Carta à Clarissa

Belo Horizonte, 21 de abril de 2013.

Querida Clarissa,

Não sou bom com meias palavras.  Muito pelo contrário.  Meu jeito rude de ser me torna um elemento potencialmente lesivo para aqueles que orbitam ao meu redor.  E as lâminas do meu pensamento ácido, aliado à minha falta de freio para falar (e escrever) o que penso já fizeram muitas vítimas, inclusive dentre pessoas a quem eu queria especialmete bem.  Sorte a minha que, além de tanta perversidade, eu também fui dotado de uma pitada de bom humor, que ajudam, às vezes, a amenizar a dureza das minhas palavras e, até mesmo, torná-las doces aos ouvidos de quem as escuta.  Não fosse isso, eu seria um solitário incorrigível.

Afirmo convicto, porém, que àqueles a quem eu involuntariamente machuquei – e reconheço que não foram poucos -, a dor neles provocada me feriu de maneira infinitamente mais pungente.  Carrego em mim, como cicatriz indelével, as marcas de cada rosto que, desejando ver alegre, estabanado fiz chorar.  Tudo por causa desse meu jeito inexplicavelmente ranzinza de ser.  Alguns eu, tolo, perdi para sempre, e esses são os que mais me fazem sofrer.  De outros eu consegui a compreensão de que não sou perfeito e que, inúmeras vezes, ponho os pés pelas mãos, falo o que não devo.  E, mesmo assim, jamais consegui olhá-las novamente sem me lembrar do mal que, querendo bem desastradamente, fiz.

Foi por isso que, sem sequer pestanejar, restitui-lhe aquilo que era símbolo de um dos sentimentos mais preciosos que um ser humano pode consigo carregar: a amizade, a confiança, o querer bem.  O querer bem gratuito, desinteressado, aquele que é capaz de sacrificar a si próprio em prol do bem alheio, que quando é ferido incomoda, arranha, marca.  Se realmente a tangi, nada me resta senão carregar comigo mais este fardo, de estar à distância – e não me refiro à distância física – da sua felicidade.  A felicidade que só é verdadeira e plena quando vista naquele a quem se quer bem.  A felicidade que você, melhor do que ninguém, sabe transmitir e contagiar a todos ao seu redor.

Seja feliz, como eu imagino que tenha sido ontem, no dia do seu casamento, e mais ainda do que eu desejo que seja amanhã e sempre.  E faça outras pessoas felizes com a sua felicidade, como você sempre fez.  A aceite as desculpas por uma piada malsucedida.

Do sujeito trapalhão, ranzinza, mas que gosta muito de você,

Leandro.

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6 Comments

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  1. 🙂

    Não é tão engraçado assim. Mas se eu contar ao vivo pode ficar.

  2. Nobre.
    Vale a pena exercitar mais esse tipo de “carta” e por, realmente, em prática o desejo de melhorar.

    Tô tentando. Você tá vendo.

  3. Esse desabafo é um gesto de muita hombridade. Perdoa ele, Clarissa, vai!

    O dia que eu pisar na bola com você e você engrossar um pouco comigo, você também vai receber uma carta dominical.

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