Somos tão jovens

Cartaz do filme
Cartaz do filme

Metade da sala de cinema estava ocupada por crianças que só ouviram falar da Legião Urbana depois da extinção do grupo, precipitada pela morte de seu líder, Renato Russo.  A outra metade, mais velha, tinha cara de ter curtido a Legião quando ela estava ainda na ativa.  Era ao mesmo tempo estranho e curioso ver aquela dicotomia ali, tão clara.  Os mais velhos, como eu (que nem sou tão velho assim, nessa comparação temporal – quando o Renato Russo morreu eu tinha 17 anos e já arranhava as músicas dele no violão), aguardavam o filme em silêncio, como quem ora introspectivamente antes do início da missa.  Os mais novos, como tantos ali presentes, conversavam e brincavam com seus celulares, como quem só vai assistir mais um dentre tantos outros filmes projetados numa tela em branco de cinema.

Bastou que as luzes se apagassem para que a situação se invertesse: quem estava tagarelando calou-se.  E quem estava calado começou a cantar.  E cantou o filme todo, junto com a Legião Urbana.  Um coro baixinho, coração apertado de saudade.  Cada um ali parecia ter um motivo especial para lembrar de cada música da Legião Urbana, executada durante o filme, associando-a a um momento de sua vida adolescente (ou antes disso, até).

O filme nem é tão bom assim.  Por vezes, parece até um filme “B”, daqueles meio toscos, feitos com orçamento reduzido e parco em recursos.  É bacana ver os “carrões” antigos, ainda com placas amarelas de duas consoantes apenas.  É interessante ver como Brasília é meio atemporal, com sua arquitetura meio dura.  Mas os atores são tão bons quanto o Ricardo Macchi e o Cláudio Heinrich.  Não todos, que isso fique bem claro.  Há três exceções que se salvam na película: Marcos Breda, no papel do pai de Renato Russo; Bianca Comparato, no papel (bem pequeno, mas muito bem feito) da irmã de Renato; e Thiago Mendonça, no papel de Renato Russo.

Aliás, este último merece um…  Sei lá.  Acho que até um Oscar seria pouco para ele.  O cara imita o Renato de um jeito que, inúmeras vezes, batia uma dúvida se era ele ou o próprio Renato na tela.  O jeito de dançar com os braços balançando aleatoriamente, o jeito de cantar com o queixo encostado no ombro, o jeito de ajeitar os óculos, o jeito meio gay de gesticular e falar, em tudo lembram as imagens que eu recordo de ter visto sobre o Renato Russo na televisão.  De barba, então, é um assombro!  E isso faz saltar ainda mais aos olhos a precariedade do restante do elenco.  Faz, também, aumentar as saudades daquele tempo que não volta mais.

No fim, com um gostinho apetitoso de “quero mais!”, o comentário que resumiu o que eu estava sentindo quando o filme acabou foi feito por uma mulher que estava sentada próxima de mim (brilhante!): “eu queria ter tido idade para ir num show dos caras“.  Para mim, como para toda aquela molecada que estava no cinema, sobraram apenas as músicas gravadas e o filme.

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2 Comments

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  1. Vc tem a mesma idade que eu. Legião no dia 08/10/1994 no Metropolitan. Eu fui! E ainda tenho o ingresso guardado. Foi memorável. Mas não vem com essa que vc não teve idade para ir a um show.

    Fora isso, saudades de vc. Eu nunca comento aqui, mas acompanho sempre. Bjs

    Eu sei que você acompanha.
    PS. Estamos velhos…

  2. Eu fui no show do Metropolitan. Na verdade, era mais um culto do que um show, quem estava lá, mais do que se divertir, queria cultuar a Legião e, mais do que isso, a imagem do Renato Russo. Também assisti a peça com o Bruce Gomlewsky, sobre a vida do Renato Russo e a história da Legião, e o clima de reverência e idolatria era o mesmo.

    Lendo o que você escreveu, mais o que eu vi, o que impressiona é que a adoração à Legião parece imortal.

    Não sei por que não vi o filme, acho que por preconceito mesmo: achei que seria um filme fraco, oportunista, que não estaria à altura da Legião, mas me arrependi. Agora, só na locadora.

    Já saiu de cartaz? Olha, acho que aqui no subúrbio ainda dá para ver…

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