Carta a São Jorge

Belo Horizonte, 28 de abril de 2013.

Salve, Jorge!

Foi seu dia esta semana. O dia que se celebra a sua memória. O dia que lá no Rio de Janeiro se instituiu o segundo feriado mais esdrúxulo do ano – perde apenas para a folga novembrina dedicada a Zumbi dos Palmares. Honestamente, não sei o que você andou fazendo para merecer tamanha honraria de uns anos para cá, desde que o tal feriado foi instituído.

Lá no Cachambi fizeram uma grande festa. Não sei se para você ou para cada um dos participantes pois, ao que consta, a celebração religiosa da sua memória foi regada a cerveja e churrasco. Pudera! Quem mandou organizarem uma missa logo depois de uma feijoada? O teor de álcool presente ali devia ser semelhante ao teor de colesterol.  E, convenhamos, ninguém prestou atenção mais no padre ou em você do que no copo, na latinha ou na mulher com pouca roupa que passava ao lado.  Ossos do ofício, Jorge.  Desde quando matar dragões chama mais a atenção do que um grande traseiro delineado com pouca roupa?

Mas quem sou eu para lhe chamar a atenção para essas coisas?  Você deve ter testemunhado tudo isso pessoalmente, do alto de seu alazão intergalático.  O que conto aqui são histórias que ouvi pingadas aqui e ali.  Pode haver muitos pontos aumentados ao conto, você sabe.  Até porque histórias contadas por ou envolvendo bêbados sempre têm seus pontos aumentados exponencialmente.

Soube também que teve muita mulher feia na sua festa, grande Jorge.  Muita mulher feia querendo sair na foto, ainda que mal, assim como esse dragão que, ferido pela sua lança, imortalizou-se juntamente com a sua imagem.  O Senhor, como padroeiro delas – afinal de contas, é o único capaz de enfrentar um dragão, apagar-lhe o fogo ao perpassar-lhe a lança, e ainda ganhar boa fama entre os conhecidos depois da missão cumprida -, faça a gentileza de abençoá-las com a mesma bondade de sempre.  Eu rogo, porém, que não faça uso de mim para conceder-lhes o beneplácito do desencalhe.

E Jorge, na boa: avisa a sua galera para parar com esse negócio de soltar fogos o dia inteiro, desde 5h da manhã até 23:30h, quando rolou a última saraivada lá no Cachambi.  Tem gente doente que precisa descansar e que gosta de você tanto quanto os bêbados fanáticos que soltam esses fogos.  Tem criança que fica morrendo de medo – e que, quando crescer, não vai gostar de você.  Tem o risco de acidentes…  Você que apagou o fogo do dragão deve muito bem saber o quanto o fogo é perigoso.  Converse com eles, com jeitinho.  Sugira outro tipo de homenagem, quem sabe a distribuição de um prato de sopa quente a algum mendigo ou a entrega de uma cesta de alimentos para uma família carente, ou mesmo um beijo estalado numa mulher feia…  Com o mesmo dinheiro gasto em fogos, a comemoração fica mais bonita.  Até o dragão vai ficar satisfeito, vai achar que não morreu em vão.  Dá essa ideia, vai!  O mundo não está carente de explosivos…

Forte abraço,

Leandro.

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4 Comments

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  1. É muito triste observar como estas datas são tratadas …. como diz um refrão de uma música :”(…) assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade (…).” De qualquer forma, que São Jorge possa inspirar cada vez mais pessoas, com seu exemplo, em vida, de fé e amor a Jesus Cristo.

    Vou te falar que, pelo que eu ouvi dos festejos no Cachambi, vai precisar inspiração e transpiração.

  2. Em primeiro lugar, ter mulher feia na festa do Santo não deixa de ser uma bela homenagem – um monte de gente querendo matar dragões; em segundo lugar, não são só os fogos o dia inteiro, são os balões também. Salve Ogum.

    Desculpe discordar, mas de “bela” essa homenagem não tem nada.

  3. Ai, que maldade! – “afinal de contas, é o único capaz de enfrentar um dragão, apagar-lhe o fogo ao perpassar-lhe a lança, e ainda ganhar boa fama entre os conhecidos depois da missão cumprida”. Nem São Jorge escapa dessa sua língua!

    É só uma atualização do pensamento viniciano: “Que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental”.

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