Carta ao Maracanã

Belo Horizonte, 5 de maio de 2013.

Querido Maracanã,

A primeira vez que eu te vi nem me lembro.  Desse jogo lembro apenas ter ido com meus pais, lembro da torcida gritando o nome de Fillol quando ele resolveu sair do gol, ir até o meio do teu campo jogando com os pés e dar um chutão para o lado.  Não lembro data nem placar.  Na verdade, esse jogo só serviu para eu dizer ao mundo que tu não eras um absoluto desconhecido.

A primeira vez, de verdade, que eu te conheci, foi em 21 de janeiro de 1997.  Quarta-feira à noite.  Dessa vez foi um amigo que me iniciou, o Brunno, alcunha “Sávio”, apelido que eu mesmo lhe atribuí, tanto por jogar muita bola quanto por ser fisicamente parecido com aquele atacante esguio que, em meio a tantos cabeças de bagre, honrava teu gramado como poucos o fizeram.  Não lembro como comprei o ingresso (lembro apenas que custou dez reais), não lembro como cheguei…  Só lembro que, ao chegar no fim do teu túnel, no lugar onde este divisava com teus degraus da arquibancada, parei, estatelado, impressionado, boquiaberto, aturdido, idiotizado, abobalhado, congelado, embasbacado…  E fiquei ali, te olhando, diante aquele cenário idílico.  Tua relva verdinha lá embaixo, iluminada pelos muitos refletores da tua marquise, a torcida do Flamengo em vermelho com bandeiras agitadas…  Até que a mão do Sávio me agarrou pelo braço e me puxou com um invocado “Bora, mermão!  Acorda!“, seguido de longas risadas que duram até hoje quando nos lembramos desse episódio.  Seguimos subindo tua arquibancada até um ponto qualquer onde sentamos para assistir o jogo.

As lembranças do jogo também são parcas.  Lembro de uma falta cobrada pelo Romário da linha da meia-lua, defentida pelo goleiro do Corinthians, lembro do passe do Moacir (quem???) para o Romário marcar um dos gols e do placar final: 3×0 para o Flamengo.  Acho que o técnico do Flamengo era o Júnior nessa época.  Lá de cima da tua arquibancada, bem no meio do campo, onde algum tempo depois instalaram cadeiras brancas, tu parecias meu, somente meu.  Disso eu também lembro.  Ah, e como lembro…

Um ditado diz que um homem casa com uma mulher esperando que ela nunca mude, mas ela muda; ao passo que uma mulher casa com um homem na esperança de que ele mude, mas ele não muda.  Pois bem, naquela noite eu por ti me apaixonei e pedi em casamento; escolhi-te para ser minha eterna querida.  Jurei-te fidelidade por toda a minha vida, embora tenha aceitado que outros te usassem com a mesma paixão e até maior frequência do que eu te usei.  Por isso, mesmo quando ambicionei conhecer outros estádios, mais jovens e mais belos, a mesma frase vinha à minha mente: “é bonito, mas não é como o Maracanã“.  Não é mentira; de fato, eles não eram.

Eu não mudei.  Continuo o mesmo moleque apaixonado por futebol e por ti, tanto que te visitei mesmo quando não era o meu time a jogar sobre tua grama sagrada.  Continuo o mesmo garoto enamorado que, no afã e na saudade de ti, foi-te visitar de bermuda, chinelo, sem camisa certa vez.  Queria viver a experiência mais pura e inocente acerca da paixão que por ti muitos se acercavam: a simplicidade, a beleza, o encantamento, a pobreza de ser só mais um em teu coração, em teu corpo, na tua Geral.  Que saudade eu tenho de ti, bom e velho Maracanã…

Mas tu mudaste, e como mudaste…  Como uma mulher que se reinventa a cada fase de sua vida, indo ao cabelereiro, mudando seu jeito de vestir, os amigos, as lugares favoritos, os horizontes, as preferências, os gostos e os valores, tu também mudaste muito: o corpo, os amigos, a maquiagem, as ambições, os valores…  Tudo mudou em ti.  Hoje desprezas o geraldino que te consagrou, te imortalizou e te tornou a maior de todas as paixões do carioca, que te mitificou junto ao imaginário popular mundial, que te tornou uma instituição tão sagrada quanto a igreja ou a praia.  Mudaste tanto que hoje receio que não seja mais objeto de reciprocidade na afeição que ainda sinto por ti.  Afastaste-te do mundo que te adora em nome de valores questionáveis aos olhos de quem por ti morre de amores.

Tornaste-te fútil, opulento, sofisticado.  Teus adoradores mais sinceros são humildes como eras há 60 anos.  Teus amores mais legítimos vivem ainda hoje desprovidos do luxo que hoje exiges daqueles que de ti se aproximam.  Hoje te envergonhas, renuncias, rejeitas aqueles que, como eu, mais te amaram.  É uma pena, o amor mal compreendido, não correspondido.  Meu coração hoje se acanha e aperta pela falta que tu fazes.  Eras a mais bonita das cabrochas desta ala, a favorita de onde eu era mestre sala, é provável que nós não mais nos falemos, embora a festa que recebes em teu seio vá continuar, agora cercada de luxo e gala, enquanto eu, aqui fora e longe, física e mentalmente de ti, vá continuar tocando meu sambinha na rua, de pés descalços, da mesma forma que outrora, quanod eu te conheci.

Quem te viu, quem te vê…  Eu que não te esqueço, receio sequer te reconhecer, embora prometa jamais deixar de volver meus olhos a ti sempre que ao teu lado passar, lembrando saudosamente do tempo em que éramos felizes juntos, na pobreza e na simplicidade de um amor suburbano carioca, independentemente de chuva ou sol.

Adeus, Maracanã,

Do sempre apaixonado e saudoso,

Leandro.

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4 Comments

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  1. O Maracanã foi infelizmente implodido. Tem lá um estádio novo no lugar dele, que, por alguma razão que não compreendo, resolveram chamar também de Maracanã. Se ainda fosse Maracanã Júnior ou Maracanã II, eu poderia aturar. Mas do jeito que ele é hoje, perdeu toda a graça.

    Se ainda tivesse havido o impacto da implosão, essa catarse serviria para alimentar o sentimento de conformismo com a mudança. Mas isso não aconteceu, e o trauma da perda fica ainda pior.

    • Não, Márcio, nao é nem um estádio o que colocaram no lugar do Maracanã. É só mais uma daquelas “arenas” patéticas, bem ao gosto da Fifa e da Globo, que, como eu não canso de repetir, querem transformar o futebol em tênis, o torcedor em “fã” e o campeonato brasileiro em campeonato espanhol.

      O que dói mais é a parte do “transformar o futebol em tênis”…

  2. Eu, como mais um viúvo do Maracanã, fui às lágrimas com este post. #RIP Maraca.

    Não queria tanto. Foi mal.

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