Carta ao Marcelo Moreno

Belo Horizonte, 12 de maio de 2013.

Caro Marcelo Moreno,

Não foi com alegria nem com otimismo que eu recebi a notícia da sua contratação para ser o atacante do Flamengo. Já estou calejado dessas soluções mirabolantes para deficiências crônicas do time. São muitos anos torcendo e sofrendo. Mais do que você tem de idade. Se eu for enumerar todas as esperanças contratadas que resultaram em pura frustração, você vai ficar assustado.

Não o considero um bom jogador; não o considero um bom atacante; nem acho que você seja capaz de fazer coisas melhores do que o Hernane fez no Campeonato Carioca. Mas não me leve a mal. Não é desconfiança – é ceticismo mesmo, e preconceito também. Como é possível um boliviano jogar bem futebol fora da altitude de La Paz? A resposta, desde El Diablo Etcheverry, permanece a mesma: isso não é possível. Não há fatos que me levem a crer o contrário.

Na qualidade de torcedor e, portanto, diretamente interessado no seu sucesso, sinto-me na obrigação de lhe dizer algumas verdades às quais, estas sim, creio e curvo-me. Tratam-se de fatos históricos, não de conjecturas como as que fiz a seu respeito nos parágrafos anteriores. E, ante a firme crença de que, no futebol, esses fatos tendem a se repetir, torço para que estes se repitam. E isso depende apenas de você.

Muita gente boa já foi contratada para jogar no Flamengo. Alguns, é bom lembrar, para fazer o mesmo que você deverá fazer quando estiver em campo: gols. Grande parte desses bons jogadores acabou micando, não deram certo. Esqueceram o bom futebol em seu passado, acovardaram-se, desinteressaram-se, sentiram o peso da responsabilidade e da cobrança, apequenaram-se… Poucos, muito poucos, poucos mesmo, cumpriram suas metas satisfatoriamente.

Ao contrário, alguns pernas-de-pau, cientes de suas limitações futebolísticas, físicas e, em alguns casos mais graves, mentais também, trabalharam arduamente e deram certo. Eles souberam avaliar com perfeição as suas chances de sucesso no Flamengo, a começar por ter a consciência de que a sorte lhes batera a porta, permitindo que eles vergassem o mais sagrado dos mantos no mais sagrado dos estádios, diante da mais sagrada das torcidas, entoando os mais sagrados cânticos.  Ciente dessas limitações, investiram naquilo que a torcida do Flamengo mais gosta: na raça, na dedicação, na entrega, na persistência, na obstinação.  E acabaram dando certo, por mais improvável que isso fosse.

No atual cenário, prefiro a alegria da surpresa positiva à frustração que esvazia os cofres do clube.  E você, definitivamente, não está à altura dessa segunda hipótese.  Procure ser a primeira.  Jamais esqueça que você não passa de um péssimo jogador em cuja porta a sorte grande bateu.  Certa vez ouvi um comentarista esportivo dizer que sorte é igual a oportunidade mais competência (para aproveitar a oportunidade).  Prove, a mim e à Nação, que você é um cara de sorte – e não um mero oportunista.  Regue o gramado com seu sangue suado a cada jogo.  Faça o que qualquer torcedor faria se pudesse vergar aquele manto diante de seus pares.  Não é preciso amor, não é preciso paixão – a raça basta.

Boa sorte!

Leandro.

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2 Comments

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  1. Pelo menos seu time contratou alguém.

    Há vezes em que reforçar o time não é contratar, mas sim vender.

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