Rasurado

Tudo isso aconteceu no UAI
Tudo isso aconteceu no UAI

– O senhor veio fazer a carteira de identidade.  É isso?

– É isso sim.

– É a primeira via aqui no estado?

– Sim.

– Certidão de nascimento, por favor.

– Está aqui.

Uma mão pegou a certidão.  A outra mexia no mouse.  Os olhos continuavam no computador.

– Foto.

– Está no clips.

A foto havia sido presa na certidão de nascimento pela mulher da triagem, que me deu a senha de atendimento, antes do início desta convera.

– O senhor trouxe a identidade do seu estado de origem?

– Sim.  Está aqui.

– Obrigada.

Finalmente, os olhos desgrudaram do computador e ela começou a ler os documentos.

– Senhor, não posso receber esta certidão.  Ela está rasurada.

– Como é que é?

– Sim, olhe aqui.  Há uma rasura na sua certidão.

Havia mesmo.  Notória.  Indiscutível.  O livro de registro do meu nascimento mostrava um número “5” batido a máquina sobre um número “4” mal apagado.

– Olha só, essa certidão é a única que eu tenho em toda a minha vida.  Ela foi expedida em 5 de junho de 1979.  Acho que você não era nem nascida.

– Não mesmo.

– Pois bem, naquela época só havia máquina de escrever.  Não era como hoje, que tem computador, que se escreve, apaga, escreve de novo, corrige, tudo antes de imprimir a certidão.  Naquela época, quando errava, apagava-se o erro na mão, com caneta-borracha, aquela amarela, não sei se você já viu, e batia-se à máquina por cima do erro mesmo.

– Sim, senhor, mas deveria haver uma observação aqui embaixo, explicitando que o erro de digitação aconteceu e ratificando a informação correta.

– Mas essa certidão serviu para tudo o que eu fiz em toda a minha vida.  Eu tirei identidade no Rio de Janeiro com ela, passaporte, CPF, já viajei desacompanhado com ela, fiz vestibular, serviço militar, olha aqui atrás o carimbo da Marinha…  Ninguém nunca viu uma rasura na minha certidão.  Você vai me dizer que agora você descobriu uma rasura?

– Senhor, eu não posso receber um documento rasurado.  A rasura está aqui.  O senhor mesmo pode ver…  E o erro de todo mundo não justifica o meu.  O senhor me entende?

– Entendo.  Não concordo, mas entendo.  Então faz um favor para mim.  Escreve que você não pode receber por causa dessa rasura.  Eu tenho aqui uma cópia da certidão.  Escreve na cópia: “recusada, para fins de identificação civil, por conter rasura”.  Só isso.  Aí eu me viro com o cartório.

– Eu não posso fazer isso.

– Por que?

– Porque quem faz isso é o delegado.

– Então você, por favor, aceita meu pedido com a certidão rasurada e deixa o delegado responder por escrito.

– Eu também não posso fazer isso.  Se está rasurada, eu não posso receber.  Se o senhor quiser, o senhor pode, na segunda-feira, passar lá na delegacia e falar com o delegado.  Eu não posso fazer mais nada.

Voltei para casa.  Tirei uma certidão nova.  Vamos ver o que vai acontecer na próxima tentativa.  Se ao menos eu tivesse ouvido o conselho da Carmen antes…

Anúncios

4 Comments

Add yours →

  1. Cara, realmente. Voltasse no dia seguinte, já estaria com o documento novo na mão 😀

    Nem precisava ser no dia seguinte. Bastava voltar no protocolo e pedir nova senha.

  2. A pergunta que não quer calar, pq vc quer uma identidade de minas, so? Manda um beijo para suas mulheres, rs. Saudade de vocês. Bjos

    Isso depõe contra a minha moral, né? Vou repensar o assunto.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: