El Perro Perdido

Pois bem, depois da carta do último domingo, muita gente que não sabia já deve ter matado a charada do meu último destino de férias. Foi por causa disso que algumas respostas a comentários atrasaram aqui no blog. Tudo, porém, já está em dia. Tudo já voltou ao normal. E, como é tradicional, na volta das férias, há posts sobre o destino desta última viagem – que irão ao ar sempre às quartas-feiras, desta vez. O post de hoje é este aqui: El Perro Perdido. A propósito, os textos terão sempre títulos em espanhol traduzidos pelo Google Translator, para ficar bem apavorante.

Mas, por que raios começar falando de cachorros em uma viagem a Santiago, capital do Chile?

Porque nada chama mais a atenção naquela cidade do que a quantidade de vira-latas perdidos circulando pelas ruas, livremente, sem incomodar e sem serem incomodados. Sério: é uma infinidade, muitos mesmo. Um cacetão, como eu teria dito há uns 32 anos ao meu avô, segundo relatos de pessoas presentes na época.

Fazendo o que faz de melhor
Fazendo o que faz de melhor

E o mais curioso é que todos eles partilham de algumas características comuns em toda a população tombalatense de Santiago. Por exemplo:

  • são todos de grande porte (do tamanho de um labrador adulto, pelo menos, mas às vezes maiores), o que me levou a crer que eles têm conhecimento e aplicam, na prática, a teoria evolutiva de Charles Darwin;
  • todos têm pelos longos, como golden retrievers ou pastores, provavelmente também em consequência da aplicação prática da sagrada teoria de Darwin; afinal de contas, só com muitos pelos e pelos grandes é possível suportar o frio de lascar que faz por aquelas bandas, especialmente no inverno;
  • nenhum deles late; aliás, devem até saber latir, porque eu não acredito em uma castração de língua coletiva; mas são educados, no sentido de que não ficam latindo o tempo todo, para tudo e para o nada, para todos ou para ninguém; comportam-se muito bem, sob este ponto de vista;
  • não importunam ninguém; não enchem o saco de ninguém; ficam no canto deles, tranquilos, ou simplesmente passeiam pelas ruas, sozinhos ou na companhia de outros dois ou três (grupos sempre pequenos, não mais que quatro cães, para não serem confundidos com uma excursão de brasileiros afoitos); atravessam a rua sem atrapalhar o trânsito – isso eu nem precisava ressaltar, pois está no DNA do vira-lata.

Como bons vira-latas, honram com maestria o ditado que diz: “mulher, soldado e cachorro entram em qualquer lugar”. As mulheres e os soldados podem não fazer a parte deles, mas os cães de rua de Santiago fazem. E muito bem. A primeira cena turística que eu presenciei em Santiago foi no Palácio La Moneda: a troca da guarda. Falaremos sobre ela, enquanto atração turística, no momento oportuno. Aqui, o negócio são os cachorros da cidade. Voltemos a eles. Vem a tropa marchando, ao som de uma banda marcial, cavalos na frente, bandeira e tal. Entram no cercadinho que separa os turistas da área de evolução do desfile – acompanhados de dois vira-latas.

Troca da Guarda no Palácio La Moneda
Troca da Guarda no Palácio La Moneda

Sério! Os vira-latas entraram também e ficaram lá, correndo de um lado para o outro, no meio dos soldados enquanto eles marchavam para lá e para cá, ao som da bandinha. Foi hilário! Até porque eles tentaram, algumas vezes, pular no trompete (ou corneta, ou tímpano, ah!, vocês entenderam). O líder da falange tinha que marchar meio que enxotando o cachorro, que não arredava fácil o pé dele. Enchia o saco com competência. Fosse eu, estaria preso. Como era um cachorro, ele nem ligou. E todo mundo via aquilo com a maior naturalidade – como pombos em Veneza, como golfinhos em Noronha, tatuís na praia (esses já estão ficando difíceis de serem encontrados), ratos no metrô de Nova Iorque…

Em algum lugar, não lembro exatamente onde, vi um cartaz que, no relance, parecia tratar de uma campanha pública contra o abandono de cães na cidade. Talvez esteja aí a chave do mistério dos cães de rua de Santiago. Eu não creio, no entanto, que somente o abandono seja a causa da existência de tantos cães. Descobri, depois, já de volta ao Brasil, que essa população de rua é chamada de “chilitos” pelos locais.

Vi muito poucos cães em guias, passeando com seus donos. Talvez, imagino, Santiago tenha adotado uma política de “cachorro público“, semelhante à bicicleta pública (Vélib) de Paris, Londres, Rio e outras cidades do mundo. Você não precisa ter o seu cachorro, você pode adotar um na rua para dar um passeio e depois deixar ali mesmo para que outra pessoa também possa ter uma companhia para um passeio.

Não vi gatos. Nem um. Ponto para Santiago.

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