Carta à Fifa

Rio de Janeiro, 16 de junho de 2013.

Cara Associação Internacional das Federações de Futebol,

Escrevo a propósito do que tenho visto na Copa das Confederações, que desde ontem acontece aqui no Brasil. Escrevo, também, a propósito da Copa do Mundo que vai acontecer aqui no Brasil no ano que vem.

Estou acompanhando a Copa das Confederações pela televisão. Não vou assistir nenhum jogo no estádio, essa é a minha firme intenção em ambas as competições. Acho que, na tranquilidade do meu lar, eu posso aproveitar mais esses eventos. Sem contar que, com o dinheiro que eu gastaria de ingressos, eu posso comprar caixas de cervejas de trigo – das melhores! – e tomá-las geladinhas. E, se eu for ainda entrar na seara do perrengue do transporte público para ir e vir do estádio, das horas de espera oriundas da má organização (ou da péssima execução da má organização) tanto na hora de retirar ingressos quanto no evento em si, do risco de levar porrada de graça da polícia militar local a troco de nada (isso voltou a ser moda por aqui), até você vai concordar que não vale a pena.

Pela televisão, nem dá para perceber que o evento se realiza no Brasil. Não tem nada de brasileiro no evento transmitido pela televisão. A minha maior decepção foi há pouco, nesse jogo entre Itália e México, realizado, supostamente, no Maracanã. O bom e velho Maraca, palco de muitas das minhas mais felizes e vivas lembranças futebolísticas. Foi mesmo no Maracanã este jogo?

Não pergunto isso pelas obras pasteurizadoras que ele recebeu. Não quero insistir nesse ponto. Isso só me trará mais tristeza. Deixa isso para lá. A questão que eu quero abordar é a impessoalização do estádio e do evento. Não só eu não reconheci – e vou demorar muito tempo para reconhecer – o Maracanã pela transmissão da televisão, como acho que não vou reconhecer nenhum outro estádio, seja ele novo ou velho. O ponto não é o desaparecimento da Geral, das cadeiras, e ausência de separação entre os anéis de arquibancada… O ponto é a rede do gol.

Fifa, me desculpe, mas mexer na rede do gol é sacanagem!

Viajar o mundo com esse produto incrível, que são essas competições de elite de futebol, é muito legal. Mas é importante respeitar algumas particularidades locais. Vá lá que se imponha a obrigação de torcer sentado, afinal de contas são muitos torcedores das mais diferentes partes do mundo, que precisam ser recebidos com um certo padrão para gerar conforto e, consequentemente, atratividade para o evento. Vá lá que algumas normas de segurança tenham que ser respeitadas, para garantir a integridade física de todos os envolvidos na partida e, em última análise, o sucesso do evento como um todo. Mas daí a ignorar completamente as particularidades mais genuínas da cultura local é uma baita duma insensibilidade (palavra que, aqui, é empregada para dar elegância ao texto, substituindo o palavrão que eu queria soltar neste momento).

Aqui no Brasil, dona Fifa, cada estádio tem uma cara, que o torna facilmente reconhecível por qualquer torcedor, só de ver a imagem na televisão. E essa identidade é a rede do gol. Eu, como todo brasileiro, sou capaz de reconhecer num relance se o jogo é no Morumbi, na Fonte Nova, no Maracanã, em São Januário ou no Beira Rio, só de ver a baliza com a rede pendurada nela. Formatos diferentes e inconfundíveis, únicos. Não precisava mexer nisso.

Até porque, me desculpe a intromissão, esse padrão de rede que você impõe, é péssimo. A bola bate lá no fundo, na hora do gol, e volta para dentro do campo. Quem entende de futebol – não de táticas, negócios ou outras coisas chatas correlatas, mas de paixão! – sabe que não há coisa mais bonita do que uma bola morta no fundo da rede. Essa história de bater na rede e voltar para o campo é péssima. Bom mesmo é ver e ouvir a rede estufar, enchida pela força do arremate, conduzindo a bola para o fundo, forçando o zagueiro ou o goleiro a curvar-se ao sucesso do adversário para resgatá-la e reconduzi-la ao centro do campo.

Era só isso que eu tinha para reclamar, desta vez.

Leandro.

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2 Comments

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  1. Nossa, eu fico até deprimido quando começo a pensar nesse assunto. Amanhã vai sair um post com lágrimas de sangue.

    Sério? Precisa tanto?

    • O post tá pronto, mas eu suspendi a publicação. Essas coisas padrão FIFA ainda me incomodam muito, vou dar uma revisada.

      Agora estão reclamando da grama. Pelo menos a grama (esburacada e ruim) continua no padrão Brasil.

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