Transe

Não vejo a hora de chegar em casa, poder tirar esses sapatos… Meu calcanhar, como dói. Da próxima vez vou viajar de sapato sem salto. Juro. Fico horrorosa mas não sinto tanta dor. Onde eu estava com a cabeça quando comprei esses sapatos? Eles são lindos, mas doem… Não valem a pena, mas eu nunca resisto, nunca aprendo.

Vou ficar aqui sentada um pouco enquanto não chamam o voo. Está atrasado. Era para sair… Cadê o cartão de embarque? Maldito papel, sempre esqueço onde coloquei… Está na bolsa? Onde? Ah, achei. Vamos ver… Putz, meia hora atrasado, que droga! Meia hora a mais com esses sapatos… Ai, que vontade de ir descalça para o avião… Mas o que vão pensar de mim? Sem falar que eu vou ficar com o pé todo sujo e depois, quando eu tiver que calçá-los novamente, não vai ser nada agradável.

E o pior de tudo é esse calor nojento que faz neste aeroporto. Alguém tem que ver isso. Não é possível que num lugar quente assim o ar condicionado não funcione. Ainda mais pagando o que se paga de taxa de embarque. Essa Infraero é um absurdo de ineficiência! Aí, que calor…  O Rio de Janeiro é bonito que só, mas esse calor ninguém merece!…  Como é que pode viver num lugar desse?

Epa… Portão 11. É isso mesmo? Deixa eu ver direito… É isso sim, vamos lá, finalmente. Para casa, e avante! Maldito atraso, maldito calor, malditos sapatos!… Agora onde é que fica esse maldito portão 11? Aqui é o três, quatro… Ah, não! Ninguém merece! Vou ter que pegar ônibus! Aquele idiota é que tinha razão: quanto mais se reza, mais assombra ao aparece. Eu devo ter cuspido na cruz, só pode… O pior é que se ele souber disso, vai rir de mim. Desgraçado! E ainda fica colocando foto no Facebook com aquela magrela ridícula em Cancún.  Só para provocar, só pode ser.

E agora, como é que eu chego lá nesse tal de portão 11?  Onde é que desce?   Deve ser ali…  Ai, como dói.  Se esses sapatos não fossem lindos, eu já tinha jogado fora aqui mesmo e comprado um par de Havaianas.  E o pior é que a viagem não deu em nada.  Vim para cá para o Rio de Janeiro, vi Copacabana e não pude nem pisar na areia.  Esse maldito aeroporto sem ar condicionado, o sapato machucando, estou com fome e no avião só vão servir aquele saquinho ridículo de amendoim que eu não vou nem poder comer para não engordar ainda mais…  Só falta eu ter enxaqueca agora.  Aï pronto: pacote completo de desgraça.  Eu quero sumir!  Quero ir para casa, deitar na minha cama, descansar, dormir…  Quero um namorado, quero comer, quero entrar logo no avião…

Gente, que fila é essa?…  Parece até que estão distribuindo doce de Cosme e Damião!  Eu, hein?…  Ô povo para gostar de fila…  Mas o voo está atrasado, e esse negócio de ônibus, é melhor pegar logo e sentar no avião.

– Moço, essa é a fila do voo 1999?

– É sim.

– Obrigada.

Nossa, que bafo horrível?  Não escova os dentes não?  Se bem que eu não posso falar nada, também não escovei os dentes depois do almoço hoje.  Esse negócio de bate-volta é uma droga por causa disso, mas tem suas recompensas.  Voltar para casa é a principal delas.  Quando eu chegar em casa, a primeira coisa que vou fazer é escovar os dentes.  Mentira: primeiro vou tirar os sapatos, depois eu escovo os dentes.  Prioridades…

Cara, que música é essa?  Quanto tempo que eu não ouço…  Gente, o cara aqui atrás de mim tá cantando essa música que eu a-do-ro!  Que coincidência!!!  E ele canta direitinho…  No meu tempo ele tiraria dez no videokê.  Não posso olhar, se não vai dar na cara.  Ai, controle-se…  “se espalham pelos pelos, corpo e cabelos, peitos e poses e apelos…  me agarram pelas pernas, certas mulheres, como você me levam sempre onde querem…”  Ai, eu sempre quis que um cara cantasse essa música para mim…

Ai, tô passando mal.  Ele deve estar fazendo isso de propósito, só pode ser.  Será que ele já percebeu que eu percebi?  Ai, meu deus, a fila andou e eu nem vi.  E ele não parou de cantar em nenhum momento.  É óbvio que ele já percebeu.  Putz, eu estou dando na pinta, não estou conseguindo me controlar.  Controle-se, respire…  Um… Dois…  Inspira, expira…  “Garotos não resistem aos seus mistérios, garotos nunca dizem não…”  E eu é que estou parecendo só uma garota perto dele.

Eu tenho que olhar.  Mas como eu vou fazer isso sem dar na cara?  Tenho que ser discreta…

– Cartão de embarque e identidade, por favor.

