Esquentando os tamborins – Muito prazer! Isabel de Bragança e Drumond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila

O samba desta quinta-feira não marcou época, não ficou famoso, e pouca gente se recorda que ele um dia existiu. Honestamente, eu não sei a razão para isso. É um samba bonito, alegre, típico samba de exaltação (confesso que tenho uma queda por sambas de exaltação). Tem uma letra belíssima, repleta de alusões temáticas aos principais pontos da história do bairro que emprestou nome à escola. E olha que não foram poucos… A rapidez com que ele caiu no esquecimento foi proporcional à sua beleza – uma sina que ele não merecia.

A Vila Isabel (a escola) embora seja tradicional no carnaval carioca, não prima por um passado brilhante, notável. Durante muitos anos oscilou entre ascensões e quedas da elite do carnaval carioca. Era uma escola acanhada, sem torcida, exceto a dos próprios moradores do bairro – especialmente do Morro dos Macacos, sua maior e mais conhecida favela. Venceu em 1988, ano do centenário da abolição, com Kizomba – a Festa da Raça, no papel de azarão, mas não fincou definitivamente seus pés na elite do samba. No ano seguinte, ficou em 4º lugar e depois recolocou-se lá pelo pelotão de trás da elite das escolas de samba cariocas. Caiu, subiu e voltou a vencer mais uma vez apenas em 2006, quando ajudou a remarcar o modelo empresarial no cenário do carnaval carioca. Desde então, não por acaso, tem feito apresentações consistentes, obtendo boas colocações no resultado das apurações.

A Vila Isabel (o bairro), no entanto, tem muita tradição e muita história para contar. Tem uma das avenidas mais famosas e bonitas do Rio de Janeiro, o Boulevard 28 de Setembro (que leva no nome a data da promulgação da Lei do Ventre Livre). É o bairro onde ninguém menos que Noel Rosa nasceu e morreu (aos 26 anos!).

E muitas outras histórias (da escola e do bairro) que Vilani Silva “Bombril”, Evandro Bocão e André Diniz reduziram a uma única letra de samba. Não é à toa que levaram o Estandarte de Ouro daquele ano, como Melhor Samba de Enredo.

A primeira parte do samba é só história e saudade de um tempo que não volta mais. É quase que uma narrativa da vida documental das terras que outrora compunham a Fazenda dos Macacos. Tem uma melodia mais triste, com notas graves e tons menores. Tem um tom de melancolia nos primeiros versos, que falam de índios que não existem mais, jesuítas e a exploração da lavoura de cana de açúcar (provavelmente com uso de mãos negras). Mas isso passa e a melodia logo se anima, passando com naturalidade a acordes em tons maiores, ao falar das glórias daquelas terras – a preferida do Imperador, o dote à Duquesa, as melhorias implementadas pelo Barão de Drummond – o grande mecenas do bairro, que urbanizou o bairro inspirado nas ruas de Paris.

Essa empolgação natural que o samba vai criando através de sua melodia pode ser vista também na gravação selecionada de hoje. Reparem que o intérprete, chamado Tinga, está desconfortável nos primeiros versos do samba. Chega a desafinar no refrão inicial. E vai da timidez à euforia durante essa primeira parte, chegando ao refrão em forma exuberante.

A segunda parte é pura exaltação. Os anitgos carnavais de rua, as festas, as serestas, os namoricos na rua, todas as mais notáveis características que o bairro possuiu nos áureos tempos se fazem presentes, assim como as calçadas musicais – as mais belas do Rio de Janeiro, ao lado das ondas de Copacabana. Também não fugiram dali as figuras mais notáveis da história da escola que, afinal de contas, leva o nome e se confunde, a partir de determinado momento, com a história do próprio bairro. Sr. “China” (fundador e primeiro presidente da agremiação), Paulo Brazão (um dos maiores compositores da história da escola) e Zé Ferreira (chamado assim na intimidade do bairro, mas conhecido no resto do mundo como Martinho da Vila).

Está tudo ali, estão todos ali – exceto o jogo do bicho, também criado pelo Barão de Drummond no Antigo Jardim Zoológico, que também fica no bairro. Não por acaso.

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One Comment

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  1. Concordo com você: esse samba enredo foi rapida e totalmente esquecido. Eu mesmo nem me lembrava que ele existia.E é bonito mesmo.

    É sim. E animado.

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