Esquentando os tamborins – E Verás que um Filho Teu não Foge à Luta

O Carnaval passou e desde ontem o caos da festa momesca se transforma num longo retiro espiritual, preparatório para a festa da Páscoa, chamado Quaresma. Toda aquela euforia se foi, todas as energias foram gastas. Foi-se o tempo em que todos se permitiram fazer o que jamais fariam em condições normais, entregues aos prazeres terrenos, numa espécie de “despedida de solteiro” coletiva. Ontem, o padre lembrou a todos que somos pó e que ao pó voltaremos um dia, certamente – um baita puxão de orelha, chamando todos à realidade inafastável da existência humana e que, por isso mesmo, não podem viver na esbórnia feito viveram nos quatro dias anteriores.

O Carnaval passou, mas esta série ainda tem um último capítulo hoje, para totalizar dez posts sobre dez sambas de enredo da minha preferência. E hoje é dia, mais uma vez, da Império Serrano desfilar, com seu samba de 1996, chamado “E verás que um filho teu não foge à luta”, como já está escrito no título deste post.

O surgimento das Escolas de Samba S/A já poderia preconizar o fim dos sambas de enredo politizados, afinal de contas, nenhum bicheiro em sã consciência iria gostar de se indispor com a classe política. De fato, olhando os enredos de Beija-Flor, Imperatriz Leopoldinense e Mocidade Independente, somente os sambas da Beija-Flor de 1984 e da Mocidade de 2004 (com Castor de Andrade já morto há sete anos) tangenciam, de longe, temas relacionados à política. Essa tendência só se acentuou com a chegada do modelo empresarial: para captar patrocínios, as escolas de samba também adquiriram o interesse de não se indispor com o poder público, de modo a não prejudicar os seus mecenas – que, em muitos casos, foi o próprio poder público de determinadas localidades do Brasil, interessado em promover-se na vitrine do carnaval carioca. Basta ver, por exemplo, que entre 2003 e 2012, de dez carnavais a Beija-Flor (a Escola de Samba S/A que melhor conjuga a força de seu mecenas com o poder de patrocínios) usou como enredo lugares do Brasil em seis, com patrocínio dos governos locais.

Em 1996, já era moda ser politicamente correto. Bater em governo estava fora de moda desde o Impeachment do Collor, quatro anos antes (que já não foi um primor de sopapos feito acontecia nas décadas anteriores). Fazer samba de enredo insurgente, então… Isso era prática caída em desuso há muito tempo. Mesmo assim, a Império Serrano, ainda não plenamente adaptada aos novos tempos, ousou e fez o que até hoje é o último samba de enredo político da história do carnaval carioca. Um samba que é, pelos especialistas, considerado o mais bonito do ano (apesar de não ter levado o Estandarte de Ouro, entregue à Imperatriz Leopoldinense) e um dos mais bonitos da longa e gloriosa história da Império Serrano – o que não é pouca coisa.

O pretexto era homenagear o sociólogo Hebert de Souza, o Betinho (que só faleceria em agosto de 1997) e sua luta por cidadania em benefício dos menos favorecidos – o que a letra do samba convencionou chamar de “Moderno Dom Quixote”, numa alusão inteligente à causa que ele abraçou. E ainda acrescenta, dizendo ser ele um ser de luz a guiar o povo, um verdadeiro filho da pátria que não foge à luta (inglória), conclamando todo o povo a lutar com ele por essa causa, na busca por um Brasil melhor. Tudo isso por meio da ONG Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida – à revelia dos governos e dos governantes.

Só que o protesto, que era só para ser contra a desigualdade social que gera fome, miséria e opressão contra os pobres, descamba para tratar de outro tema extremamente em voga na época e que tem ligação direta com a causa de Betinho: a reforma agrária. Colocar um refrão na rua que diz “Quero ter a minha terra, meu pedacinho de chão (…) quem é pobre está com forme, quem é rico está com medo” foi uma audácia digna de aplausos, mesmo mais de quinze anos depois. Para se ter uma ideia, o tema era tão palpitante na época, que a Rede Globo o trouxe às telas na novela “O Rei do Gado”, exibida entre junho de 1996 e fevereiro de 1997; Débora Rodrigues (musa do MST) foi capa da Playboy em Outubro de 1997. E logo a primeira ala da escola foi de gente fantasiada de trabalhadores rurais sem terra, com enxadas em punho (com vários artistas globais nela).

Na segunda parte do samba, numa ladeira melódica o samba desce (no bom sentido) engrenadinho, com ajuste perfeito da métrica ao ritmo – sem perder o tom ácido da crítica política e social. A ganância da classe mais abastada e a completa despreocupação dela com a classe mais baixa é a bola da vez. Ao que se segue uma pequena prece em favor da igualdade e, mais que isso, da dignidade que o ser humano precisa para viver. A oração termina com uma indagação alusiva a João Cabral de Mello Neto e seu “Morte e Vida Severina” – numa rima para lá de genial com a expressão não menos brilhante “triste sina”.

E não para por aí! O intérprete respira e, depois de se lamentar na crítica e na reza, levanta a cabeça, sacode a poeira, olha para a frente e mostra como dar a volta por cima, num dos trechos mais bonitos jamais compostos para sambas de enredo – tanto na letra quanto na melodia. Trata-se de uma receita, um modo simples e eficaz de dar solução ao problema social objeto do enredo da escola, voltando à sua temática original: a luta de Hebert de Souza e sua ONG. Um sorriso, um abraço, a união dos esforços, joga fora o que é ruim, coloca amor e dá tudo certo – tudo o que o Brasil precisava (e ainda precisa) para matar a fome.

A Império não levou o carnaval de 1996. Não chegou nem perto. Ficou em 6º lugar. Ninguém a deixaria ser campeã com um samba desses. Aquele uso que se costumava fazer do carnaval – a fuga da realidade, o despertar de sentimentos oprimidos durante o restante do ano, o protesto, a festa profana dos desfavorecidos como se ricos fossem – já não existia mais, infelizmente. A moda agora é falar bem de tudo. O carnaval deixou de ser pedra para virar vitrine.

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