– Aqui moço…

Ele é lindo!  Ai, meu deus, o que eu faço agora?  Onde é que ele vai sentar no avião?  Já pensou se ele senta do meu lado?  Acho que vai ser a primeira vez na vida que eu vou torcer para o avião pegar uma turbulência.  Vai ser tudo o que eu sempre quis para agarrá-lo.  Só essa blusa dele que é meio mulamba, mas isso eu dou um jeito.  E ele está com cara de que está bem à vontade.  Se ele se vestir bem, vai ficar no ponto.  Não vai nem precisar fazer a barba…  Ai, essa barba roçando na minha perna…  Ui!  Dá calafrio só de pensar.

E ele ainda me deixou entrar no ônibus na frente dele.  Ai, que calor…  Vou sentar ali.  Será que ele vai vir atrás de mim?  Ele veio!  Idiota, senta do meu lado!  Vai ficar aí em pé olhando para mim cantando…  O que é que ele está cantando agora?  Sério que ele está emendando uma playlist do Kid Abelha?  Gente como é que ele sabe que eu adoro essas músicas?  “Eu quero você como eu quero…”  Eu quero você!  Como eu quero…  Por que você não senta aqui do meu lado, idiota?  Eu odeio homem que fica assim, cozinhando.  E o pior é que ele está olhando direto para mim.  E ele viu que eu olhei para ele também…

Cara, esse ônibus não chega nunca?  E ele não para de cantar nem de olhar para mim?  Gente, eu estou ficando envergonhada.  “Tira essa bermuda que eu quero você sério“…  Se ele repetir isso olhando para mim, não sei o que eu faço.  Melhor nem ver.  Chegou?  Chegou.  E agora?  Para onde ele vai?  Ele vai ter que sair primeiro… Está em pé, não tem como eu sair antes dele.  Já sei, vou sair pela outra porta só para não dar muito na pinta.  Pronto, ele foi para a porta da frente, vou sair por esta aqui.

Onde é que ele está?  Cadê?…  Monitorando…  Ai, ele continua olhando para mim!  E pior: viu que eu olhei em volta procurando por ele.  Baixa a cabeça, disfarça…  Essa blusa toda amarrotada, essa saia que subiu?  Ajeita…  Ai, queria um banheiro agora para dar uma melhorada nessa cara de dia inteiro na rua suando.

E ele está cozinhando só para subir a escada perto de mim…  Ele parou para eu subir na frente dele, vai subir olhando para a minha bunda, safado!  Por que não fala nada?  Vai ficar só me cozinhando?  Odeio homem sem atitude!  Que idiota!  E essa saia não me favorece.  Sabia que não devia ter vindo ao Rio com ela.  Fica de lição: jamais viajar com roupas confortáveis.  Nunca se sabe o que pode acontecer…  Vou colocar uma perna no degrau de cima para dar uma melhorada na situação.

Por que essa gente não sobe logo?  Só para ele ficar aqui atrás cantarolando…  O que é que ele está cantando agora que eu não estou entendendo?  É muito barulho aqui…  Não estou conseguindo escutar nada do que ele canta.  Se eu virar para ver…  Não, não posso virar.  Pronto, subiu…  Hora da verdade: onde é que ele vai sentar?  As chances são mínimas!

Onde é que eu vou colocar a minha mala agora?  Tá tudo cheio.

– Deixa que eu te ajudo.

Eu nem respondi?  É isso mesmo?  Ah, gente, eu nem respondi.  Ele tomou a mala da minha mão e…  O que é que eu falo?  O que é que eu faço?  Ele tem cheiro de homem…  Não é nem perfume nem catinga, é suor na medida certa, do jeito que eu… Ai…

– Pronto, certinho.  Você vai sentar aqui?

– Vou…

– Então boa viagem!

– O…brigada…

Ele vai mesmo sentar lá atrás?  Droga!  Agora não quero mais turbulência no voo não.  E como esses sapatos doem…

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9 Comments

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  1. Parece texto meu.

    Parece cabeça de mulher.

  2. Não vou fazer um comentário te sacaneando, só pq vc esperava um comentário te sacaneando. 😀

    Então pode fazer, porque eu não estou esperando nada.

  3. Se eu não te conhecesse teria certeza de tinha rolado um ghost writing aqui. Mas a qualidade do texto tem o seu DNA.

    Ficção.

  4. Cara, é bastante difícil escrever personagens femininos e você conseguiu. O ritmo do texto ficou perfeitamente encaixado no tema, na angústia da personagem. Gostei!

    Aê, sumido! Que bom que você gostou! Obrigado pela visita e pelo comentário. Volte sempre!

  5. Concordo com o Eduardo e com o David. Parabéns, tanto pelo texto, como por conseguir se passar por outra pessoa; ainda mais do sexo feminino. O próximo poderia ser um idoso, ou até um passarinho 😉
    E lembrei da Erica também, pelas músicas e pela temática bem mulherzinha. Quanto ao estilo dela de escrever não posso opinar, já que nunca li um texto seu. Até agora só conheço seus comentários digamos, corajosos.

    Obrigado pela parte do comentário que me toca.

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