Peso muy pesado

Quanto levar para o Chile?  Eu nem me atormentei com essa pergunta.  Estimei muito por alto quanto eu gastaria em uma semana de modesta esbaldação em São Paulo (usei São Paulo como referência por acreditar que isso seria razoável, já que poucas cidades no mundo são tão caras quanto ela), comprei em pesos chilenos e parti.  Qualquer coisa extra, pagaria no cartão de crédito ou faria um saque internacional lá em Santiago.  Honestamente, na minha vã filosofia de viagem, não são vinte ou cem reais de IOF que vão desestabilizar o orçamento de uma viagem internacional.  Portanto, não fico mendigando o que é mais vantajoso nessa hora.  Penso apenas no que é mais prático e eficiente na hora do aperto.

Meu primeiro contato com a moeda chilena foi na casa de câmbio, aqui no Brasil.  O segundo contato, mais efetivo, foi na hora de pagar o táxi do aeroporto até o hotel.  Chegando com uma criança de colo, num lugar desconhecido, à noite, a opção pelo conforto e a velocidade de um táxi, a qualquer custo, era bastante óbvia.  A decisão já estava tomada há muito tempo.  Nem chequei outras opções.  Foram 19.000 pesos – praticamente cem reais.  Um assombro, pensei.  Muito caro mesmo.  Mas vá lá, é o preço da comodidade.

Naquela mesma noite, no hotel, conheci o Válber (ou Walber, sei lá!).  Um brasileiro, carioca de Copacabana, que havia tirado duas semanas para se desligar do mundo: viajara sozinho para o Chile para ver neve, o deserto do Atacama, beber vinho e descansar.  Fora sem família, sem namorada, sem telefone – só com a mochila nas costas e o cartão de crédito no bolso.  Ele voltaria ao Brasil no dia seguinte pela manhã e ainda tinha 700 pesos no bolso.  Queria vendê-los.  Eu, que já havia comprado uma garrafa de 500ml de água a 1.800 pesos no hotel – mais ou menos seis reais – já começava a acreditar que minha estimativa de custo da viagem estava muito abaixo da realidade.  E ele confirmou isso: “o custo de vida aqui é alto, as coisas aqui são muito caras.  Aqui o dinheiro vai embora rapidinho.”  A mais pura verdade, confirmei ao longo da viagem.  Comprei seus 700 pesos e ficamos ambos felizes (eu ainda fiquei devendo dois reais a ele, porque não tinha trocado).

Quem converte não se diverte – é o que diz o ditado e é o que dizem quase todos os viajantes.  Aliás, você, leitor, deve estar pensando nisso agora enquanto lê esse post.  Realmente, quem converte não se diverte.  Mas, no Chile, quem não converte corre sério risco de fazer papel de otário.  No Chile, converter é muito fácil: basta dividir aquele número enorme de pesos chilenos por 200, ou melhor, cortar dois zeros e dividir o número que sobrou por dois.  Assim, 10.000 pesos equivale a aproximadamente 50 reais.  Não é exatamente essa a conta, mas é algo muito próximo disso (em média, a cotação do peso chileno é de R$ 0,0055).  E a nota de 10.000 pesos é a mais comum por aquelas bandas.  Só lembro de ter visto uma única vez uma nota de 20.000 pesos (tão comum por lá quanto a nossa nota de cem reais).

A diferença não é essa: a questão é o que se pode fazer com 10.000 pesos.  Certamente muito menos do que se faria no Brasil com cinquenta reais.  Já falei do preço da água e, no mercado, as coisas não são muito diferentes.  O Chile é um país pouco ou nada industrializado.  Sua economia funciona a base de produtos importados.  Desde geléias até carros, tudo vem de fora do país – exceto vinhos, frutas, minério e alguns poucos outros produtos agropecuários.  E é necessário pagar o preço dessas importações no custo de vida.

Há coisas que são mais baratas que no Brasil – aqueles produtos que nós também importamos e sobre os quais pagamos pesados impostos.  No geral, porém, as coisas são mais caras.  Mais caras ainda no eixo turístico de Santiago, que vai do centro da cidade ao bairro de El Golf, passando pelo quase brasileiro bairro da Providencia.  Até os vinhos, o grande produto nacional do Chile, são muito pouco mais baratos que no Brasil.  Tão pouca era a diferença que eu, a certa altura, parei para pensar se valeria a pena o esforço de carregar o peso daquele monte de garrafas que eu queria comprar.

No fim, sem fazer grandes extravagâncias e pagando o hotel com dólares norteamericanos (quem paga a hospedagem em dólares norteamericanos evita a incidência de um imposto local de 19% sobre o valor da estadia – o que significa que é burrice pagar a hospedagem de outra maneira), gastei todo o dinheiro que eu havia levado do Brasil, os 700 pesos que eu havia comprado do Válber (ou Walber?), e ainda contraí alguns gastos no cartão de crédito – nada muito significativo.  E sem extravagância – mesmo a modesta extravagância que eu teria feito em São Paulo.

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10 Comments

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  1. Porque a primeira extravagância é estravagância?

    Porque o “x” fica perto do “s” no teclado e o sono era tanto na hora que eu escrevi que o meu dedo anelar esquerdo errou o lugar dele.

  2. Você não tinha lido sobre isso antes de ir ou não acreditou no que leu?

    Não li nada a esse respeito.

  3. Anitta a aguarda ansiosamente 😀

    Boa explicação. Talvez dê para entender.

  4. Você podia ter me perguntado.

    Sobre o peso do peso ou sobre a “preparação” da Érica?

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