O velho João tinha razão

Dizem que, na maioria das pessoas, a lembrança mais remota que se tem é de um fato trágico. Como tudo o que vem da psicologia, eu sempre encarei essa assertiva com muita desconfiança. Até porque, no meu caso, ela não é verdadeira.

A lembrança mais antiga que eu tenho é do meu bisavô colocando discos para tocar na vitrola. Alguém lembra daquelas vitrolas que deixavam o dialeto cair no prato em movimento para depois o braço automaticamente pousar sobre ele e começar a tocar? Pois é, ele tinha uma dessas na sala do seu apartamento. E sempre que o disco caía – seguindo o funcionamento normal da vitrola – ele pulava, alegando ter tomado um susto. Não seu por que cargas d’água eu achava aquilo engraçadíssimo. Rolava de rir no sofá. Ao ponto de ele sequer escutar o disco. Tão logo ele começava a tocar, meu bisavô voltava à vitrola para repetir o procedimento – e tomar novo susto, e me fazer cair, de novo, na gargalhada. Coisas que não têm preço mas que hoje eu entendo mais do que em qualquer outra época da minha vida.

João era seu nome. Jonjoca, para os íntimos. Infelizmente, não viveu mais do que para essa lembrança remota. Deixou um rastro de saudades e algumas filosofias de vida que hoje, ainda, são aplicadas nas casas de seus descendentes, mesmo por aqueles que não o são, como meu pai (Jonjoca era avô da minha mãe, mas tem no meu pai seu maior fã, até hoje). Coisas como o hábito de desejar boa noite a todos os presentes quando se acende as luzes da casa, ao anoitecer. Coisas simples assim, feitas em tom de uma brincadeira que soa muito mais como uma reverência à sua memória, querida por todos, do que por deboche ou descrença na efetividade de seus credos.

Foi inevitável lembrar dele novamente esta semana quando duas atitudes da Felícia convergiram para uma de suas mais célebres pregações filosófico-familiares: a utilidade de que o primeiro filho da família fosse mulher, para ajudar na casa. Fora assim com a minha avó, para a sua alegria – em ora os mais antigos sempre tenham me dado conta de que essa tarefa coubera sempre à caçula da família, a minha mãe, que, não por acaso, se tornaria o seu xodó.

O primeiro ato ocorreu quando a máquina de lavar parou de funcionar e o dever me chamou para estender a roupa no varal. Felícia me acompanhou até os fundos e pôs-se a pegar as roupas de dentro da máquina, sacudi-las e depois me entregar. Uma a uma – embora apenas as peças grandes despertassem a sua boa vontade em ajudar – ela fez isso com quase todas, deixando apenas meias e peças íntimas dentro da máquina. Baita ajuda: só de não ter que me abaixar para pegar as roupas… Não só agradeci como incentivei.

O segundo fato veio dias depois. Meu pai tem algumas muitas manias. Uma delas é manter seu quintal limpo. Já o vi varrê-lo dezenas de vezes durante um único dia, quando o vento se somou à época de queda das folhas da árvore. Esta semana eu o vi, mais de uma vez, pegar a vassoura para varrer o quintal. Mais de uma vez, também, eu vi a Felícia perceber isso e correr para legar a pá de lixo, onde quer que ela estivesse, e levar até ele falando: “Vovô, vovô! Aqui.

Ele ficou todo bobo. E eu lembrei do Jonjoca. Deve estar muito feliz e satisfeito. Sorrindo, certamente. Ouvindo vitrola, talvez.

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6 Comments

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  1. Q delícia!

    Felícia não rima à toa.

  2. Que ela continue sendo essa doçura 🙂

    Bota doçura nisso…

  3. Ganhou pontos com o sogrão aqui!

    Negativo. O João era da minha família.

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