Esquentando os tamborins – Peguei um Ita no Norte

Não há mal que sempre dure nem dor que nunca acabe.

O final dos anos 1980 foram a consagração definitiva do modelo implementado quinze anos antes pelas Escolas de Samba S/A. Em uma década, o carnaval do Rio de Janeiro se transformara como nunca antes havia se transformado. Acontece com todo lugar onde o dinheiro entra, fazendo negócios, gerando lucros. Os títulos da Imperatriz Leopoldinense e da Mocidade Independente de Padre Miguel serviram para provar o que muita gente já sabia mas relutava em acreditar: o Carnaval se transformara em um grande negócio, onde o volume de investimentos tinha relação direta e preponderante com o resultado da apuração. Nessa época, ano após ano se via um desfile com luxo nunca antes visto na passarela.

Esse processo, que começara em 1974, consolidara-se em 1984 com a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba – LIESA, ação liderada por Castor de Andrade (seu primeiro presidente), Anísio Abraão David (seu segundo presidente) e Capitão Guimarães (que teve dois mandatos de presidente, o terceiro e o oitavo). Suas escolas de samba, que sempre ficavam vencidas nas decisões da AESCRJ (Associação das Escolas de Samba da Cidade do Rio de Janeiro), dissidiram e deram origem a essa nova associação que, com a força econômica e política de seus dirigentes, conseguiu tomar da RioTur a organização do desfile em 1992 após ameaça de boicote da festa. Um ano antes, porém, em 1991, o quase rebaixamento da Mangueira e o rebaixamento da Império Serrano foram o clímax desse processo de mudança. Estava claro que as “Quatro Grandes”, se quisessem sobreviver, teriam que se adaptar ao novo modelo, buscar parceiros, patronos, mecenas, investimentos, vender latinha de cerveja na praia, passar rifa…

Era uma revolução. O Império Serrano já estava rebaixado, a Portela não ganhava nem ameaçava ganhar um carnaval há mais de dez anos (e assim continua até hoje), mergulhada em crises políticas internas infindáveis, a empáfia mangueirense não permitia que a escola olhasse para o problema com olhos de ver, culpando sempre os jurados, os orixás ou a meteorologia pelos seus maus resultados… E o Salgueiro?

Das “Quatro Grandes”, o Salgueiro foi a escola que melhor se adaptou aos novos tempos. Liderada por Waldemir Garcia (alcunha Miro), em cinco anos a escola lançou o modelo que sucedeu ao mecenato do jogo do bicho, que foi posto em prova e se consagrou no carnaval de 1993: o modelo empresarial. A Escola de Samba passou a ser administrada como uma empresa, buscando patrocínio junto a entidades interessadas em serem mostradas na vitrine do carnaval, vendendo artigos a ela relacionados, licenciando produtos, promovendo festas, arrecadando com ensaios, almoços, apresentações em shows, festas de casamento e de formatura ao longo do ano, etc. Tudo isso geraria renda suficiente para montar o carnaval e ainda gerar empregos na comunidade, profissionalizando de vez aquele trabalho.

A prova de fogo desse novo modelo veio com a pressão exercida pela Justiça sobre os bicheiros – que acabariam sendo presos, por ordem da Juíza Denise Frossard, em maio de 1993. O mecenato patrocinado por eles não terminaria aí, mas este ato seria o início do fim do modelo econômico criado por eles vinte anos antes. O fim propriamente dito só viria alguns anos depois, com a morte dos bicheiros: primeiro Castor, depois Drummond – tanto que Mocidade e Imperatriz há muito não se sagram vencedoras, ao passo que a Beija Flor, com Anysio ainda vivo, segue arrebatando títulos ano após ano.

O Salgueiro, depois de um jejum de 18 anos sem título, saiu da fila e não apenas sagrou-se campeão do carnaval de 1993 como também fez mais um samba de enredo entrar para a história: Peguei um Ita no Norte, composição de Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, é um espetáculo – apesar de bem diferente da linha teórica culta pregada na Academia (apelido que o Salgueiro adotou para si). Caiu na boca do povo como Festa para um Rei Negro, e se imortalizou. A ponto de Neguinho da Beija-Flor, anos depois, confessar que ao ouvir a apresentação, já sabia que a escola, mesmo tendo sido apenas a terceira a se apresentar, já havia ganho o carnaval daquele ano.

Peguei um Ita no Norte é um samba relativamente curto, leve e fácil, tanto na letra quanto na melodia. Não tem palavras difíceis, é bem articulado nas ideias e na escolha das rimas. Sua genética é popular, e a interpretação irreverente do puxador da escola na época (Quinho), com gritos e firulas nas pausas, o tornou ainda mais animado, evitando espaços vazios nos longos buracos melódicos existentes entre os versos. É um samba feito para a voz do povo, um samba “oba-oba”, como chegou a ser chamado pejorativamente pelos mais radicais defensores da ideologia da Academia, mas que funcionou como nenhum outro samba funcionara desde 1971 (incluindo sambas de enredo de outros títulos), e ao contrário de vários outros aclamados supersambas tecnicamente primorosos que naufragaram na Avenida desde então (como “Me masso se não passo pela Rua do Ouvidor”, de 1991).

Esse samba foi o empurrão que faltava para que o modelo empresarial se firmasse definitivamente. Serviu de suporte para um carnaval exuberante, empurrado por um pequeno barco chamado carinhosamente de Ita, oriundo da festa do Círio de Nazaré, em Belém, e que navegaria toda a costa brasileira até aportar na Marquês de Sapucaí, no carnaval do Rio de Janeiro, no desfile do Salgueiro.

O mal que afligia o Salgueiro pararia de durar. A dor que o acometia teria, enfim, um fim. Mais que isso: o Salgueiro revolucionava mais uma vez o mundo do samba; e um novo samba de enredo alcançava o Olimpo do cancioneiro popular brasileiro.

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11 Comments

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  1. Tô impressionadíssimo com a aula de história do carnaval deste post! De verdade!

    Obrigado.

  2. Verdade; você se iguala a muitos jornalistas, e dos bons.

    Com a diferença que eu não escrevo notícias.

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