Esquentando os tamborins – 100 Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão?

1988 era um ano emblemático na história do país. Era óbvio que muitas escolas de samba partiriam para o lugar comum de celebrar, na Avenida, com samba, os cem anos da abolição da escravatura no Brasil. De fato, um terço das escolas de samba do Grupo Especial naquele ano colocou o negro e a abolição como temas centrais dos seus desfiles. Outras escolas falaram de política, da constituinte, da economia, da inflação – ainda era moda malhar a política no carnaval. Outras escolas escolheram personalidades para fazer seus enredos de louvação: Paulo Gracindo, os Trapalhões, o Rio de Janeiro… As quatro primeiras colocadas na apuração daquele ano foram justamente as escolas que trataram da abolição.

A Mangueira, a mais resistente das “Quatro Grandes” ao poder financeiro das “Escolas de Samba S/A”, vinha de um bicampeonato no suor da camisa. Consolidara sua posição de escola favorita da maior parte do povo carioca, com maior torcida e apoio de inúmeras personalidades influentes da época e tentava o tri para igualar o feito da Beija Flor do final da década de 1970. Seu samba de enredo para 1988 foi melhor que os dois anteriores (disparado melhor que o de 1987 e só um pouco melhor que o de 1986, na minha opinião). Mas a Vila Isabel acabou correndo por fora e venceu todo mundo nos quesitos de apuração. Coisas do carnaval.

O samba da Vila era bom, muito bom. Outros sambas daquele ano eram muito bons também. Mas a letra daquele samba da Mangueira, escrito por Hélio Turco, Jurandir e Alvinho era insuperável. A retórica do texto que traz questões de alta indagação logo de cara, nos primeiros versos, é de uma genialidade impressionante – tanto na composição e na escolha das palavras quanto na composição e na escolha das perguntas. E tudo bem ao estilo da Mangueira: frases largas, bem intercaladas, pausas longas para respirar entre um verso e outro – um reflexo da idade já avançada de Jamelão, puxador da escola, e do sistema de bateria de um único surdo de marcação, principal característica da bateria da escola.

Os dois refrões de apoio – são quatro refrões no samba inteiro, totalizando mais refrões do que estrofes, uma inversão inédita da ordem de importância dos grupos melódicos que se mostrou bastante eficiente na Avenida – chamam a atenção para uma constatação óbvia e tão perturbadora quanto as indagações das estrofes anteriores: o Brasil só é o que é hoje porque o negro, cativo ou liberto, ajudou.

A estrofe que vem em seguida faz o contraponto com isso tudo. Após as dúvidas e as constatações nefastas relacionadas à história do negro no país e ao preconceito ainda existente contra ele, a música conduz à outra extremidade do pensamento: o ideal de liberdade, de igualdade, de vida social com inclusão, com efetiva abolição dos grilhões da escravidão que ainda pesam sobre o negro. O refrão seguinte, uma espécie de refrão ponte, faz o arremate de toda essa retórica argumentativa, repleta de poréns, idas e vindas, mostrando que ainda existe resistência contra o negro na sociedade brasileira – uma “luta do bem contra o mal” contra o preconceito racial.

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3 Comments

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  1. “Titia” tem que ler essa análise…

    Por que? Ela não curte samba tanto assim…

  2. Eu não tinha associado o samba enredo ao ano. É um dos mais bonitos que eu conheço.

    Sério?

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