é incrivelmente mais rápida.  A cadência, isto é, a desaceleração do ritmo da música, durante um desfile, é algo natural.  Mesmo com mecanismos eletrônicos de marcação de tempo – metrônomos eletrônicos – instalados com pontos de ouvido nos principais ritmistas da bateria da escola (geralmente nos surdos de primeira), é natural que isso aconteça.  São muitos ritmistas tocando juntos, conjugando elementos como cansaço, esforço repetitivo e obrigatoriedade de manter atenção em outras coisas que não exclusivamente tocar seu instrumento.  Daí a cair tanto o ritmo, vai uma diferença muito grande.

Outro motivo para o fracasso – ou sucesso, dependendo do ponto de vista – foi a própria limitação da escola.  “O Ti-ti-ti do Sapoti”, embora fosse um samba incrível, não foi capaz de fazer a escola superar todas as grandes escolas de samba de sua época e ela terminou atrás de Mangueira (campeã), Mocidade, Império Serrano e Portela (empatadas em terceiro), empatada com a Beija Flor e à frente de Salgueiro e Imperatriz Leopoldinense.  “O Ti-ti-ti do Sapoti”, por ser um samba incrível, permitiu que a escola finalmente se firmasse no cenário do carnaval carioca: ela, que era uma “escola iô-iô” (subia num ano, descia no ano seguinte) conseguiu, a partir dali, ficar um bom tempo junto à elite, chegando a faturar um título cinco anos depois.

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3 Comments

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  1. Eu nunca tinha analisado a questão de forma tão técnica. Realmente, foi isso mesmo. E se eu não me engano, em 2007, ano em que repetiu o samba enredo, a Estácio caiu – e não voltou até hoje.

    Isso tá escrito no post: “rebaixada, portanto, ao grupo de acesso – em 2007”.

  2. Mudando de assunto, cadê Filó? Nunca mais vi fotos dela por aqui…

    Calma. Tem uma história nova para contar. Em breve.

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