Carta ao Motorista do Ônibus

Belo Horizonte, 12 de maio de 2013.

Caro Motorista,

Você voltou às manchetes…  Eu vi, nessas últimas semanas.  Li cada linha de notícia, vi cada vídeo, todos os noticiários.  Você esteve na capa de todos os meios de comunicação do país – mesmo aqueles que não têm uma capa, propriamente dita, como o rádio e a televisão – no papel de vilão ou, no mínimo, de apontado possível maior inimigo público.  Só porque você é responsável por dirigir aquela máquina de guerra urbana que se convencionou chamar ônibus; só porque ciclistas são frágeis e ônibus são fortes; só porque tens a fama de cometer atrocidades no trânsito; só por causa disso.

Eu vi atentamente cada uma das imagens divulgadas acerca dos três últimos acidentes que o tornaram indicado ao Oscar de maior vilão urbano do Rio de Janeiro, quiçá do Brasil (acima de Marcos Feliciano, José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros, Eike Batista, Novo Maracanã, cracudos, cobertura do Engenhão…).  E, na minha opinião, você não teve culpa dos acidentes em nenhum dos três casos: o triatleta notoriamente avançou o sinal vermelho na direção do meio do ônibus (praticamente um suicídio); o garoto atravessou a Av. das Américas na frente do ônibus sem nenhuma noção de prudência; e outro menino caiu da bicicleta praticamente debaixo do ônibus em movimento, sem dar a você qualquer chance de tentar evitar o acidente.

Mas você tem a fama – fama que você conquistou com seus próprios méritos, dia após dia, viagem após viagem.  Deram-lhe poderes sobre o bem e o mal, as chaves para ligar e desligar o ônibus na terra…  E você não entendeu que, com elas, poderia desligar a vida de tantas pessoas aqui na terra e ligá-las no céu, não entendeu que a todo poder corresponde uma responsabilidade e que essa responsabilidade, quando mal utilizada, um dia se volta contra você.  E aí, meu caro, não há poder que dê jeito.  Você tem sorte de ainda não ter sido linchado.

Meu conselho é que permaneça quietinho no seu canto.  Faça um esforço, tente se reeducar, dar o bom exemplo.  Não use o freio como buzina, para pressionar outros motoristas.  Aquele barulho do ar comprimido é a síntese do seu mau comportamento no trânsito.  Acelere e freie de maneira macia, imperceptível.  Vá devagar, somente pela pista da direita, não tenha pressa de nada, a não ser de fazer o bem que você gostaria que outro motorista fizesse se você fosse o motorista daquele carro pequeno ao seu lado ou o sujeito sobre a bicicleta que anda na pista da direita.  Pare no ponto, somente no ponto, e sempre juntinho da calçada, para que os passageiros não tenham que pisar na sarjeta imunda nem arriscar suas vidas em meio aos carros para alcançar a gigantesca escada do ônibus.  Tente manter a janela do coletivo o mais longe possível do asfalto nas curvas.  E sorria, gentil, a todos os que lhe disserem impropérios!  Eles não sabem o que fazem.

No início, vai ser difícil.  Depois você vai se acostumar.  E, aos poucos, com gentileza, você vai ganhar a simpatia de todos.  Quem sabe, até uma música do Roberto Carlos no final de ano? – assim como os caminhoneiros e os taxistas, que não julgo serem melhores do que você em termos de educação de trânsito.  É difícil, eu sei, porque o Rei não anda de ônibus, mas vale a pena tentar.  Eu acho que vale.  Vamos, tente!  Não há nada a perder.

Boa sorte,

Leandro.

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One Comment

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  1. Deu até dó do motorista… passou.

    Os caras pedem, né?

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